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Atentados no Sri Lanka. Canto de cisne ou globalização da ação do ISIS?

Atentados no Sri Lanka. Canto de cisne ou globalização da ação do ISIS?

Foto: AFP
Mundo 4 min. 24.04.2019

Atentados no Sri Lanka. Canto de cisne ou globalização da ação do ISIS?

Os atentados que vitimaram até ao momento 359 pessoas no Sri Lanka tornaram-se num dos maiores ataques deste género de que há memória desde o 11 de Setembro.

“As células terroristas da região são parte de uma rede jihadista internacional” e a reivindicação dos atentados no Sri Lanka pelo ISIS confirma-o, afirmou esta semana o académico Rohan Gunaratna, diretor do Centro Internacional para a Investigação do Terrorismo e da Violência Política com sede em Singapura.


TOPSHOT - Children sit next to flowers left by mourners near St. Anthony's Shrine in Colombo on April 23, 2019, two days after a series of bomb blasts targeting churches and luxury hotels in Sri Lanka. - Sri Lanka began a day of national mourning on April 23 with three minutes of silence to honour more than 300 people killed in suicide bomb blasts that have been blamed on a local Islamist group. (Photo by Jewel SAMAD / AFP)
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"O pensamento deles era que o Islão deveria ser a única religião neste país", disse o ministro da Defesa.

De acordo com o The New York Times, desde 2017, o ISIS e os seus seguidores levaram a cabo ataques em pelo menos 25 países. Em janeiro, executaram um ataque nas Filipinas numa igreja católica que matou 25 pessoas. Grupos com ligação ao ISIS continuam ativos na Líbia, no Egito, na Nigéria e no Afeganistão. De acordo com o Público, um artigo na Foreign Policy sobre o declínio do califado, publicado em 2017, de Colin P. Clarke, destaca como o grupo se adapta às circunstâncias e se reagrupa agora na Líbia “em células mais pequenas”. Também há mais presença do ISIS no Afeganistão com ataques contra a comunidade xiita.


Pelo menos 45 crianças e adolescentes morreram nos atentados no Sri Lanka
Segundo Christophe Boulierac, um porta-voz da Unicef, outros jovens "estão feridos e a lutar pelas suas vidas", depois do atentado que provocou pelo menos 310 mortos.

O espanhol Público lançava também esta semana o debate sobre se seria possível uma situação semelhante àquela que se deu na Líbia, Iraque e Síria. O norte da Nigéria e o sul das Filipinas aparecem como possibilidades dado a capacidade operacional das forças locais com ligações ao ISIS. Também o Mali, onde opera o chamado Grupo de Apoio ao Islão e aos Muçulmanos, uma cisão da al-Qaeda no norte de África impulsionada pelo iemenita Abu Basir. A sua força chegou ao ponto de armar aldeias de pastores e agricultores num clima que se aproxima de uma guerra civil apesar das forças francesas de pacificação da ONU.

Foto: AFP

O regresso dos jihadistas aos seus países

Ainda que tenha sido anunciada a derrota militar do Estado Islâmico (ISIS) no Iraque e na Síria, muitos dos seus combatentes continuam vivos e permanece a dúvida sobre o que vai acontecer aos mais de 50 mil jihadistas procedentes de mais de cem países que se mobilizaram para construir uma forma de governo alinhada com a sharia a que chamam califado. Só do Magreb saíram quase sete mil combatentes. O regresso dos sobreviventes a países como Marrocos, Tunísia ou Egito fez soar o alerta também na União Europeia não só porque muitos destes combatentes têm também nacionalidade europeia mas também porque muitos dos jihadistas europeus têm ascendência norte-africana. São conclusões de um estudo publicado esta quarta-feira pelo centro de análise Egmont, de Bruxelas, e pela fundação alemã Konrad-Adenauer-Stiftung.


Portuguesa viu marido morrer à sua frente no ataque terrorista no Sri Lanka
Sílvia Ramos e Rui Lucas estavam a passar a lua-de-mel no Sri Lanka quando o ataque ocorreu. Os sucessivos ataques bombistas deste domingo - que provocaram pelo menos 310 mortos - estão entre os mais mortíferos desde o 11 de setembro.

O prólogo do relatório, assinado pelo coordenador europeu da luta contra o terrorismo, Gilles de Kerchove, afirma que o regresso dos jihadistas pode gerar instabilidade na região com potencial “impacto negativo na segurança europeia”.

O documento recorda que tal contágio já se produziu em anteriores ocasiões como nos ataques de Casablanca (2003) e Madrid (2004) depois de regressarem grupos marroquinos que tinham viajado até ao Afeganistão depois da vitória dos talibãs em 1996 e ao Iraque com a invasão norte-americana em 2003. O estudo adverte que desta vez o número de combatentes “é previsivelmente maior” do que a cruzada anti-soviética no Afeganistão nos anos 80.


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Autoridades anunciaram a detenção de mais suspeitos de envolvimento nos atentados.

Marrocos é o país que dá dados oficiais mais precisos sobre a situação, informa o El País. Os marroquinos que viajaram para o Iraque e para a Síria, entre 2013 e 2017, foram 1664, entre eles 285 mulheres e 378 crianças. Desses, morreram 596 em combate ou em ataques suicidas e voltaram 213. Dos 200 retornados, quase todos foram julgados e encontram-se na prisão com sentenças que vão dos 10 aos 15 anos, de acordo com fontes oficiais.

A Tunísia é o país que contribuiu com mais combatentes para as fileiras do ISIS em relação à sua população de 11,5 milhões de habitantes. As estimativas oscilam entre os 7 mil, de acordo com a ONU, e os 3 mil assumidos pelas autoridades do país a que há que somar os cerca de 1500 que se alistaram na Líbia. A maioria dos retornados, cerca de mil, foram condenados a cinco anos de prisão com um posterior período de vigilância de três anos.

O estudo aponta quatro razões para a Tunísia dar tantos combatentes ao ISIS: o governo islamista criou um ambiente favorável à radicalização entre 2011 e 2013; depois da primavera árabe de 2011, o aparelho de segurança do Estado ficou debilitado e a amnistia geral.


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