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Albert Osterhaus. "O alarmismo é o pior caminho"
Mundo 3 min. 04.03.2020

Albert Osterhaus. "O alarmismo é o pior caminho"

Albert Osterhaus. "O alarmismo é o pior caminho"

Foto: DR Foto:Ab
Mundo 3 min. 04.03.2020

Albert Osterhaus. "O alarmismo é o pior caminho"

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Conselheiro “principal e imprescindível” da Organização Mundial de Saúde face à pandemia de gripe influenza H1N1, o virologista Albert Oterhaus, em entrevista exclusiva ao Contacto , revela que "o alarmismo é o pior caminho".

Veterinário de formação e doutorado em virologia, o holandês conhecido como “Dr.Gripe” formou e dirige o departamento de doenças zoonóticas – transmissíveis de animais para humanos – da Universidade de Veterinária de Hannover, na Alemanha. Antes, comandou o laboratório de Imunologia do Instituto Nacional de Saúde Pública e Meio Ambiente da Holanda e lecionou nas universidades de Roterdão e de Erasmus. O catedrático fez parte da equipa que identificou o primeiro coronavírus SARS logo no arranque dos anos 2000 e está acompanhar a evolução do novo vírus. Em entrevista ao Contacto, sublinha que o alarmismo instalado não ajuda a travar a eventual pandemia, apesar de reconhecer que encerrar fronteiras pode ser o caminho.

Como é que se explica a propagação mundial do novo coronavírus?

O novo coronavírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave 2, SARS-CoV-2, nunca tinha sido detetado em humanos. Conseguiu atravessar a chamada barreira da espécie a partir de um animal hospedeiro ainda não identificado e desde aí conseguimos perceber que, aparentemente, é transmisível de homem para homem. Facto é que, como é um vírus novo, o nosso sistema imunitário não estava minimamente preparado. No fundo, é a conjugação do fator novidade que nos ajuda a explicar esta propagação num tão curto espaço de tempo.

O alarmismo instalado tem razão de ser? Ou seja, há factos que justifiquem o encerramento das fronteiras ou a correria às máscaras de proteção, uma vez que a medida mais eficaz é evitar a exposição ao vírus?

Em toda e qualquer circunstância o alarmismo é o pior caminho. Não podemos ignorar que os mais diferentes países, apoiados pela comunidade científica, já estão a implantar um conjunto de medidas para deter e até mesmo retardar a propagação do novo coronavírus, especialmente nos hospitais e nos centros de saúde, já que, neste momento, todos os sistemas de saúde devem estar preparados para lidar e enfrentar esta potencial pandemia. Claro que fechar fronteiras e usar máscaras de proteção em ambientes propícios ao contágio são medidas a considerar, mas o que é facto é que cada país, nomeadamente cada ministro da Saúde, tem a sua responsabilidade no que que respeita à saúde pública. Agora, aquilo que eu defendo e considero de extrema importância é uma uniformização e uma coordenação de um conjunto de medidas dentro e for a da Europa.

Com que base é que a Organização Mundial da Saúde que esteve recentemente na China diz que “o mundo não está preparado para enfrentar o surto”? Estamos a falar da gravidade da epidemia ou existem factos financeiros que a impeçam?

Quando os técnicos que visitaram a China o admitiram estavam a referir-se só e apenas à potencial gravidade da epidemia.

Estima-se que cerca de 37 mil pessoas tenham recuperado da infeção. Como é que é possível se não há tratamento e não há vacinas?

O desenvolvimento de vacinas é demorado já que os requisitos de segurança são rigorosos e os testes clínicos precisam de ser confirmados em seres humanos. Não é um processo rápido, pode demorar entre um a dois anos e o mesmo se aplica aos medicamentos antivirais. Para já, o que está a ser testado, especialmente na China, é o “redirecionamento” de medicamentos existentes para outras infeções. Obviamente que a segurança destas terapias foi comprovada, por isso, podem ser usadas praticamente de imediato. Está provado, por exemplo, que a Síndrome Respiratória Aguda Grave pode ser tratada com medicamentos contra a hepatite C.

As pessoas morrem de Covid-19 ou morrem por doenças derivadas por insuficiências respiratórias graves?

As pessoas mais seriamente afetadas, entre elas os idosos e as que já sofrem de outras patologias, não morrem de Covid-19. Morrem de pneumonias graves ou de outras complicações associadas às insuficiências respiratórias severas provocadas pelo vírus. 

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