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Alemães não querem vacinar-se com britânica AstraZeneca
Mundo 5 min. 24.02.2021

Alemães não querem vacinar-se com britânica AstraZeneca

Alemães não querem vacinar-se com britânica AstraZeneca

Foto: María José López/Europa Press
Mundo 5 min. 24.02.2021

Alemães não querem vacinar-se com britânica AstraZeneca

Especialistas asseguram que vacina é segura mas a taxa de rejeição entre milhares de funcionários é enorme.

Numa corrida contra o tempo, os Estados tentam assegurar que a chegada a conta-gotas das vacinas não prolongue a agonia social e económica do planeta a braços com a pior pandemia do último século. Contudo, na Alemanha a elevada taxa de rejeição da vacina britânica AstraZeneca gera novos problemas num cenário de escassez. De 1,5 milhões de doses desta vacina entregues, a Alemanha só administrou 200 mil.

A taxa de vacinação começa a preocupar o Governo de Angela Merkel e os especialistas garantem que estas vacinas são fundamentais para alcançar o objetivo que foi imposto pela União Europeia: que 70% dos adultos sejam imunizados antes do final do Verão.

A notícia da alegada eficácia reduzida da vacina da AstraZeneca resultou numa rejeição generalizada. Milhares de profissionais da saúde e outros trabalhadores essenciais estão a faltar a consultas para receberem as doses. A Alemanha foi o primeiro país europeu a decidir utilizar esta imunização apenas em pessoas com menos de 65 anos, devido à falta de dados sobre a sua eficácia em idosos. 

Foi aí que a reputação da vacina AstraZeneca ficou afetada, explicou Hajo Zeeb, epidemiologista do Instituto Leibniz de Investigação Preventiva e Epidemiologia, ao El País. O especialista fala em "erros de comunicação" sobre a sua eficácia. "A vacina da AstraZeneca é segura e muito eficaz. Previne muitas infeções e protege contra doenças graves", escreveu o porta-voz de Merkel, Steffen Seibert, na sua conta do Twitter, face às notícias na imprensa regional que relatam quantos funcionários públicos consideram a vacina pior do que outras e preferem esperar. 

Também no Luxemburgo as vacinas desta farmacêutica estão a causar reticências entre o pessoal médico. Já há vários especialistas que salientam que será necessário alterar a estratégia de vacinação para poder utilizar as doses AstraZeneca com aqueles que querem de facto ser imunizados. Os professores, por exemplo, poderiam ser colocados num grupo de maior prioridade. É uma opção que as autoridades sanitárias estão a considerar, especialmente porque esta semana, após dois meses sem atividade presencial, os jardins de infância e escolas primárias abriram em 11 dos 16 estados alemães. 

O Ministério alemão da Saúde confirmou ao El País que "uma vez que na Alemanha não há obrigação da vacinação contra a covid-19, haverá pessoas que serão vacinadas mais cedo quando outros recusarem a vacinação". Um porta-voz acrescentou: "Mas devemos lembrar que aqueles que recusam não estão protegidos contra a doença. A Alemanha vacinou 3,4 milhões de pessoas (4,1% da população) com a primeira dose.

"Não compreendo. Qualquer vacina é melhor do que nenhuma proteção contra o coronavírus", destacou Carsten Watzl, secretário-geral da Sociedade Alemã de Imunologia. "Nós, cientistas, temos de transmitir os factos à população: a vacina da AstraZeneca é muito boa. O último estudo publicado dá-lhe 80% de eficácia quando as doses são espaçadas de nove a doze semanas, que é o que estamos a fazer na Alemanha", sublinha. Watzl explicou também que muitas pessoas não compreenderam como funcionam os ensaios clínicos e o que significam as percentagens de eficácia. Só porque uma vacina é 80% eficaz não significa que uma pessoa que se vacina tenha 20% de hipóteses de ficar doente. 


Vacina AstraZeneca pode ser dada a pessoas com mais de 65 anos, diz OMS
O organismo da Organização Mundial de Saúde recomendou que a vacina fosse administrada a todos os grupos etários, com algumas exceções por falta de informação, como mulheres grávidas.

Outra peculiaridade da vacina AstraZeneca que deve ser tida em conta é o facto de estar a ser administrado a pessoas com menos de 65 anos de idade. É mais provável que sejam relatados mais sintomas indesejados. "Os jovens têm mais efeitos secundários do que os mais velhos", explicou Watzl. O sistema imunitário dos jovens é mais ativo e, portanto, a reação à vacina é maior. É por isso que não há necessidade de se ficar alarmado quando é publicado que 20% ou 30% dos bombeiros ou trabalhadores de saúde no mesmo posto de bombeiros ou hospital não foram trabalhar no dia seguinte à vacinação por se sentirem indispostos. "Isto é de esperar", sublinhou. "A única coisa que estes casos mostram é um mau planeamento por parte dos responsáveis pela vacinação", acrescentou.

Alguns estados já estão a recomendar não dar a vacina a todos os funcionários ao mesmo tempo a fim de evitar demasiadas baixas em simultâneo. Foi isto que aconteceu no Hospital Herzogin Elisabeth em Braunschweig, Baixa Saxónia, cerca de 240 quilómetros a oeste de Berlim. A 11 de fevereiro, o hospital administrou 88 doses ao mesmo número de funcionários, 37 dos quais não vieram trabalhar no dia seguinte por se sentirem indispostos, segundo o jornal local Braunschweiger Zeitung. 

Uma porta-voz do hospital afirmou que estavam a interromper temporariamente a campanha para evitar ficar sem pessoal para cuidar dos doentes. Uma residente do centro, Hristina Markova, contou ao Der Spiegel os sintomas que sofreu: "12 horas depois de ter sido vacinada, de repente tive calafrios e febre, que chegou aos 40,3ºC à noite". No dia seguinte tomou medicamentos para a febre e foi trabalhar, mas ao meio-dia teve de regressar a casa.

A rigor, as reacções à vacina não são efeitos secundários porque já foram descritas e eram esperadas. "É uma pena", disse Hajo Zeeb, que as pessoas se deixem influenciar por algumas manchetes e não se informem melhor sobre o que está a acontecer noutros países, como o Reino Unido, "onde a vacina AstraZeneca está a ser utilizada em massa sem problemas", ou que não ouçam a OMS, que recomenda a imunização "para todas as idades em adultos". 

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