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Barril de pólvora. Resistir é a única forma de continuar a existir, dizem palestinianos
Mundo 4 min. 11.05.2021 Do nosso arquivo online

Barril de pólvora. Resistir é a única forma de continuar a existir, dizem palestinianos

Barril de pólvora. Resistir é a única forma de continuar a existir, dizem palestinianos

AFP
Mundo 4 min. 11.05.2021 Do nosso arquivo online

Barril de pólvora. Resistir é a única forma de continuar a existir, dizem palestinianos

Bruno Amaral de Carvalho
Bruno Amaral de Carvalho
Apesar dos apelos da comunidade internacional, Israel vai permitir que judeus ocupem um bairro de palestinianos em Jerusalém. Depois dos ataques a lugares de oração e dos bombardeamentos sobre a Faixa de Gaza, que deixaram centenas de feridos e 25 mortos, entre as quais nove crianças, a revolta e a indignação espalha-se na Palestina.

A alegria é contagiante para quem ali está e desconcertante para quem olha de fora. Milhares de israelitas dançam e cantam de alegria enquanto ardem vários ciprestes em frente à mesquita de Al Aqsa, em Jerusalém, o terceiro lugar mais sagrado para os muçulmanos. Foi o que aconteceu na segunda-feira já depois de as forças israelitas terem invadido por duas noites seguidas os locais de oração de centenas de palestinianos que se encontravam a celebrar o Ramadão.

Não é fácil explicar as razões que fizeram espoletar a violência dos últimos dias num país onde o que o que menos falta são razões para a a guerra faça parte da rotina. Sem eleições desde 2006, a Autoridade Palestina, depois de negociações entre as principais forças políticas palestinianas, preparava-se para realizar legislativas e presidenciais a 22 de maio mas teve que adiar depois da rejeição de Israel de um pedido para permitir a abertura de secções eleitorais em Jerusalém, capital da Palestina.

Em visita ao Vaticano, o ministro das Relações Exteriores do Estado da Palestina, Riyad al Maliki, recordou que nas eleições anteriores as secções de voto também foram abertas em Jerusalém Oriental, porque "há um acordo assinado em Washington, em 1995, e nesse acordo Israel aceitou a realização de eleições palestinianas em todos os territórios palestinianos, incluindo Jerusalém".

O ambiente político instável em Israel, em que Benjamin Netanyahu se viu incapaz de formar novamente governo, parece estar a empurrar o primeiro-ministro israelita para posições mais radicais. Ao longo dos últimos mandatos, o homem que mais tempo tem estado à frente de um executivo em Israel encostou-se a Donald Trump e ganhou luz verde para a criação de mais colonatos, para o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel com a transferência de várias embaixadas para aquela cidade.

Nas últimas noites, as imagens de forças israelitas a invadir pela força a esplanada das mesquitas fez estoirar a paciência dos palestinianos que já estavam em alerta com a possibilidade de centenas de famílias poderem ser expulsas do bairro de Sheikh Jarrah, em Jerusalém. 

A tensão foi subindo de tom ao longo das últimas semanas com várias cargas policiais e prisões de manifestantes palestinianos. Grupos de direitos humanos dizem que o objetivo de expulsar os árabes de Jerusalém é o de preservar uma maioria judaica. O movimento israelita de direitos humanos B'Tselem e a Human Rights Watch, com sede em Nova Iorque, apontaram essas políticas como um exemplo do que dizem ser um regime de apartheid.

Israel rejeita as acusações e diz que a situação em Sheikh Jarrah é apenas uma disputa imobiliária privada. Os colonos dizem que a terra era propriedade de judeus e a lei israelita permite que os judeus recuperem essas terras, mas impede que os palestinianos recuperem propriedades que perderam na mesma guerra, em 1948, mesmo que ainda residam em áreas controladas por Israel.

Os palestinianos temem que, como em 1948, sejam expulsos das suas casas e do seu país. No episódio militar que ficou conhecido nesse ano como Nakba, 711 mil palestinianos foram obrigados a abandonar as suas habitações, logo ocupadas por judeus europeus. Os palestinianos tiveram de fugir para o Líbano, Síria, Egipto e Jordânia num drama humanitário que ainda hoje persiste sem que o regresso esteja sequer previsto.

É o caso de um dirigente histórico da Frente Popular de Libertação da Palestina (FPLP), organização considerada terrorista por Israel e pela União Europeia, entrevistado pelo Contacto. Os pais viviam numa aldeia entre Acra e Haifa e foram expulsos da sua casa. Este palestiniano acabou por nascer em 1955 num campo de refugiados no Líbano.

Em relação a Sheikh Jarrah, considera que se trata de mais um episódio da política de "aniquilação e limpeza étnica do povo palestiniano" e entende que se a população não resistir será exterminada. "Com que direito vem um colono [judeu] da Argentina, Rússia ou Polónia expulsar-nos das nossas casas, casas de gerações?"

A repressão policial contra os palestinianos que rezavam provocou centenas de feridos e hospitalizados. Entre domingo e esta segunda-feira, como resposta, o Hamas lançou vários rockets contra cidades israelitas, a maioria foi intercetada pelo sistema anti-misseis de Israel. Já o primeiro-ministro, Benjamin Netanyahu, ordenou o bombardeamento da Faixa de Gaza, que o dirigente da FPLP considera ser "o maior campo de concentração da história".

Esta manhã, centenas de palestinianos reuniam-se em Gaza para chorar 25 mortos, entre as quais nove crianças, alvos dos ataques israelitas. Em plena pandemia, sem recursos médicos para enfrentar o drama sanitário, os hospitais encheram-se de vítimas do bombardeamento. A imagem de uma criança desesperada no funeral do pai, em Gaza, percorreu as redes sociais.

Também ontem, em Lod, um jovem palestiniano, Musa Hassouna, foi assassinado por um colono e esta manhã durante o funeral a revolta tomou conta dos assistentes que incendiaram um carro da polícia.

Esta tarde, Israel voltou a bombardear Gaza e fez cair um prédio de 13 andares. As imagens são impressionantes mas ainda não há balanço de vítimas.


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