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As cidades secretas que sobreviveram ao fim da União Soviética

As cidades secretas que sobreviveram ao fim da União Soviética

Foto: Reuters
Mundo 3 min. 02.08.2018

As cidades secretas que sobreviveram ao fim da União Soviética

Na semana em que Vladimir Putin anuncia que em 2019 a cidade fechada de Chikhany, onde é desenvolvido o agente biológico Novitchok, vai ser aberta a todos, a partir de janeiro, aqui se revela a história das 40 cidades fechadas e secretas que ainda existem na Rússia.

A anedota tem o tempo do degelo. Um jovem cientista da República Democrática da Alemanha, de partida para uma cidade fechada de cientistas na União Soviética escondida nos confins da Sibéria, despede-se dos seus amigos e combina a correspondência: “Se vos escrever cartas com esferográfica azul é porque é verdade o que vos conto; se for em vermelho, é mentira”.

Passados uns meses, chega-lhes a primeira e aguardada missiva que rezava, numa bela letra desenhada em tinta azul: “As condições de trabalho são ótimas, o clima é muito mais ameno do que eu previa, estou muito bem instalado, os cinemas passam filmes recentes dos EUA, as raparigas são muito recetivas, só há um pequeno problema: não se encontram esferográficas de tinta vermelha”.

Segundo Lenine, o socialismo era igual aos sovietes mais a eletricidade, a partir dos anos 30, com Estaline, e depois dos anos 50, com Krutchev, são construídas uma série de cidades secretas que albergam indústrias, projetos e concentram milhares de cientistas.

Muitos desses novos espaços são construídos nas ruínas sangrentas dos campos prisionais, mas outros são criados de raiz e imaginados como utopias científicas. Baikonour, a cidade espacial; Doubna, a cidade da química; Arzamas-16, o berço das armas atómicas soviéticas; Akademgorodok, gigante académico no meio da tundra da Sibéria, em que nos 2,5 km da Avenida Academician Lavrentiev alojavam-se mais de 20 institutos de investigação científica; Magnitogorsk, a cidade do aço, com os seus mais de 450 mil habitantes e 200 empresas; Norilsk, a cidade do níquel, em que se extrai, na maior mina do mundo deste metal raro, todos os seus tesouros a 800 metros de profundidade.

Estas e outras cidades não constavam dos mapas, e muitas delas não tinham estradas que as ligassem a outros locais da União Soviética, só podendo chegar gente de avião e com autorização dos serviços secretos.

Estas cidades surgiram como uma maneira de juntar cérebros e de responder a uma crise generalizada de habitação nas grande urbes. Foram construídas como espaços utópicos e planificados. Muitas delas desenhadas, nos anos 30, pelo arquiteto Nikolai Milioutine, célebre pela sua concessão Sotsgorod, diminutivo da expressão Sots-ialitcheski-Gorod, literalmente a cidade soviética. Milioutine e os seus discípulos criavam espaços urbanísticos elitistas, em que as suas vantagens podiam compensar o isolamento e a implantação em zonas inóspitas destas novas cidades.

O papel dos prisioneiros do Gulag

Nas décadas do pós-guerra, as muitas dezenas de milhares de cientistas tinham acesso a bens de consumo de melhor qualidade, como botas jugoslavas, móveis checos ou cobertores húngaros. Algumas cidades, sobretudo as industriais, foram construídas por trabalho de centenas de milhares de prisioneiros do Gulag. Calcula-se que mais de 30 mil tenham morrido na construção de Magnitogorsk. A zona em que foi erigida Norilsk estava no centro do complexo prisional estalinista, aí sobreviveram em condições penosas mais de meio milhão de pessoas.

A cidade mais ao norte da União Soviética viu passar vagas sucessivas de pioneiros, depois da libertação do zeks [acrónimo pelo qual eram conhecidos os detidos dos campos]. Em 1953, depois das revoltas nos campos, reprimidas duramente pelas tropas do NKVD, os detidos foram libertados e apenas algumas centenas, na maioria geólogos e engenheiros, decidiram ficar na cidade para continuar o seu trabalho como homens livres. A eles se juntaram cerca de 29 mil ativistas das juventudes comunistas. Depois da queda da União Soviética, parte das empresas das cidades industriais secretas foram privatizadas, como a fábrica de níquel, em que o seu dono, o oligarca Vladimir Potaine, não confundir com Putin, tem o módico porta moedas de 14 mil milhões de dólares.

Os habitantes de Norilsk, a cidade do níquel, bateram-se contra a abertura da cidade secreta, que era acompanhada pela entrada de novos habitantes indesejáveis. A 18 de julho, “Vladimir Putin assinou um decreto que suprime o estatuto de unidade administrativa fechada à cidade de Chikhany”, confirmou, à agência noticiosa AFP, a porta-voz da autarquia local da cidade, Ioulia Erchova. “A nossa fábrica, um departamento do Instituto de Investigação do Estado para a Química e as Tecnologias Orgânicas sediado em Moscovo, continua a funcionar e ignoramos o que lhe sucederá depois da abertura” de Chikhany em que vivem cerca de 5.500 habitantes. Ainda restam cerca de 40 cidades secretas na Rússia.

Nuno Ramos de Almeida

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