Escolha as suas informações

Avisos à Europa

Avisos à Europa

Foto: AFP
Editorial Mundo 2 min. 12.09.2018

Avisos à Europa

Paulo Jorge PEREIRA
Paulo Jorge PEREIRA
As eleições na Suécia são mais uma peça do puzzle em que o avanço das forças de extrema-direita se apresenta como novo aviso à Europa. Quanto mais o projeto europeu for incapaz de entender os cidadãos maiores serão as possibilidades de crescimento dos extremistas e mais alto se ouvirá a sua voz.

Os avisos à Europa acumulam-se com o crescimento das forças de extrema-direita de forma generalizada. No fim de semana, as eleições na Suécia tornaram-se mais uma peça do puzzle em que o avanço de um partido com ideologia xenófoba, ainda que abaixo das previsões, se apresenta como sintoma de que a Europa não aprende com os erros. Quanto mais o projeto europeu for incapaz de entender as cidadãos, maiores serão as possibilidades de crescimento dos extremistas e mais alto se ouvirá a sua voz.

Tão alto, aliás, que já são presença marcante em parlamentos e integram governos. Casos como os de Hungria, Polónia, Itália, Finlândia, Áustria, Holanda ou Bulgária representam exemplos em que a extrema-direita cresceu de forma evidente. Em França, Marine Le Pen foi travada por Emmanuel Macron nas presidenciais em 2017. Além destes casos, a Alemanha enfrenta não só manifestações de caráter racista, como as que aconteceram recentemente em Chemnitz, mas também a subida do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), num contexto em que a coligação sob a liderança de Angela Merkel que reúne CDU, SPD e CSU se mostra frágil. E a fragilidade está bem expressa na forma como Horst Seehofer, o ministro do Interior germânico, chegou a ameaçar com a demissão caso a chanceler não adotasse medidas que contrariassem a chegada de migrantes a solo alemão. Tudo porque a subida do AfD coloca em risco a posição da CSU nas eleições bávaras marcadas para o próximo dia 14 de outubro.

E este tem sido um dos sucessivos erros cometidos um pouco por toda a Europa, agravado com uma crise migratória cuja resposta foi tardia, atabalhoada e, em muitos casos, com falta de espírito humanitário. A governação à vista, atormentada por estratégias eleitoralistas e receios de que os cidadãos se mostrem contrários aos interesses dos partidos e dos respetivos líderes, só podia dar maus resultados.

Na visita que realizou ao Luxemburgo, Macron não se cansou de falar da necessidade de políticas comuns, solidariedade e união, mas as palavras, por muito interessantes que se apresentem, não são suficientes – é preciso que se concretizem em ações. E o que os últimos anos mostraram foi algo de muito diferente com uma classe política europeia cada vez mais alheada dos cidadãos e estes respondendo com o afastamento dos atos eleitorais e altas taxas de abstenção. Assim se criam as condições para que os extremistas ganhem força e minem os pilares da democracia, criando-se um quadro com cada vez mais pontos de contacto com os anos 30 e as tragédias mundias que daí resultaram. Não são apenas Trump e Putin que representam ameaças – a Europa está avisada e precisa de se reinventar. Terá capacidade para isso?