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Argentina declara “emergência alimentar” para fazer frente à escassez
Mundo 5 min. 19.09.2019

Argentina declara “emergência alimentar” para fazer frente à escassez

Argentina declara “emergência alimentar” para fazer frente à escassez

Foto: AFP
Mundo 5 min. 19.09.2019

Argentina declara “emergência alimentar” para fazer frente à escassez

Bruno AMARAL DE CARVALHO
Bruno AMARAL DE CARVALHO
Senado argentino aprovou por unanimidade 16,6 milhões de euros para fazer frente à “emergência alimentar”. Crise económica no país fez aumentar o número de crianças e adolescentes que passam fome.

Em junho, o Observatório da Dívida Social da Universidade Católica Argentina (UCA) publicou um relatório devastador referente a 2018. No ano passado, a escassez entre os menores argentinos subiu 51,7% e 13% das crianças passaram fome. A crise económica, e especialmente a subida acentuada dos preços dos alimentos - 51,2 por cento, acima da inflação global, que foi de 47,6 por cento no ano passado - agravou a situação de muitas famílias, cujos rendimentos foram reduzidos pela perda de pequenos empregos informais, conhecidos popularmente por changas. São os piores números desta década. 

Ao Contacto, Natália de las Navas, médica na cidade de Rosário, explica que a situação social é explosiva. "São muitas as fábricas fechadas, o peso desvalorizou bastante e todos os dias os preços das coisas aumentam". Afirma ainda que os tradicionais churrascos de domingo são já um luxo pelo preço proibitivo da carne. "É muito difícil chegar ao fim do mês". Natália descreve ainda o aumento dos episódios de violência, do recurso ao narcotráfico para subsistir e também os crescentes casos de violência de género. "São fruto da crise económica", considera. "Conheço mulheres que emagreceram bastante e que não comem à noite para dar de comer aos filhos. Mastigam um pouco de pão e bebem mate. Também há muita gente a recolher chapas e madeiras para construir barracas onde viver".

Mas a situação crítica da Argentina teve um novo episódio na quinta-feira, com o senado argentino a aprovar por unanimidade a Emergência Alimentar até dezembro de 2022, uma medida que o governo de Maurício Macri se tinha recusado a implementar até ao momento e que acaba por aceitar forçado pela brutal crise económica que afeta o país. São mais de 16,6 milhões de euros para aliviar o peso da austeridade sobre os setores mais vulneráveis da sociedade. A partir de janeiro de 2020, a iniciativa inclui um aumento trimestral dos apoios em alimentos e bebidas tendo como base a inflação e a variação dos preços do cabaz de alimentos. 

Apesar da unanimidade no momento da votação, o debate foi crispado e a oposição não poupou críticas ao governo pela política económica que desencadeou a crise. Os deputados peronistas acusaram Macri de favorecer os setores mais privilegiados, de endividar brutalmente o país - que recebeu o maior empréstimo de sempre do FMI - e de promover a fuga de capitais e a dolarização dos alimentos, combustíveis e taxas.

De acordo com o Página12, a senadora María Cristina Fiore citou os números fornecidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) para argumentar que a insegurança alimentar, "aqueles que comem uma vez por dia ou ficam sem comer, aumentou de 2,5 milhões em 2015 para 5 milhões de pessoas em 2018", sem contar com este último ano de agravamento da crise. María Cristina Fiore classificou como "vergonhoso, grave e irresponsável" as declarações dos funcionários do governo que "negam a fome", que também "traz a morte".

O partido no poder encerrou o debate apontando o dedo ao kirschnerismo. O líder parlamentar do Cambiemos, Naidenoff, tentou desculpar o governo pela crise: "A pobreza é um problema que excede um olhar mesquinho no contexto anterio". Advertiu ainda que "independentemente dos ciclos sempre pendulares da economia, a variável imutável foram esses 18 anos de emergência alimentar e social", disse o senador numa referência ao passado.

Numa reportagem divulgada hoje, o El País traça um arrasador retrato da Argentina atual. De acordo com o diário espanhol, todos os refeitórios sociais que oferecem comida grátis estão a colapsar e em muitos há listas de espera. Alguns dos responsáveis por estes espaços estão confiantes de que a declaração de Emergência Alimentar aprovada na quarta-feira pelo Congresso possa aumentar em 50 por cento os fundos para as cozinhas comunitárias.

O relatório divulgado pela UCA diz ainda que metade das crianças argentinas são pobres e só um terço recebe refeições gratuitas na escola ou em cantinas das organizações de bairro. Sem estes espaços, a situação atual seria ainda pior. Na Argentina, país que produz alimentos para mais de 400 milhões de pessoas, quase dez vezes a sua população, em 2018 "13% das crianças passaram fome, enquanto 29,3% reduziram sua a dieta alimentar", adverte o mesmo relatório do Observatório da Dívida Social Argentina. Representa um aumento de 30% em relação a 2015. 

"Estes dados mostram a necessidade de convocar um diálogo académico, mas também político-social para acabar com a fome e garantir o direito à alimentação", reagiu a agência de comunicação da UCA. O mesmo observatório também sublinha que para as famílias mais vulneráveis, além da quantidade, a qualidade das refeições também diminuiu. A dieta diária de 6,5% das crianças e adolescentes carece de todos os nutrientes essenciais. Já os alimentos tornaram-se quase 60% mais caros no último ano, enquanto os rendimentos das famílias estão a diminuir cada vez mais. 



fábricas fechadas, desvalorização do peso, todos os dias as contas as coisas aumentam, a farinha, a carne. é quase um luxo fazer assados, cada vez é mais dificil chegar ao fim do mês


aumentaram os episódios de violência, aumentou o narcotráfico, casos de violência de género

mulheres que não comem à noite para dar comer aos filhos, comem mate com um pouco de pão

vêm pedir chapa para fazer barracas



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