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As mulheres estão a fazer uma revolução no Irão
Mundo 11 3 min. 22.09.2022
Protestos

As mulheres estão a fazer uma revolução no Irão

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As mulheres estão a fazer uma revolução no Irão

AFP
Mundo 11 3 min. 22.09.2022
Protestos

As mulheres estão a fazer uma revolução no Irão

Ana Patrícia CARDOSO
Ana Patrícia CARDOSO
Em protesto contra a morte de uma jovem pelas mãos da "polícia da moralidade" iraniana, milhares de mulheres saem à rua todos os dias e estão a queimar publicamente os véus islâmicos, mesmo correndo o risco de serem presas. Caso já chamou a atenção de líderes mundiais.

Há praticamente uma semana que as ruas do Irão se enchem de manifestantes contra a morte da jovem Mahsa Amini, de 22 anos. 

Masha, natural do Curdistão, visitava a família em Teerão sem imaginar que aquela seria a sua última viagem. Foi detida por alegadamente usar a hijab (véu islâmico) de uma forma "imprópria". Segundo o código de vestuário das mulheres na República Islâmica do Irão, estas não podem mostrar os cabelos em público, usar saias curtas, calças justas, jeans, cores vivas, etc...

Presa por uma unidade especial conhecida como a "polícia da moralidade", terá sido espancada e sofrido tortura, segundo a família. A mulher, cujo primeiro nome curdo é Jhina, entrou em coma e acabou por morrer no dia 16 de setembro, num hospital da capital. As autoridades negam as acusações e afirmam que Masha morreu de causas naturais. 

O caso acabou por desencadear protestos no próprio dia e arrastam-se até hoje, sem sinais de abrandamento. Na passada quinta-feira, os manifestantes incendiaram esquadras e veículos da polícia. Foram relatados incidentes em dezenas de cidades e vilas, para além de Teerão, como Karaj, Shiraz, Tabriz, Kerman, Kish Island, Yazd, Neyshapur, Esfahan e Mashhad. 

A população, sobretudo, as iranianas estão a marcar uma posição contra a brutalidade e repressão direcionada às mulheres. 

Os protestos têm escalado e a televisão estatal já confirmou pelo menos 31 mortes numa semana. A polícia tem usado a força e gás lacrimogéneo. 

Como tentativa de travar as manifestações, o Irão também bloqueou a internet em partes de Teerão e do Curdistão e impediu o acesso a plataformas como Instagram e WhatsApp, ferramentas de difusão do movimento.  

Isto porque a mobilização começou -e continua - pelas redes sociais. Há vários vídeos partilhados na internet onde se podem ver fogueiras em espaços públicos onde as mulheres estão a queimar os seus véus. Muitas mulheres, também fora do Irão, têm cortado o cabelo como forma de protesto, usando a hashtag #MahsaAmini. 

 

Uma mulher idosa protesta sem a hijab nas ruas da cidade de Rasch. 

Vale lembrar que estas mulheres correm risco de vida ao protestarem publicamente, num país onde os direitos das mulheres tem sido reprimidos ao longo do tempo e já no mandato do atual Presidente Ebrahim Raisi. A 15 de agosto, Raisi, assinou um decreto que, entre outras medidas, aumentou a punição para as mulheres que colocassem conteúdos "anti hijab" online. 

O líder iraniano está a participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, mas já comentou o caso, afirmando que a morte de Amini está a ser investigada e "todos os sinais apontam para um ataque cardíaco ou acidente vascular cerebral", disse, mas sublinhou "que não é essa a determinação final". Negou também a acusação de espancamento e tortura. 

Organizações como as Nações Unidas ou países como os Estados Unidos e a França já demonstraram preocupação sobre o "caso Amini" assim como pela forma violenta como as autoridades estão a tratar os manifestantes.

Estas são as manifestações mais graves desde novembro de 2019, altura em que os iranianos saíram à rua para protestar contra o aumento dos preços dos combustíveis.  

"Recuso-me a usar véu" 

Esta quinta-feira, a jornalista Christiane Amanpour, da CNN, publicou nas redes sociais um momento com o Presidente iraniano que levou ao cancelamento de uma entrevista em Nova Iorque. 

40 minutos depois do combinado, um conselheiro do presidente veio ter com a equipa e sugeriu que Amanpour usasse um véu, uma vez que estes são "os meses sagrados de Muharram e Safar". 

A jornalista recusou "educadamente" e justificou a decisão porque "esta é a cidade de Nova Iorque, onde não existem leis ou tradições sobre o uso de lenços de cabeça. Salientei que nenhum presidente iraniano anterior o tinha exigido quando o entrevistei fora do Irão", escreveu. 

A entrevista acabou por não acontecer. 

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