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Argélia. Tudo muda para tudo ficar igual?
Mundo 4 min. 12.03.2019

Argélia. Tudo muda para tudo ficar igual?

Argélia. Tudo muda para tudo ficar igual?

Foto: AFP
Mundo 4 min. 12.03.2019

Argélia. Tudo muda para tudo ficar igual?

Nuno Ramos de Almeida
Nuno Ramos de Almeida
O Presidente argelino recua a concorrer a um quinto mandato presidencial e satisfaz a primeira reivindicação do movimento popular que eclodiu nas ruas da Argélia no final de fevereiro.

“Não haverá quinto mandato e isso nunca foi uma questão para mim”, escreveu o Presidente argelino Abdelaziz Buteflika, numa carta divulgada segunda-feira passada pela agência oficial APS. “O meu estado de saúde e a minha idade não me permitem senão ter como último dever para com o povo argelino que dar a contribuição para os alicerces para a fundação de uma nova República”, conclui o dignitário.

A renúncia de Buteflika, que concorria a um quinto mandato presidencial, tal como reivindicavam milhões de argelinos que se manifestaram nas ruas do país desde 22 de fevereiro, parece uma derradeira tentativa do partido do poder argelino, a FLN (Frente de Libertação Nacional), no controle do país desde a guerra da independência, em se manter à frente da Argélia.

O Presidente, nesse lugar desde há 20 anos, promete marcar novas eleições presidenciais, em que não concorrerá. No entanto, não marca uma data. Como nota a investigadora Amel Boubeker ao diário francês Le Monde, “a piada que corre nas redes sociais é a seguinte: Bouteflika, sabendo que não podia lutar por um quinto mandato, decidiu prolongar o seu quarto”.

O Presidente argelino também anunciou na sua mensagem escrita a convocatória de uma conferência nacional “inclusiva e independente”, encarregada de pôr em marcha um processo de transição para uma nova Constituição. Esta conferência será presidida por uma “personalidade independente, consensual e com experiência”. “A conferência deve esforçar-se em completar o seu mandato até ao fim de 2019”, baliza a mensagem. Na mensagem não se dá nenhuma data para a realização das próximas eleições presidenciais que terminarão o seu mandato. Apenas se estabelece que para levar o país às eleições em condições de “liberdade” e “transparência” se formará um governo de unidade integrado por membros dessa conferência nacional.

Recorde-se que Buteflika regressou apenas este domingo a Argel, depois de passar duas semanas no Hospital Universitário da cidade Suíça de Genebra. O estado de saúde do presidente de 82 anos está envolto no segredo de Estado. A presidência apenas adiantou, em comunicado, que o velho dirigente tinha viajado para submeter-se um “controlo médico de rotina”, mas nada transpirou sobre os resultados desses exames.

Há trinta anos, em outubro de 1988, grandes manifestações sacudiram as Argélia foram sangrentamente reprimidas com mais de 500 mortos e milhares de detenções.

Desta vez, o exército não saiu à rua. Na sexta-feira, 8 de março, mais de um milhão de pessoas inundou as ruas da capital da Argélia, e mais muitas centenas de milhares de pessoas manifestaram-se me todas as cidades e muitas localidades do país.

Os protestos da população minaram a unidade no seio das forças políticas que suportam o governo. Paulatinamente, começaram a ouvir-se vozes de protesto nos sindicatos oficiais, nas organizações patronais e até na importante associação de antigos combatentes pela libertação da Argélia.

Para muitos argelinos, o dia 22 de fevereiro de 2019, o primeiro dia das manifestações, marca uma rutura temporal importante, em que nada ficará igual.

Embora seja visível que o poder pretende mudar tudo, para tudo continuar mais ou menos igual. O primeiro-ministro , Ahmed Ouyahia, 67 anos - que tinha ameaçado os manifestantes com “uma nova Síria”, garantindo que “o Estado já mostrou no passado que consegue controlar as ruas”, alundindo a 1988 - foi demitido, mas no seu lugar foi nomeado o ministro do Interior, Nouredeine Bedoui.

Ainda não se sabe o que vai acontecer ao irmão mais novo do atual presidente da República, Said Buteflika, que embora não tenha nenhum cargo oficial é visto pelos manifestantes como uma espécie de delfim do irmão. Mas percebe-se que esta tentativa de baixar a temperatura nas ruas, só foi possível pela ação dos militares, com o chefe do Exército, Ahmed Gaid Salah, uma semana depois de alertar os argelinos sobre o caos e a violência, a mudar de tom: “o Exército e o povo têm a mesma visão sobre o futuro”, declarou.

Como defende a investigadora Amel Boubeker, “o poder, finalmente, foi obrigado a reconhecer a existência desta vontade de participação política independente. Mas isso vai determinar que os manifestantes continuem o seu movimento para se entrar numa verdadeira negociação. É agora que isto começa”.

Para o futuro próximo, está novamente marcadas uma série de manifestações no próximo dia 15 de março. Vamos ver se as ruas transbordam a transição ou se é o poder que assegura a sua continuidade por outras formas.

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