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As falsas uniões nacionais escondem as divisões reais
Editorial Mundo 3 min. 11.11.2020

As falsas uniões nacionais escondem as divisões reais

As falsas uniões nacionais escondem as divisões reais

Florin Balaban
Editorial Mundo 3 min. 11.11.2020

As falsas uniões nacionais escondem as divisões reais

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
E se o consenso e a concórdia não fossem os objetivos nobres da política, mas uma espécie de fábula para esconder as verdadeiras questões?

Há uma ideia muito propagada, tão simpática como a dos os unicórnios azuis, que defende que nas sociedades humanas perante uma informação suficiente as pessoas podiam decidir fazer o melhor para todos. E que um dos problemas da nossa sociedade atual seria a falta de um terreno comum que permitisse a erupção de um tão maravilhoso e benéfico consenso. Esses tempos em que o mel cairia do céu estariam-nos, provisoriamente, negados devido ao clima de ódio e dissensão que se instalou nas nossas vidas criado pelas redes sociais e a emergência dos populismos extremistas.

Lamento ser antipático, mas as divisões e os extremismos não se criam a eles próprios: as sociedades vivem em clima de rutura porque a vida da maioria das pessoas está pior e as nossas existências estão cada vez mais desiguais.

É verdade que uma informação pouco séria, sem jornalismo aprofundado, tende a tornar este conflito em algo que se dá no mundo fantástico das teorias da conspiração, das crendices das terras planas multiplicadas e agregadas pelos algoritmos das redes sociais. Mas o problema dos conteúdos falsos não é dividir as pessoas, quando elas estão unidas, é dividir as pessoas com base em factos errados que escondem as razões das nossas fraturas e problemas.

Mesmo na criação desta ilusão há quem lucre e quem pague. O negócio das rede sociais é canibalizar o nosso tempo de vida e multiplicar as horas em que podemos absorver a publicidade fornecida pelas aplicações ditas gratuitas. Tudo isso acontece. Mas esta situação – como em qualquer catástrofe, crise e tragédia – gera muito pobres, e faz com que alguns ganhem rios de dinheiro com esse processo de criação de ignorância na maioria das pessoas.

Uma sociedade progride quando consegue dar uma melhor vida ao maior número de pessoas e não quando consegue dar o máximo de dinheiro ao menor número de contemplados. Mas para poder alargar essa capacidade de as condições melhores de vida chegarem a mais gente, é preciso conhecer, haver informação e haver discussão.

Um bom jornalismo não é um uniformizador de opiniões, mas algo que fornece factos e questões importantes para que as pessoas possam decidir politicamente.

A destruição paulatina da capacidade de pensar coisas diferentes e opostas de uma forma inteligente tem contribuído para transformar o conflito social numa espécie de circo de palhaços trágicos pejados de lideranças autoritárias.

Fazer política não significa colocar toda a gente a pensar da mesma maneira, mas conseguir conflitos, decisões e transformações que tornem menos injustas as nossas sociedades e mais capazes de aproveitar a potencialidade da maioria das pessoas.

O recém-eleito Presidente dos EUA, Joe Biden, afirma ter a intenção de unir todos os americanos. Parece um propósito simpático depois de um mandato do seu antecessor construído em golpes de maiúsculas nos posts da sua conta de Twitter. Mas mais do que unir lobos e cordeiros, talvez fosse melhor que tivesse prometido que os ricos pagassem os impostos devidos, que toda a gente tivesse acesso aos serviços de saúde nos EUA, e que as pessoas não fossem discriminadas pela cor da sua pele. Tudo coisas que podem não contentar quem vive da miséria dos outros, mas que são medidas importantes para a grande maioria dos cidadãos que vivem nos Estados Unidos da América.

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