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As migrações são a nova fronteira da política
Editorial Mundo 6 min. 22.09.2018 Do nosso arquivo online

As migrações são a nova fronteira da política

As migrações são a nova fronteira da política

Foto: AFP
Editorial Mundo 6 min. 22.09.2018 Do nosso arquivo online

As migrações são a nova fronteira da política

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O drama é que populismos e fundamentalismos têm sido contestados por bom motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats, em o “O Segundo Advento”, “Aos melhores falta convicção, e aos piores / sobeja apaixonada intensidade”.

A líder da esquerda radical alemã Sahra Wagenknecht, co-presidente do Die Linke, anunciou recentemente o seu novo movimento político “Aufstehen” (De Pé), lançado por 80 fundadores oriundos do Partido Social-Democrata (SPD), Verdes e Die Linke, e que conta com mais de 100.000 apoiantes na internet.

O objectivo anunciado desse novo movimento é dar de novo à esquerda o contacto com as classe populares e combater o domínio nas ruas da extrema-direita. Isso será, segundo os seus fundadores, feito devido a uma posição “realista” sobre a imigração.

“A Alemanha evoluiu numa direção que muitos não queremos”, explica a ainda líder do Die Linke, que sublinha “as divisões sociais profundas”, a perda de coesão, “uma grave crise da democracia”, e, sobretudo, “os acontecimentos de Chemnitz mostram claramente que não podemos continuar assim”, garante a política de 49 anos, depois dos violentos incidentes nesta cidade da ex-RDA, protagonizados por manifestantes de extrema-direita, em reação à morte de um cidadão alemão de origem cubana, alegadamente assassinado por dois refugiados.

Para a dirigente do novo movimento grande parte dos manifestantes e dos votantes da Alternativa para a Alemanha não são nazis e é preciso que a esquerda tenha a ambição de recuperar a sua confiança.

Sahra Wagenknecht repudia o racismo e xenofobia, mas afirma que é preciso limitar a imigração e concentrar as políticas de esquerda na resolução das questões sociais que afligem as populações alemãs.

Num livro anterior a este acontecimento político e originalmente denominado “A Nova Luta de Classes”, mas em português entitulado “A Europa à Deriva”, o filósofo esloveno Slavoj Zizek faz algumas considerações no mesmo sentido . Nele é sempre difícil de perceber o que é simples provocação para épater le bourgeois ou o que é a sério , até porque o filósofo esloveno escolhe muitas vezes o caminho de tentar derrubar a nossa aceitação amorfa da ideologia de todos os dias com golpes de provocações.

A chave do livro de Slavoj Zizek “A Europa à Deriva” encontra-se em duas citações da obra de Oscar Wilde, “A Alma do Homem e o Socialismo”, que o autor convoca no início do texto: “É muito mais fácil ter-se simpatia para com o sofrimento do que ter-se simpatia para com o pensamento”, acrescentando-lhe uma outra passagem de Wilde em que este defende que o simples horror ao sofrimento e a caridade em relação à pobreza não fazem mais que prolongar as suas causas e aliviar a consciência dos responsáveis por essa situação: “Tentam, por exemplo, resolver o problema da pobreza mantendo os pobres vivos; ou, no caso de uma escola muito avançada, divertindo-os. Mas isso não é uma solução: é um agravamento da dificuldade. O objetivo adequado é tentar reconstruir a sociedade sobre uma base em que tal pobreza venha a ser impossível. E as virtudes altruístas têm, sem dúvida, impedido a realização de tal desígnio”, conclui o autor de “A Importância de ser Ernesto”.

Não é por acaso que Zizek escolhe o grande provocador britânico para inventariar aquilo que se propõe neste livro. O esloveno coloca-se na posição de que mais gosta: a de provocador. Mas sempre vai dizendo algumas coisas fundamentais: a solução para a questão dos refugiados, apesar dos horrores das imagens, não passa pela simples caridade para resolver o problema imediato de centenas de milhares de pessoas; embora esse drama tenha de ser resolvido já, a urgência da ação não nos pode dissuadir de afirmar que essas pessoas são sujeitos de direitos e não apenas objetos de caridade; o autor defende que a resolução desta crise humana não se faz pela abertura, maior ou menor, das fronteiras, mas por responder aos problemas globais que têm também consequências nos países de origem dos refugiados.

Zizek defende também que não se pode deixar à extrema-direita o monopólio da proximidade das pessoas e da preocupação com a situação criada na Europa pelo alegado enorme fluxo de refugiados. Este é talvez este o ponto mais polémico do livro: a ideia de que uma posição de abertura de fronteiras, aqui e agora, é meramente uma posição simbólica de quem sabe que isso não acontecerá.

E não se fica por aí: há em parte da esquerda a ideia de que tudo o que vem dos oprimidos é necessariamente bom. Para o autor de “A Europa à Deriva”, as coisas quase nunca são assim. Zizek faz uma crítica similar a Ettore Scola acerca do filme “Feios, Porcos e Maus”: a miséria não nos faz ser boas pessoas e gente aconselhável. Mas isso só reforça a convicção de que se deve combater as causas que levam as pessoas a ser exploradas. No seu pensamento, a contemporização com os aspetos retrógrados da religião, em prol de um multiculturalismo fofo, não devem existir. Ele recupera a ideia de Marx de que “a religião é o ópio do povo” ao defender: “O próximo tabu a ser descartado sem piedade é a equiparação de qualquer referência ao legado emancipatório europeu com o imperialismo cultural e o racismo.”

Criticar práticas e concepções culturais do islamismo dos refugiados não significa ser cúmplice da sua opressão.”O próximo tabu esquerdista a deixar para trás é o de obstar a qualquer crítica ao Islão como caso de ‘islamofobia’.” A superação desta situação de profunda desigualdade que se vive no mundo e do estado de selvajaria a que foram levadas grandes partes do planeta, a golpes de míssil, não se faz através da tolerância multicultural, mas resolvendo as questões por meio de um novo projeto de universalismo emancipatório.

Existem, para Zizek, quatro antagonismos que podem permitir que o capitalismo global, que gera os racistas e os fundamentalistas, não se reproduza eternamente: “A ameaça iminente de catástrofe ecológica, a inadequação da propriedade privada para a chamada ‘propriedade intelectual’, as implicações sócio-éticas dos novos desenvolvimentos técnico-científicos (sobretudo a biogenética) e, por último, mas não menos importante, as novas formas de apartheid, os novos muros e bairros da lata.” É este aspeto final que politiza e dá tom às contradições existentes no sistema.

O drama é que populismos e fundamentalismos têm sido contestados por bom motivos mas com más respostas. Como escrevia William Butler Yeats, em o “O Segundo Advento”, “Aos melhores falta convicção, e aos piores / sobeja apaixonada intensidade”.

Os argumentos de Zizek colocam questões importantes mas parecem não afirmar com o devido ênfase uma questão de facto: as pessoas do qual uma esquerda transformadora tem de estar perto não podem excluir os imigrantes nem os refugiados. Não pode haver qualquer luta contra a destruição ecológica do mundo, opondo-se à privatização de toda a vida humana e da natureza, e tentando acabar com a construção de um planeta Mad Max - dividido entre condomínios fechados de luxo e uma selva de lugares destruídos e poluídos onde se matam os pobres - sem estar junto com a maioria das população do planeta, em que se incluem naturalmente os milhões de migrantes e os refugiados. O monopólio de proximidade que a esquerda deve disputar não é dos cidadãos nacionais dos respectivos países mas de todas as populações exploradas.

A posição que se tem sobre o direito à cidadania e à igualdade de tratamento dos migrantes e dos nacionais do respectivos países é uma nova fronteira da política que divide os que apostam na desigualdade e na destruição a médio prazo do planeta e os que querem fazer sobreviver a Terra.