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Apostar para perder
Editorial Mundo 3 min. 27.09.2019

Apostar para perder

Apostar para perder

Foto: dpa
Editorial Mundo 3 min. 27.09.2019

Apostar para perder

“No capitalismo do desastre, há sempre quem viva do outro lado do espelho, embolsando ganhos de fábula para compensar toda esta destruição de valor.”

The Big Short” é um daqueles filmes/documentários que deveriam servir como material educativo nas escolas (o livro em que se baseia, de Michael Lewis, pode ser outra excelente opção). O filme, que recebeu em português o título de “A queda de Wall Street”, explica com técnicas pouco convencionais (como a loura Margot Robbie numa banheira a explicar-nos o que são obrigações baseadas em hipotecas) o que se passou na grande crise financeira de 2007/2008. Os protagonistas do filme são os “contrários”, aqueles que durante vários anos foram considerados loucos por terem apostado em que o mercado imobiliário ia dar um valente crash. Convictos da insustentabilidade dos produtos que os bancos vendiam – baseados numa mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma e avalizados fraudulentamente pelas empresas de “rating” como “investimento triplamente seguro” – este punhado de gurus financeiros um pouco estranhos apostou no inverso, adquirindo uma quantidade de contratos que basicamente só se tornariam lucrativos se eles tivessem razão e o mercado hipotecário, e depois a bolsa, implodisse.

Na verdade passaram dois ou três anos em que a bolha financeira continuou a aumentar, o que indicava que o mercado estava a ser manipulado desde cima. Mas a “grande aposta para perder” acabaria por dar dividendos a quem pensou nela: quando a bolsa colapsou, as cinco ou seis pessoas que tinham investido nessa possibilidade ficaram multimilionárias. Ao mesmo tempo há esse pequeno pormenor de a crise financeira se ter tornado uma crise económica mundial: milhões de pessoas perderam as suas poupanças primeiro e os seus empregos depois, enquanto os cofres públicos foram sendo esvaziados para salvar bancos e garantir bónus a banqueiros.

No dia em que escrevo estas linhas, a mais antiga empresa turística do mundo – a britânica Thomas Cook, 178 anos de história – acaba de declarar bancarrota, cessando imediatamente os seus voos e encerrando hotéis e agências de viagens em redor do mundo. A empresa estava submersa em dívidas e precisava de cerca de 250 milhões de euros para pagar aos bancos credores, os mesmos que foram salvos com dinheiro dos contribuintes. Esses milhões não apareceram porque o governo britânico decidiu, desta vez pelo menos, não usar dinheiros públicos para salvar uma empresa comercial privada. E isto apesar do que está em causa: o desaparecimento de 22 000 empregos directos, as dificuldades para regiões dependentes do turismo (o Algarve será certamente afectado), e a necessidade imediata de repatriamento de nada menos de 600 000 pessoas em férias. É mesmo muita gente com os seus planos estilhaçados – abundam as histórias de casamentos que já não vão ter lugar, por exemplo. E só para repatriar os seus 150 000 cidadãos, o Reino Unido vai gastar cerca de 150 milhões de euros, quase tanto como o que gastaria para manter a empresa de pé mais algum tempo.

Mas neste capitalismo do desastre em que vivemos, há sempre quem viva do outro lado do espelho, embolsando ganhos de fábula para compensar toda esta destruição de valor. Dois fundos especializados em rondar empresas em dificuldades comprando e vendendo acções cada vez mais baratas, a TT International e a Whitebox Advisors, ganharam milhões nestas últimas semanas. Outros compraram os já célebres “CDS” (também explicados no filme), uma espécie de contratos de seguros que pagam ao seu detentor se a empresa falir – e aqui o total de ganhos destes produtos, activados hoje, será de 250 milhões de euros, curiosamente o mesmo montante que a empresa necessitava para continuar a operar.

Só falta mesmo referir os três gestores que, como prémio para terem arruinado a empresa e os seus trabalhadores com decisões desastrosas, levaram para casa um total de 40 milhões de euros em bónus, prémios de desempenho e indemnizações. Sim, é tranquilizador: vivemos num mundo cada vez mais desigual e insustentável, mas sabemos que há sempre quem esteja contente com isso. Pelo menos até ao dia.

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