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Agora começa a parte difícil
Opinião Mundo 3 min. 10.11.2020

Agora começa a parte difícil

Agora começa a parte difícil

Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 10.11.2020

Agora começa a parte difícil

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
"Tudo se desmorona; o centro não pode aguentar; a mera anarquia espalha-se pelo mundo". As palavras são de Yeats, o gigante literário irlandês, e foi escrito na ressaca da Grande Guerra – mas também podia perfeitamente definir o período negro de quatro anos de Trump como dono e senhor do botão nuclear mais perigoso do mundo.

O poema, intitulado "Segunda vinda", ainda melhor se poderia aplicar às estranhíssimas eleições americanas: uma democracia onde a elementar regra da vitória do mais votado não é seguida pode desmoronar-se, com dois campos cada vez mais extremados os consensos ao centro evaporam-se, e sobre a parte da anarquia que se espalha pelo mundo nem é necessário fazer analogias.

Mas a "segunda vinda" do indescritível Trump acabou por ficar bastante longe de ocorrer, e a anarquia de negar a realidade da derrota com birras autocráticas esvaiu-se numa farsa patética que vale a pena contar com pormenores, de tão engraçada é. No sábado de manhã (enquanto jogava golfe, onde provavelmente nem contra Tiger Woods perde...), Trump anunciou no Twitter uma "conferência de imprensa arrasadora" no "Four Seasons Philadelphia". Toda a gente pensou que se tratava do luxuoso hotel da cadeia global – incluindo o funcionário da campanha republicana que ligou a reservar o local para o acontecimento. 

Só que em vez de um hotel de cinco estrelas, o telefonema foi parar a uma loja de jardinagem chamada Four Seasons Total Landscaping. E foi mesmo aí – cá fora num parque de estacionamento de solo em gravilha, diante de um portão fechado coberto com autocolantes, entre um crematório e uma sex-shop algures num subúrbio industrial de Philadelphia – que Rudy Giuliani, o advogado-geral de Trump, enquanto bramava contra fraudes e conspirações, descobriu que Biden tinha sido finalmente declarado vencedor. É um final gloriosamente adequado; após quatro longos anos, uma apoteose cómica de incompetência.

Joe Biden, que também tem origens irlandesas, prefere muitas vezes outro poema de Yeats: "Tudou mudou, mudou completamente; e uma beleza terrível acaba de nascer". O agora presidente-eleito citou estas palavras numa visita a Bruxelas em 2010 (como vice-presidente de Obama) onde acrescentou, enlevado: "acredito na ideia de Europa, uma Europa onde os membros beneficiem de uma luta comum contra a degradação ambiental, que impulsione os valores culturais e políticos que nós americanos partilhamos convosco; uma Europa que seja completa, livre, e que viva em paz".

Do alto dos seus 77 anos, a grande vantagem de Biden é a experiência: ele sabe bem que a sua lua-de-mel com o mundo ocidental tem prazo de validade. Derrotar Trump, apesar de todo o ruído e incerteza, acabou por ser a parte mais fácil. Globalmente, os EUA perderam o seu lugar de liderança indisputada e são agora olhados com toda a desconfiança reservada a um parceiro imprevisível; internamente, o Senado vai provavelmente continuar nas mãos dos Republicanos (há dois lugares em jogo em Janeiro) e o Supremo Tribunal virou radicalmente à direita. Pior do que isso, o trumpismo continua vivo – 70 milhões de votos estão aí para o atestar – e a economia mundial está esfrangalhada, enquanto os números da pandemia batem recordes negativos. Tudo isto se desenrola num quadro de um planeta Terra em acelerada decadência...

Terminado o reality show, chega rapidamente a hora do encontro com a dura realidade. 

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico.)

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