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Afeganistão e Ocidente: barbárie e civilização em confronto?
Opinião Mundo 11 min. 20.08.2021 Do nosso arquivo online
Análise

Afeganistão e Ocidente: barbárie e civilização em confronto?

Imagens da televisão Al-Jazeera mostram membros dos talibã no palácio presidencial, em Cabul, após a tomada de poder no Afeganistão.
Análise

Afeganistão e Ocidente: barbárie e civilização em confronto?

Imagens da televisão Al-Jazeera mostram membros dos talibã no palácio presidencial, em Cabul, após a tomada de poder no Afeganistão.
Foto: AFP
Opinião Mundo 11 min. 20.08.2021 Do nosso arquivo online
Análise

Afeganistão e Ocidente: barbárie e civilização em confronto?

Diogo RAMADA CURTO
Diogo RAMADA CURTO
Que interpretação podemos fazer das imagens assustadoras que circulam nas redes sociais sobre os taliban? A crónica de opinião do historiador Diogo Ramada Curto.

Do Afeganistão, circulam na internet imagens que parecem ser de uma indiscutível barbárie. Algumas são falsas, outras verdadeiras. Numa delas, um grupo de soldados é filmado a comer, a rir e a falar ao telemóvel, no faustoso palácio presidencial. Mais concretamente, trata-se de um banquete destinado a festejar a vitória, onde a ostentação do mobiliário e da sala atapetada contrasta com uma suposta boçalidade dos soldados. As imagens de maior violência dizem respeito a execuções de indivíduos ou grupos, mortos a tiro e cujos corpos são deixados por terra. Foram filmadas por participantes amadores, na Síria, há já alguns anos, mas voltaram a circular tendo em vista caracterizar uma situação que se propõe como semelhante da que se está a viver, hoje, no Afeganistão.

Às imagens acabadas de referir juntam-se algumas informações. A primeira diz respeito ao facto de a retirada das tropas norte-americanas, depois de terem ali mantido a sua presença durante vinte anos, ter precipitado os acontecimentos de que fazem parte as próprias imagens. A segunda refere-se ao controlo político do país pelos chamados taliban, também chamados grupos tribais. Há ainda notícias vagas do papel da religião, sobretudo na criação de uma extrema desigualdade entre géneros e nas lutas entre frações dos chamados fundamentalistas islâmicos.

As imagens falsas e verdadeiras que nos são dadas a ver são, sem dúvida, escolhidas entre muitas. Por isso, o risco de estarmos a ser manipulados ou de não conseguirmos controlar o que vimos é enorme. Enquanto a informação de que dispomos sobre o Afeganistão – sobre as negociações que levaram à retirada das tropas, sobre a organização da sociedade afegã e das suas comunidades, e, sobretudo, acerca dos já referidos fundamentalistas – é escassa e não nos permite ter uma ideia do que se está realmente a passar. A este propósito, já em 2012, Cândida Pinto, uma das jornalistas que melhor conhece o terreno, afirmou: “Faz capa quando a coisa explode, mas acompanha-se pouco. O que é que nós sabemos do Afeganistão?”


TOPSHOT - A Taliban fighter mans a machinegun on top of a vehicle as they patrol along a street in Kabul on August 16, 2021, after a stunningly swift end to Afghanistan's 20-year war, as thousands of people mobbed the city's airport trying to flee the group's feared hardline brand of Islamist rule. (Photo by Wakil Kohsar / AFP)
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Talibãs pretendem assumir o poder no Afeganistão "nos próximos dias", através de uma "transição pacífica", disse um porta-voz do movimento islâmico radical à BBC.

Estou convencido de que qualquer interpretação do que se está a passar carrega consigo os diferentes modos da Europa ou do Ocidente compreenderem o que se passa lá longe, no Oriente, entendido este tanto como lugar de fascínio, como de desprezo, quando lhe são conferidas características bárbaras ou primitivas. Por isso, não é só a informação que é escassa ou pouco precisa, são os quadros mentais do Ocidente – nos seus limites de conhecimento e com todos os seus filtros e preconceitos, com inúmeras vinculações ao passado colonial – que condicionam a nossa compreensão. Três modelos, que giram em torno da relação civilização-barbárie, podem ser tidos em conta. Através da sua descrição abreviada, será possível o confronto tanto com a informação de que dispomos, como com os quadros limitados da nossa capacidade de conhecimento.


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O primeiro modelo surgiu na ressaca da Segunda Guerra Mundial e do Holocausto e foi defendido por um conjunto de intelectuais alemães. Frente à barbárie constituída pelos milhões de mortes e pelo racismo ariano, impunha-se repor os ideais baseados no progresso da civilização, na racionalidade da ciência e nos valores da igualdade e da liberdade, propostos por uma cultura iluminista europeia. Na opinião de um desses intelectuais, Norbert Elias, essa mesma cultura europeia do progresso e da razão assumiu diferentes configurações sociais e nacionais, mas em todas elas o que mais lhe interessou foi compreender como é que as relações entre indivíduos, reguladas por normas e modos de autocontrole, geravam padrões de comportamento não violentos. Por outras palavras, o mais relevante, na dita cultura europeia, consistiu na formação e desenvolvimento de uma razão prática orientada para a supressão de todo o tipo de violência. Foi a isto que Elias chamou o processo de civilização.

Claro que as acusações de que Elias não passava de um sociólogo, dobrado de historiador, que incorria numa perspectiva eurocêntrica acabaram por se abater como uma sombra sobre a sua obra. Restou-lhe guardar para si, a memória dos seus pais assassinados num campo de concentração nazi, considerando o Holocausto como um momento de descivilização. E reiterar, eticamente, a confiança dos dois séculos anteriores nos ideais do progresso e da razão (ver o seu livro, traduzido para português, A Busca da Excitação, com introdução de Nuno Domingos, Miguel Jerónimo e minha, Edições 70).

Hannah Arendt, outra das intelectuais alemãs que fugiu à barbárie do Holocausto, ensaiou uma perspectiva mais crítica dos valores europeus. No seu livro sobre As Origens do Totalitarismo (trad. portuguesa na Dom Quixote), argumentou que as origens do racismo nazi poderiam ser encontradas noutras sociedades europeias, mais concretamente, em França e na Grã-Bretanha. No caso francês, o racismo da nobreza francesa exacerbou-se, no século XVIII, precisamente no momento em que o grupo social mais privilegiado se sentiu ameaçado e posto em causa por uma sociedade em busca de modos mais igualitários de relacionamento.

No caso britânico, a relação de causalidade com o nazismo foi ainda mais estreita, pois baseou-se nas práticas e nas consequências do racismo, desenvolvidas no âmbito da expansão do império colonial. Na sugestão de Arendt, o racismo – que pesou sobre as populações colonizadas ditas indígenas, com enormes consequências no sistema de trabalho forçado que lhes foi imposto – foi coberto pela retórica da superior missão civilizadora dos europeus, em relação a povos considerados inferiores.

Assim, Elias e Arendt, dois intelectuais alemães obrigados a exilar-se, para fugir ao nazismo, acabaram por divergir na interpretação do processo de civilização. Para Arendt, a cultura francesa de Setecentos foi marcada, pelo menos em parte, pelo racismo das velhas classes altas; e o pujante Império Britânico, ao longo dos séculos XIX e XX, pôs em prática formas de discriminação racista, a coberto de uma retórica civilizadora. O colonialismo surgiu, então, como uma espécie de processo de descivilização. Enquanto Elias procurou restituir os ideais de uma cultura europeia iluminista, para fugir à barbárie do Holocausto e a todos os momentos de descivilização, caracterizados pela violência.

Um segundo modelo de discussão do processo de civilização contrapôs o discípulo ao seu mentor. Francis Fukuyama, em O Fim da História e o último homem (1992, trad. port. na Gradiva) argumentou que, com a queda do Muro de Berlim e o triunfo da democracia liberal, se iria assistir à homogeneização do mundo global. Os Estados deixariam de encontrar razões para a guerra, logo, a civilização ocidental, baseada no modelo da democracia liberal, difundir-se-ia a uma escala planetária.

Poucos anos depois, Samuel P. Huntington, em O choque das civilizações e a mudança na ordem mundial (trad. na Gradiva), viu na globalização uma força geradora de conflitos e não de consensos, sobretudo de um ponto de vista do choque entre religiões, que funcionavam como marcadores principais de diferentes civilizações. A homogeneização, de que falava Fukuyama, dizia apenas respeito ao comportamento das elites minoritárias. Por isso, a difusão dos valores ocidentais, associados à democracia liberal, só poderia promover resistências e choques. Enfim, segundo Huntington, melhor seria que os Estados Unidos da América seguissem uma política mais isolacionista e contida, que pudesse evitar o choque das civilizações.

Nos termos do debate Fukuyama-Huntington, os acontecimentos ocorridos em 11 de Setembro de 2001 deram razão, pelo menos em parte, a Huntington, com a sua teoria de um choque entre civilizações. O certo é que foi ali que se encontrou a origem da entrada das tropas norte-americanas no Afeganistão e o início da denominada Guerra ao Terror.

Um terceiro modelo só, aparentemente, é de criação recente. Refiro-me à relação de extremo respeito pela especificidade de cada cultura, a qual surge acompanhada por uma dupla preocupação: por um lado, a de ser necessário estudar e compreender os usos e costumes de cada grupo, bem como de reconhecer a multiplicidade de culturas e identidades presentes num determinado território ou unidade política; por outro lado, a de empreender um esforço destinado a dar voz ou atribuir um lugar de fala a esses mesmos grupos ou comunidades, que não têm, nem devem ser assimilados ou subordinados a outros, nem tão-pouco às lógicas de poder impostas a partir de cima.

Recentemente, Grada Kilomba resumiu bem este modelo, contrapondo-o à ordem colonial, sem esconder a sua nostalgia por ideais de vida comunitária. Neste sentido, escreveu: “o choque atroz da separação e a dor violenta de se ser privada/o do vínculo à comunidade, dentro e fora do continente [africano], são experiências de ruptura que traduzem a definição clássica de trauma. O desmembramento das/os africanas é símbolo de trauma colonial” (Memórias da Plantação: Episódios de racismo quotidiano, Orfeu Negro, 2019; 1.ª ed. inglesa 2008, p. 228).

Porém, as origens da formulação deste modelo encontram-se na própria ordem colonial e recuam ao período posterior à Conferência de Berlim (1884-1885). Em Portugal, algumas das ideias e experiências que compõem esse mesmo modelo e circularam internacionalmente tiveram particular aceitação nos anos finais da Monarquia, tendo sido depois apropriadas por republicanos e integralistas comprometidos com a formação do Estado Novo de Salazar. Claro que o modelo de respeito pelos usos e costumes dos mais diversos grupos e comunidades surgiu como uma estratégia destinada a fazer funcionar um Estado Colonial de baixo custo, que tinha de cooptar como colaboradores os próprios chefes tribais, num quadro geral fortemente marcado pelo racismo e por uma hierarquia de culturas e civilizações.

Rui Enes Ulrich, um professor de Direito da Universidade de Coimbra, monárquico, integralista, colaborador e beneficiário do Estado Novo, apresentou uma das versões desse modelo (Política Colonial, Coimbra, 1909; “Colonizações Ibéricas”, in A Questão Ibérica, ed. António Sardinha, Lisboa, 1916). Para ele, era necessário começar por compreender como a administração colonial levara já longe o sistema da assimilação, como sucedera ao longo do século XIX, tendo os seus males sido agravados por uma perniciosa centralização. Só assim se poderia romper com tais erros, pugnando por uma autonomia que suscitasse nas colónias civilizações próprias, capazes de se governarem por si.

Depois, Ulrich defendia que a política indígena era o capítulo principal “de toda a ciência colonial”, tal como esta tinha sido pensada em congressos internacionais ocorridos por volta de 1900. Nestes, defendera-se – em parte seguindo o exemplo britânico de descentralização e de incentivo ao conhecimento antropológico – que cumpria “manter a preponderância dos chefes e príncipes indígenas, não derrogar os hábitos locais e conservar, tanto quanto possível, os costumes, as ideias, a religião e até os preconceitos dos povos”. Atribuía-se, ainda, ao sistema liberal e constitucional, baseado na representação eleitoral, com o seu espírito de simetria e de uniformidade, as piores “monstruosidades com o campo colonial”.

Sublinhe-se que quem assim escrevia não escondia as suas mais arreigadas convicções racistas e o seu desprezo por qualquer regime mais ou menos democrático:

“Os direitos do homem transformados nos direitos do preto das selvas são a eloquente caricatura de uma doutrina, apenas recheada de palavreado vazio de sentido. O preto eleitor e elegível no seu recôndito sertão, igual ao mais culto habitante da metrópole em direitos políticos e em influência social, é dum pitoresco inexcedível. Que melhor prova querem de que o sistema constitucional, na sua essência, enferma do mais grosseiro desconhecimento da realidade e da psicologia das colectividades! Esta comédia desopilante do preto-cidadão na sua palhota, acompanhando com batuques a eleição do siôr deputado, sai já dos domínios da ciência para entrar nos da ironia alegre! Que admirável sistema este à sombra do qual as colónias não tinham de facto representação nenhuma, nem direitos reais efectivos! Um simulacro descarado de eleição servia de pretexto para se negar a autonomia das colónias ou mesmo a sua justa influência no governo, dentro do sistema, aliás, reprovável de assimilação. Era a escamoteação liberal com todo o seu palanfrório sem nexo nem sentido, na sua mais perfeita expressão”.

Em conclusão, estes três modos de interpretar o processo de civilização não trazem dados novos sobre o que se está a passar no Afeganistão. Contudo, servem de alerta em relação à maneira que temos de processar essa mesma informação, com base nos nossos quadros mentais ocidentais. Sobretudo no que respeita aos modos de pensar a relação entre civilização e barbárie, mais ou menos primitiva, podem ajudar à formação de uma perspetiva comparada, capaz de interpelar as nossas próprias experiências ocidentais e os padrões históricos ou coloniais que moldaram as sociedades em que, hoje, vivemos em segurança.

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Grada Kilomba