Escolha as suas informações

Os taliban voltaram ao local do crime num país que já tem TikTok
Mundo 9 min. 11.09.2021
Afeganistão

Os taliban voltaram ao local do crime num país que já tem TikTok

Afeganistão

Os taliban voltaram ao local do crime num país que já tem TikTok

Foto: AFP
Mundo 9 min. 11.09.2021
Afeganistão

Os taliban voltaram ao local do crime num país que já tem TikTok

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Duas décadas depois do derrube das torres gémeas de Nova Iorque, os taliban voltaram a conquistar o poder no Afeganistão. Na altura que os Estados Unidos invadiram este pequeno país e autêntico cemitério de impérios não havia redes sociais, nem os smartphones estavam na mão de toda a gente. A tecnologia mudou muito, o mundo nem por isso.

Os taliban, a milícia dos chamados estudantes de teologia, mandam parar uma camioneta, revistam-na e identificam os passageiros, com auxílio de um dispositivo biométrico, que lhes permite determinar quais são os passageiros que colaboraram com as forças dos Estados Unidos da América. Quatro passageiros já não voltam a entrar no autocarro. Esta cena de filme, passa-se algures numa estrada do Afeganistão, depois de em poucos dias os estudantes de teologia terem reconquistado o país, depois do anúncio da retirada das tropas dos EUA.

Os estudantes de teologia podem parecer ter uma ideologia vinda da Idade Média, mas utilizam as mais modernas tecnologias para reinstaurar o seu poder. Dois terços da população afegã é composta por jovens com menos de 25 anos e o uso das redes sociais generalizou-se, como no resto do planeta. Os fundamentalistas islâmicos fazem uso atento das redes sociais, ora para veicular propaganda ora para detetar e vigiar os seus opositores.

Muitos afegãos, escreveu o site Wired, citado pelo site Setenta e Quatro, vêem-se numa encruzilhada: por um lado, os telemóveis são a única forma de terem acesso a informação nestes dias e, por outro, podem servir como provas de acusação para os taliban.

"Os rapazes/homens – muito preocupados! Estão a percorrer freneticamente os seus telefones para excluir as mensagens que enviaram, as músicas que ouviram e as fotos que tiraram", escreveu no Twitter a jornalista da BBC Sana Safi.

Durante duas décadas, os Estados Unidos e os seus aliados levaram a cabo o que chamaram de guerra ao terrorismo. Os ideólogos dessa guerra, consideravam que era possível mudar os regimes dos países que definiam como pertencentes ao "eixo do mal", e instalar governos "democráticos" no Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria.

Uma guerra que destruiu a Al-Qaeda, mas fez nascer no vazio dos países destruídos o Estado Islâmico do Daesh e multiplicou os grupos terroristas no vazio dos estados falhados. Durante esse conflito, o Pentágono usou novos equipamentos para vencer esta guerra: um ambicioso programa de aviões não tripulados (drones) usados para reconhecer a matar inimigos à distância e um poderoso programa de identificação biométrica da população do Afeganistão e Iraque, para poder conseguir isolar o inimigo da população desses países.

O Departamento de Defesa teve a ideia de que se podia vencer a Guerra ao Terror por meio da biometria, por meio da marcação, rastreamento e localização de pessoas.(...) O objetivo inicial do Departamento de Defesa era obter a biometria de 80% da população do Afeganistão. "O objetivo era aproximadamente 25 milhões de pessoas. Não se sabe se foi alcançado, por estas estatísticas serem zelosamente guardadas pelo Departamento de Defesa e não estarem disponíveis através do Governo do Afeganistão", comentou à NPR Annie Jacobsen, jornalista de investigação e autora do livro "First Platoon", no qual explica como a guerra ao terror alavancou a recolha dos dados biométricos pelo Pentágono.


Ernesto Cabeca Jr, portugues que esteve emigrado em Nova Iorque durante a queda das Torres Gemeas, em 2001, e que trouxe para Portugal uma peça proveniente dos destroços do atentado. Actualmente, a peça encontra-se numa quinta onde organiza casamentos, baptizados e outros eventos.
Um pedaço da tragédia
É uma história com código postal em Alverca. A história de 2,5 toneladas do World Trade Center, que um dia um construtor civil trouxe para Portugal. O governo português não quis a peça, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira também não. Ficou no jardim da sua quinta. À espera de se tornar num objeto de colecção.

O que se sabe é que pelo menos um milhão de pessoas está registada no registo biométrico, entre os quais, todos os militares, polícias e pessoas que trabalhavam para as autoridades afegãs e colaboravam com os exércitos estrangeiros. Dados que terão caído nas mãos dos taliban.

Um veterano das operações especiais do exército dos EUA disse, ao site The Intercept, ser possível que os taliban possam precisar de ferramentas adicionais para processar os dados biométricos, mas exprimiu preocupação de que o Paquistão os pudesse ajudar com isto. "Os taliban não têm equipamento para utilizar os dados, mas o ISI (serviços secretos paquistaneses) têm", disse o antigo oficial de operações especiais, referindo-se à agência de espionagem do Paquistão, Inter-Services Intelligence, conhecida por trabalhar em estreita colaboração com os taliban.

Os militares norte-americanos há muito que utilizam dispositivos de identificação biométrica na guerra global contra o terrorismo e usaram a biometria para ajudar a identificar Osama bin Laden durante o ataque de 2011 ao seu esconderijo paquistanês. "Penso que nunca ninguém pensou na privacidade dos dados ou no que fazer caso o sistema de identificação biométrica caísse em mãos erradas", disse Welton Chang, director de tecnologia da Human Rights First, ele próprio um antigo oficial dos serviços secretos do Exército. "No futuro, o aparelho militar e diplomático dos EUA deve pensar cuidadosamente sobre se deve voltar a utilizar estes sistemas em situações tão volúveis como o Afeganistão".

Quando o Estado de exceção passou a ser a regra

O equilíbrio entre a privacidade e a segurança nacional alterou-se acentuadamente após o 11 de Setembro, com a aprovação da Patriot Act nos EUA em outubro de 2001. Os funcionários governamentais ganharam nova autoridade para vigiar possíveis ameaças. Com o advento dos smartphones e a prevalência das comunicações eletrónicas, as autoridades públicas também desenvolveram novas ferramentas para monitorizar determinados indivíduos e rastrear o seu paradeiro físico através de dados de geolocalização.

As revelações do antigo analista da NSA (Agência de Segurança Nacional) Edward Snowden, publicadas em 2013, pelo Guardian revelaram a extensão da espionagem dos EUA, a pretexto da guerra global contra o terrorismo, sobre muitos milhões dos seus cidadãos e de outros habitantes do planeta.

Snowden revelava que o governo dos EUA tinha implementado, entre outras operações, um projeto chamado PRISMA que permitia o acesso direto das autoridades aos servidores das principais empresas tecnológicas como a Apple, Google, Facebook e Amazon.

O Presidente dos EUA na altura, Barack Obama, quis acalmar os cidadãos, dizendo que a lei não permitia às agências de espionagem ter acesso aos conteúdos das conversas, mas apenas aos metadados. Uma limitação enganadora, segundo os especialistas. O conselheiro-geral da NSA Stewart Baker, confessou na altura: "os metadados contam absolutamente tudo sobre a vida de uma pessoa. Se tivermos suficientes metadados não precisamos de conteúdo". O general Michael Hayden foi ainda mais sucinto: "nós matamos pessoas usando os metadados".

Uma contabilidade pesada

A guerra global contra o terrorismo já matou quase 1 milhão de pessoas a nível mundial e custou mais de 8 biliões de dólares desde o seu início há duas décadas. Estes números foram publicados na semana passada pelo "Projeto Custos de Guerra" da Universidade de Brown, um esforço de investigação em curso para documentar o impacto económico e humano das operações militares pós 11 de Setembro.

O documento analisa os custos das guerras travadas no Iraque, Síria, Afeganistão, Paquistão, Somália e outras regiões onde os EUA estão ou estiveram militarmente envolvidos. "É fundamental que prestemos devidamente contas das vastas e variadas consequências das muitas guerras e operações de contra-terrorismo dos EUA desde o 11 de Setembro, enquanto fazemos uma pausa e refletimos sobre todas as vidas perdidas", disse a co-directora do projeto, Neta Crawford. "A nossa contabilidade vai além dos números do Pentágono, porque os custos da reação ao 11 de Setembro foram abafados em todos os orçamentos".

Os espantosos custos económicos da guerra contra o terrorismo empalidecem em comparação com o impacto humano direto, medido em pessoas mortas, feridas e expulsas das suas casas. As últimas estimativas do "Projeto Custos da Guerra" indicam que 897.000 a 929.000 pessoas foram mortas durante as guerras. Dos mortos, 387.000 são classificados como civis, 207.000 como membros das forças militares e policiais nacionais, e outros 301.000 como combatentes da oposição mortos por tropas da coligação liderada pelos EUA e seus aliados. O relatório também revela que cerca de 15.000 contratados pelos serviços militares dos EUA foram mortos nas guerras, juntamente com um número semelhante de tropas ocidentais aliadas destacadas para os conflitos e várias centenas de jornalistas e trabalhadores da ajuda humanitária.


ARCHIV - 11.09.2001, USA, New_York: Blick über das Häusermeer von Manhattan auf die brennenden Zwillingstürme des World Trade Centers. Zwei Flugzeuge sind innerhalb von kürzester Zeit in das World Trade Center in New York gestürzt - der Beginn einer Serie von verheerenden Terroranschlägen in den USA. Die USA gehen davon aus, dass Terroristen dafür verantwortlich sind. Die Zwillingstürme des World Trade Centers sind nach Explosionen im unteren Teil der Gebäude inzwischen eingestürzt. Tausende Menschen sollen verletzt worden sein. (zu dpa «20 Jahre 9/11: Terroranschläge in den USA») Foto: -/Ipol/dpa +++ dpa-Bildfunk +++
"Não morri nas Torres porque Deus tinha planos para mim"
Três portugueses apanhados no centro do ataque às Torres Gémeas relatam ao Contacto o dia de horror com as emoções ainda à flor da pele. Vinte anos depois os traumas permanecem.

Tal como os seus estudos anteriores, o número de mortos calculado pelo "Projeto Custos da Guerra" centra-se apenas nas mortes causadas diretamente pela violência durante a guerra global contra o terrorismo e não inclui "mortes indiretas, nomeadamente as causadas pela perda de acesso a alimentos, água e/ou infra-estruturas, doenças relacionadas com a guerra" que resultaram dos conflitos. O relatório também contesta os números oficiais, dado que "algumas das pessoas classificadas como combatentes da oposição também podem ter sido civis, uma vez que existem incentivos políticos para classificar os mortos como combatentes e não como civis" – uma advertência que se encaixa na prática confessada do próprio Governo dos EUA de rotular como combatentes quaisquer "homens em idade militar" mortos nas suas operações.

Tais práticas têm continuado através de múltiplas administrações. Uma investigação recente a partir do site de notícias centrado nas forças armadas Connecting Vets incluiu vídeos e relatos divulgados da campanha de drones de 2019 na província de Helmand, no Afeganistão. A história incluía testemunhos de antigos operadores de drones que afirmaram ter recebido luz verde para matar qualquer pessoa vista a segurar um walkie-talkie ou a usar um colete tático nessa província afegã.

Os custos económicos referidos pelo relatório "Custos da Guerra" incluem 2,3 biliões de dólares gastos pelo Governo dos EUA em operações militares no Afeganistão e Paquistão, 2,1 biliões de dólares no Iraque e Síria, e 355 mil milhões de dólares na Somália e noutras regiões de África. Mais 1,1 biliões de dólares foram gastos em medidas de segurança interna nos Estados Unidos desde 2001, elevando as despesas diretas da guerra ao terror no país e no estrangeiro para 5,8 biliões de dólares.

Mesmo isso, porém, não representa a totalidade das despesas impostas pelas guerras. Dezenas de milhares de soldados norte-americanos regressaram de zonas de guerra mutilados e traumatizados, transformando muitos deles em dependentes a longo prazo do Governo federal. O custo da prestação de cuidados médicos e de invalidez a estes veteranos é suscetível de exceder 2,2 biliões de dólares até 2050, elevando a fatura económica total das guerras para 8 biliões de dólares.

"O que é que realmente conseguimos em 20 anos de pós-guerra do 11 de Setembro? Milhões de vidas e biliões de dólares mais tarde, quem ganhou? Quem perdeu, e a que preço?" disse Stephanie Savell, co-directora do "Projeto Custos da Guerra". "Daqui a vinte anos, continuaremos a contar com os elevados custos sociais das guerras do Afeganistão e do Iraque – muito depois das forças norte-americanas se terem ido embora", citada pelo The Intercept.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.


Notícias relacionadas