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Bruna Silva. A jovem brasileira que une milhares de mulheres em Berlim
Mundo 8 min. 10.06.2021
Alemanha

Bruna Silva. A jovem brasileira que une milhares de mulheres em Berlim

Alemanha

Bruna Silva. A jovem brasileira que une milhares de mulheres em Berlim

cortesia Pablo Hassmann //Trampolin
Mundo 8 min. 10.06.2021
Alemanha

Bruna Silva. A jovem brasileira que une milhares de mulheres em Berlim

Ana B. Carvalho
Ana B. Carvalho
Fabiola é uma das mais de 23 mil e oitocentas mulheres que fazem parte do grupo criado, há quatro anos, por Bruna Silva, nascida no Rio de Janeiro. Nunca se conheceram pessoalmente, mas a portuguesa foi uma das mulheres que a ação da brasileira ajudou.

“Estou em Berlim há dois anos e meio. Antes, vivi em sete países. Em nenhum deles acedi a um grupo assim”, conta Fabiola, portuguesa de 33 anos. “Já tive várias situações em que pude prestar auxílio e em que pude pedir. Há cerca de um ano e meio tive uma reincidência de um problema cancerígeno e bati muito mal. Estava, ainda estou, com um part-time num café e durante o meu problema o meu ex-parceiro não me pôde acompanhar no processo, acabámos por nos separar. Eu tinha ataques de ansiedade recorrentes, principalmente ao final do dia, porque estava extremamente cansada, estava numa situação precária sem contrato e queria continuar a trabalhar apesar de andar em biópsias de um lado para o outro”, conta através do Whatsapp

Queria manter-se independente, uma vez que intuía que não iria receber o “apoio que gostaria e necessitava”. Narra que na altura, o seu círculo de apoio era bastante mais reduzido e apesar de ter telefonado à médica, precisava de contacto humano. Decidiu recorrer ao grupo International Women in Berlin, do qual faz parte há um ano e meio, no Facebook. “Ei, alguém perto de Ostkreuz agora? Tenho uma emergência e preciso de um abraço. De verdade. Super sozinha”, lê-se na sua publicação em dezembro de 2019. “Responderam-me imensas pessoas e havia uma que estava mesmo perto e veio ter comigo. Abraçámo-nos, ficou lá a falar comigo enquanto eu terminava de arrumar o café, ainda nos encontrámos mais vezes, apesar de agora não estar muito em contacto com ela, foi um anjo. E não foi a única pessoa que ofereceu apoio, foi muito bonito mesmo. Até me ofereceu um peluche, mais tarde. Era americana”, lembra ainda agradecida.

Fabiola é uma das mais de 23 mil e oitocentas mulheres que fazem parte do grupo criado, há quatro anos, por Bruna Silva, nascida no Rio de Janeiro. Nunca se conheceram pessoalmente, mas a portuguesa que também já auxiliou várias pessoas graças ao conhecimento que foi obrigada a adquirir sobre o sistema de saúde alemão, considera que "a moderação da Bruna e os valores de feminismo interseccional fazem diferença”.

A carioca fala abertamente sobre qualquer assunto, conversa de forma relaxada e a alegria é uma constante durante a chamada por Zoom. “Meu deus ele tá comendo o meu sex toy”, diz a rir-se enquanto resgata o brinquedo da boca do “cachorro” que tem estado animado durante a conversa. A jovem de 33 anos não tem papas na língua e foi o seu espírito livre que a atraiu até Berlim, cidade que já havia visitado ainda na adolescência e onde sempre se sentiu em casa.

Estudou num colégio Alemão, “um privilégio” que lhe permitiu chegar a terras germânicas com um bom nível da língua, essencial para se adaptar ao novo país e encontrar emprego. Ao final de oito anos, conseguiu finalmente a residência permanente na Alemanha. “Menina, foi um parto. Esses anos todos para isso”. “Sou bem carioca, graças a deus não perdi a minha brasilidade”.

Formou-se em comunicação visual e acabara de descobrir o mundo do feminismo. Apesar de amar a sua cidade, “estava de saco cheio num todo, mesmo com a mentalidade conservadora do Rio de Janeiro”, desabafa. “As pessoas normalmente não assimilam quando eu digo isto, pensam no Carnaval só, mas gente foi colonizado por Portugal, que é muito conservador e ligado à Igreja. Estava de saco cheio disso e dessa altura para cá o Brasil tem só piorado”. Bruna Decidiu começar a poupar dinheiro e sentiu que Berlim seria a melhor opção para começar uma nova vida.

Estava há três anos em Berlim e “já tinha passado por poucas e boas”, comenta. “Quando você vem de um país latino-americano, há essa ideia que a Europa é muito mais desenvolvida. Mas aí você chega aqui em Berlim e vê que não é muito bem assim. Eu ia passando por algumas situações e pensava ‘pôxa há coisas que não precisava passar’, mas não tinha um lugar para falar disso, para eu me conectar e poder partilhar estas experiências, principalmente enquanto mulher”.

“Eu via esses grupos de “expats” e via todo um caos desnecessário criado por vários homens. Então pensei: quer saber? É muito fácil criar um grupo no Facebook, vou clicar no botão, dar um nome, chamar umas amigas e ver o que é que rola”, conta animada enquanto viaja no tempo. “Eu tinha zero pretensões, só que foi crescendo de um jeito muito grande e tudo muito organicamente, o que é legal e triste. Legal porque esse meu projeto está crescendo, mas triste porque eu percebo que realmente as mulheres sentem falta deste espaço. As pessoas vêm ter com o grupo, nunca precisei publicitar”.

“Naquele grupo eu sou cada uma daquelas mulheres. Todas temos algo em comum. E nesse sentido, esse sentimento de “irmandade” feminina é de um certo modo triste, porque ele surge do facto de que, independentemente da cultura ou da orientação política, há uma série de coisas que nós mulheres vamos passar simplesmente por sermos mulheres.”

Dá como exemplo uma publicação anónima recente, “trigger warning”, em que uma rapariga descrevia o que acabara de acontecer à sua amiga, que tinha sido drogada e abusada, depois de um encontro num bar. “Nesses casos, muita gente vai e dá força, oferecem-se para ir na polícia, para dar ajuda se precisarem, é legal mas é triste que sejamos unidas por motivos ruins, que são situações que todas entendemos. E isto vai do mundo do trabalho, ao dating, a tudo”, explica.

Além da gestão do grupo, Bruna criou um website e Instagram cujos conteúdos também alimenta com regularidade. “Uma grande carga”, comenta. Com o dinheiro das doações, que ainda não são suficientes para que o projeto se torne auto-sustentável, tem conseguido pagar algumas contribuições na criação de conteúdos. Mas Bruna está feliz pelo impacto positivo que este projeto tem tido no dia-a-dia de tantas mulheres.

No grupo “fala-se de tudo um pouco”, mas há alguns temas que se repetem com mais frequência: “a burocracia alemã, o mundo dos relacionamentos, o aconselhamento de médicos e serviços, principalmente ginecologistas. Infelizmente, ou felizmente porque pelo menos se sentem seguras ali, é comum a partilha sobre abusos, racismo, enfim, situações que mulheres imigrantes passam”. Bruna considera que “a mulher negra é quem tem normalmente maior vulnerabilidade, mas durante a época de covid as mulheres asiáticas sentiram muito racismo. Há ainda partilha de outras situações de misogenia e transfobia. Mas garante que há também espaço para “situações muito engraçadas e de muita solidariedade”.

International Women in Berlin é o nome do grupo que une milhares de mulheres na capital alemã
International Women in Berlin é o nome do grupo que une milhares de mulheres na capital alemã

Sente-se orgulhosa da união que testemunha na comunidade, principalmente em assuntos sensíveis como os das gravidezes não planeadas. “O momento em que eu sinto mesmo orgulho é quando há posts em que meninas escrevem: "sou nova na cidade, engravidei, estou assustada, quero abortar". E aí surgem vários comentários de apoio: "eu posso ir com você"; "eu dou o suporte que você precisar". Tudo faz sentido, sabe? Nenhuma mulher quer abortar, ninguém quer passar por isso e muita gente não pode abortar legalmente no seu país, eu não posso no Brasil”.

Há também situações muito caricatas. Há duas semanas, uma publicação anónima fez furor, dando origem a mais de 400 reações e a uma corrente de partilhas semelhantes nos comentários. Lia-se: “No episódio de hoje da série: ‘De quem é este homem?’ Se tu ou uma amiga andam com um polícia alemão com um primeiro nome escandinavo que se parece muito com o número 7 quando escrito em inglês, ele está a trair-te(la). Eu sei, porque estou envolvida com ele desde outubro (não sabia que já estava comprometido), mas comecei a suspeitar que algo estava errado por volta de meados de fevereiro. A sua insensatez foi confirmada ontem. Eis algumas outras coisas que o podem ajudar a identificá-lo (…)Quem quer que seja, merece melhor”.

Bruna ri-se,“menina, há cada situação! Eu pensava que os europeus tinham uma mentalidade muito mais progressista, principalmente no mundo do dating”, comenta enquanto partilha algumas das suas experiências em Berlim na sua época de não comprometida. 

Apesar do grande número de participantes, Bruna gostava que houvesse maior representatividade. “Eu gostaria que houvesse mais meninas transgénero, diferentes etnias. Há muitas asiáticas mas não há tantas africanas, por exemplo. Há muitas brasileiras mas a maioria é branca que está cá porque tem passaporte italiano, alemão, português. O meu visto enquanto brasileira não foi muito fácil de conseguir. Mas imagino que haja outros países em que seja pior ainda.”

A jovem brasileira tem recebido várias mensagens de mulheres que agradecem a existência do grupo. Quando se pergunta o tempo que dedica ao grupo a resposta salta logo: “não faço a mínima ideia. Não consigo medir, eu estou toda hora no grupo, até no banheiro estou no telemóvel gerindo lá o grupo!” 

O trabalho de gerir constantemente os comentários e participações de tantas mulheres, exigem de si um envolvimento emocional e energético muito alto e a saúde mental é um assunto sensível. “Graças a deus que faço terapia duas vezes por semana. É essencial e falo muito do grupo”, comenta bem disposta.

Em curso está o plano de criação de um clube. Sente-se motivada com a ideia de poder trabalhar enquanto ajuda os outros, saber que causa um impacto na vida das pessoas dá sentido ao que cria. Além disso, acredita que com a gestão desta comunidade, as inter-ajuda pode tornar-se contagiosa. “Eu tenho a ideia que as pessoas ao se depararem com compaixão e empatia mudam um pouco por dentro e se tornam mais empáticas com o próximo”.


(Artigo atualizado às 18:53 do dia 10/06/2021).

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