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Adrià Alsina. O português que quer mandar em Barcelona
Mundo 6 min. 29.11.2018 Do nosso arquivo online

Adrià Alsina. O português que quer mandar em Barcelona

Adrià Alsina. O português que quer mandar em Barcelona

Mundo 6 min. 29.11.2018 Do nosso arquivo online

Adrià Alsina. O português que quer mandar em Barcelona

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Um ex-primeiro-ministro francês, Manuel Valls, um português, um italiano, um sírio e uma catalã candidatam-se à Câmara de Barcelona. As eleições são já em maio de 2019, e o Contacto falou com o candidato lusodescendente.

Há mais de um ano, as escolas da Catalunha estavam cheias de gente. Na Escola Joan Miró, perto da Plaza de España, 60 pessoas ouviam as explicações calmas dos “animadores” das atividades que antecederiam a “grande festa da música” de 1 de outubro de 2017, o nome de código escolhido para convocar os ativistas para ocupar os locais onde iria decorrer o referendo para tentar decidir a independência da Catalunha.

Numa sexta-feira, centenas de escolas e outros edifícios foram ocupados por milhares de voluntários, em que pontificavam os pais, professores e alunos da maioria destes estabelecimentos de ensino. Na escola primária Joan Miró e no vizinho Instituto Ernest Lluch juntaram-se mais de 300 pessoas para garantir que as instituições estariam abertas durante o referendo. Isto apesar das ordens judiciais que mandavam a polícia, nomeadamente a polícia autonómica, os Mossos d’Esquadra, colocada sob o comando de um oficial da Guarda Civil, processado por tortura, impedir que qualquer edifício público ou outro fosse palco do referendo.

“Nessa altura, veremos o que podemos fazer para garantir que a festa da música [nome de código do referendo] se realize a partir das oito horas da manhã” , explicava Alfred, no cimo do seu metro e noventa e com a curiosa inscrição na t-shirt: “Tropical Vice”. “Podemos fazer resistência pacífica, vai depender do número de pessoas que cá estiver, mas ninguém deve fazer algo que se sinta pouco confortável para fazer”, realçava Leonardo. Os dois organizadores locais alertaram para os cuidados a ter ao tirar fotos às forças policiais em ação: “Caso consigam apanhar imagens fortes de repressão, passem-nas a um jornalista amigo, porque atualmente com a ’lei da mordaça’, uma denúncia cidadã pode significar uma multa de mais de 300 euros”.

Entretanto sucediam-se um pouco por toda a Catalunha imagens de violência da repressão da Guarda Civil e das unidades de intervenção da Polícia Nacional, que tomaram de assalto as duas secções em que estava previsto que votasse o presidente do governo catalão, Carles Puigdemont e a presidente do parlamento catalão, Carme Forcadell. Isto apesar da presença de dezenas de observadores internacionais e de organizações de direitos humanos que defendem o direito ao voto em contexto de violência política. Um dos 200 ativistas presentes confessava que costumava trabalhar em países em guerra, e nunca tinha pensado encontrar aquelas práticas na Catalunha. A jornada significou um balanço eleitoral pesado para o governo de Mariano Rajoy: os 761 feridos, dois deles graves, que a repressão dos mais de 10 000 Guardas Civis e Polícia Nacional trazidos de todas as partes de Espanha deixaram nas ruas da Catalunha.

As imagens de homens, mulheres e velhos espancados quando tentavam votar num referendo, considerado ilegal pelo governo de Madrid e o Tribunal Constitucional espanhol, correram o mundo, dadas as centenas de jornalistas estrangeiros presentes.

Na rua um velho interpelava os dois Mossos d’Esquadra que passaram o dia à frente da escola Joan Miró: “Não têm vergonha de deixarem aqueles tipos a bater na vossa gente?”. Os agentes, meio enrascados, justificavam-se com o cumprimento das ordens. O homem não estava convencido, “custa tanto irem afundar aquela porcaria de barcos em que eles estão [alojados]?”. A conversa baixou de tom, com outro catalão a dizer: “não há ninguém que vos renda? Estão aqui desde as cinco da manhã, não querem que vos traga nada para comer?”.

Segundo os dados oficiais fornecidos pelo governo da Catalunha, participaram no referendo de 1 de outubro 5.343.358 catalães, com o bilhete de identidade registado para poderem votar, o que equivale a 56,75% da população. Só foram considerados válidos 2.262.424 votantes. Destes, 2.020.144 votaram no sim e 176 566 no não. Brancos e nulos atingiram 65.715 votos. A diferença, entre os votos válidos e os votantes deve-se a que a Guarda Civil e Polícia Nacional apreenderam 770 mil votos, nas secções de voto que destruíram.

Ao meu lado, no dia do referendo, dois jovens ironizavam, um deles com uma estrela vermelha ao peito: “Nunca pensei acordar em Espanha e vir a adormecer na Catalunha”.

Um ano depois, a Catalunha não é independente e os independentistas prontificam-se para ir concorrer à Câmara de Barcelona – nas mãos da esquerda e de Ada Colau – divididos em, pelo menos, três candidaturas, batendo-se contra o ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls que concorre pelo principal partido anti-independentista da Catalunha, o Ciudadanos.

A corrida à Câmara de Barcelona

Para atalhar isso, a Assembleia Nacional da Catalunha (ANC) a organizadora das principais manifestações independentistas e do próprio referendo de 1 de outubro, convocou umas primárias para constituir uma lista independentista: as “Primàries Catalunya”. Nelas concorrem 59 candidatos de origens, formações e perfis diferentes. Estas eleições servirão para escolher e ordenar os candidatos para os 44 lugares das listas para a câmara de Barcelona.

Tudo bem para os independentistas? Não. Os principais partidos independentistas: a ERC (Esquerda Republicana da Catalunha), o PDCAT (Partido Democrático da Catalunha) e a CUP (Comissões para a Unidade Popular) não participam no processo. Apesar disso, mais de 23 mil cidadãos se inscreveram para eleger uma lista independentista.

O Contacto falou com Adrià Alsina, um dos favoritos a vencer esta consulta, que é filho de uma portuguesa e de um catalão e ativista da ANC:

Com a divisão das candidaturas independentistas não receia estarem a ajudar a eleger o ex-primeiro-ministro francês e candidato do Ciudadanos, Manuel Valls?

A proposta inicial era fazer uma lista unitária em que se envolvessem todos os independentistas. Foram os grandes partidos que decidiram que não queriam participar neste processo. Haverá, pelo menos, três listas independentistas. Não é culpa de quem fez a proposta das primárias que haja essa divisão. A favor do processo temos que, até agora, mais de 23 mil pessoas inscreveram-se para participar nesta escolha: nenhuma outra força política tem semelhante participação democrática para escolher um candidato. Isso é mais de dez vezes os participantes das primárias de todos os outros partidos juntos.

Mas isso não pode levar a eleger um presidente da câmara anti-independentista?

Não, mesmo que o senhor Valls ficasse em primeiro lugar, estou convencido que haverá uma maioria absoluta alternativa, e creio que será possível e desejável eleger alguém que seja independentista.

Quais são as suas maiores divergências com a atual presidente da câmara, que se recandidata, Ada Colau?

Quando Ada Colau ganhou houve uma enorme vaga de esperança no mundo independentista e nos muitos ativistas e organizações sociais. Toda a gente esperava uma política nova. Infelizmente, apenas aconteceu uma política cobarde que se esconde perante os problemas e que não teve uma posição firme e determinada nos momentos essenciais, como no referendo de 1 de outubro. Além disso tudo, tem protagonizado uma gestão incompetente que tem afrontado, sem políticas públicas eficientes, os sectores turísticos, económicos e até sociais da cidade. Finalmente, Ada Colau prometeu referendar se Barcelona aderia, ou não, à associação de municípios independentistas e não foi capaz de o fazer, fugindo às suas promessas.

A lista que sairá deste processo é de esquerda ou de direita?

É uma lista que é de rutura do ponto de vista da independência, mas que considera que quanto melhor funcionar Barcelona e mais aberta estiver ao mundo, mais possível será essa mesma independência.

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