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Bilhete. O ministro e as baleias
Editorial Mundo 2 min. 21.03.2019

Bilhete. O ministro e as baleias

Bilhete. O ministro e as baleias

Foto: Sarah Richter / Pixabay
Editorial Mundo 2 min. 21.03.2019

Bilhete. O ministro e as baleias

Gaston CARRE
Gaston CARRE
Jean Asselborn esteve em Tasquente. Onde vendeu baleias ao Uzbequistão. Baleias azuis da China, branqueadas no Luxemburgo em trânsito duty-free.

Estive em Tasquente, sim, isso existe, é a capital do Uzbequistão, antiga república soviética, com Jean Asselborn, que, após Gengis Khan e depois de Estaline, efetuou também ele uma visita de trabalho à região.

Tasquente no seu centro é vasta e despovoada, é uma cidade híbrida, um pouco hesitante entre Este e Oeste, a cortina de ferro foi levantada mas no novo concerto os músicos parecem andar em busca de partitura. A arquitetura atesta esta incerteza, numa capital onde os bancos de estilo neo-colossal coexistem com igrejas à moda de Chagall, em avenidas onde os varredores perseguem a poeira ao ritmo lento das economias planificadas.

Asselborn, naquela manhã, vinha do Afeganistão, estava quente, o Afeganistão, enquanto em Tasquente se ouviam assobiar os ventos da Sibéria. Havia uma mina de sal, de resto, e o ministro dos Transportes uzbeque que Asselborn visitou para assinar um acordo aéreo. Rígido como uma bota, Boris Antonov parecia ter dúvidas sobre a identidade do visitante e as suas intenções. Tanto mais que Asselborn, para descontrair Antonov, achou por bem explicar-lhe que os nossos aviões, no Luxemburgo, transportam baleias. Sim senhor, baleias verdadeiras, que os nossos cargueiros de luxo levam da China à Islândia.

Vi na mina de sal um lampejo de espanto face a este visitante pouco ortodoxo.

"Steppe!", interrompeu-o Antonov, uma lágrima de ostalgia no canto do olho –, quer dizer baleias comunistas?

"Baleias comunistas, sim, mas brancas. Os pequineses recheiam-nas de ienes, os ienes são convertidos no Luxemburgo e as baleias voltam a partir branqueadas. E graças ao acordo que vamos assinar o Uzbequistão também fará voar as baleias, as baleias recheadas, que transitarão no Luxemburgo em duty free.

"Hip hip hip Ural!", exclamou Antonov. É preciso brindar à saúde do Capital.

"Viva viva viva!", disse Asselborn.

Boris estava degelado, a vodka corria a jorros.

"E há comunistas no Luxemburgo?"

"Socialistas, com fundos de pensões e datcha em Cannes. Socialistas amolecidos, massajados pela mão invisível do capital."

Uma jornalista local quis uma entrevista, e brandiu o seu bloco-de-leste-notas diante de Asselborn. Que, depois de um momento de hesitação, constatou que a jornalista não tinha questões. Em Tasquente, a entrevista consiste em recolher respostas a questões que não foram feitas. Asselborn, de bom grado, debitou então o que a jovem não lhe perguntou, enquanto Boris estava cheio como um samovar.

Boris Antonov estava degelado à força de tanto aquecer – mais vale tártaro que nunca. Na hora da despedida, soltou-se completamente: "Go, go, Johnny Gogol!", acenou a Jean, que, após Gengis Khan e depois de Estaline, acabou a sua visita de trabalho à região.

(Tradução: Paula Telo Alves)

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