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Adios Muchachos. Centro-esquerda volta ao governo da Argentina
Mundo 6 min. 30.10.2019 Do nosso arquivo online

Adios Muchachos. Centro-esquerda volta ao governo da Argentina

Adios Muchachos. Centro-esquerda volta ao governo da Argentina

Foto: AFP
Mundo 6 min. 30.10.2019 Do nosso arquivo online

Adios Muchachos. Centro-esquerda volta ao governo da Argentina

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Chegou ao fim o mandato de Maurício Macri na Casa Rosada. Eleito Presidente, Alberto Fernandéz tem pela frente a renegociação do maior empréstimo de sempre do FMI numa “negociação dura” que pode ter impacto na redefenição das forças políticas do continente.

“Vêm ai tempos difíceis”. Alberto Fernandéz foi eleito Presidente à primeira volta com 48% dos votos na eleição que devolveu a “número dois”, Cristina Kirchener, aos comandos do governo da Argentina. Sem alimentar ilusões, o “professor” abriu o jogo no discurso da vitória numa crítica cerrada à “herança pesada” do antecessor, Maurício Macri, derrotado com 40,4% dos cerca de 32 milhões de votos. Foi dado o primeiro que passo na inversão da correlação de forças políticas do continente.

Negociação “duríssima”

A dupla peronista só toma posse a 10 de dezembro e já deixou claro que não há marcha atrás na promessa de renegociar o pagamento dos cerca de 285 mil milhões de euros de dívida externa para resgatar “o país das cinzas”.

Também se comprometeu a tornar os medicamentos gratuitos para os reformados e a melhorar os salários da classe trabalhadora, antes vai sentar-se à mesa com os credores.

A “ameaça de incumprimento”da dívida pode conduzir a uma crise financeira mundial com impacto direto na economia norte-americana e na expetativa de reeleição de Donald Trump na presidência norte-americana em 2020 é, na opinião do jornalista argentino, Bruno Sgarzini, uma “cartada perigosa”, apesar de ser a “única que resta” ao novo executivo, caso o Departamento do Tesouro norte-ameriano “se oponha a validar as negociações com os credores” numa troca de argumentos que se prevê “durissíma”.

“A Argentina tem uma dívida de 25 mil milhões de euros para pagar só no primeiro ano. Então, o que Alberto Fernandéz quer fazer para aligeirar a carga do país é reprogramar os prazos para gerar uma estabilidade que permita ao país começar a pagá-la”, resume o argentino.

Da campanha para a vitória nas urnas, o primeiro grande objetivo do governo de Fernandéz e Kirchner é travar a “queda livre da economia interna” confrontada com “a perda do poder aquisitivo, dos benefícios e dos subsídios dos programas sociais” para que o país “volte a crescer por dentro”. Se falhar, o analista político argentino, que falou ao Contacto, antecipa uma “nova Grécia” na medida em que, perante a ameaça de um bloqueio financeiro à venezuelana, Ferandéz “vai acabar por ceder para evitar o colapso”, a menos que se decida pela “diversificação das relações internacionais com a China e com a Rússia” e, a médio prazo, pela “formação de um bloco regional” com os países progressistas da América Latina, neste momento reduzidos ao México de Lopez Obrador, à Bolívia do recém-reeleito Evo Morales, à Venezuela de Nicolás Maduro, a Cuba castrista e à Nicarágua do sandinista Daniel Ortega.

Até lá, no curto prazo, Bruno Sgarzini acredita que o peronismo vai pressionar os credores com “gente nas ruas e uma mobilização dura também com os empresários que foram afetados pela crise económica”.

“Tudo tranquilo“

Depois de assumir a derrota, o ainda presidente Maurício Macri chamou o sucessor para o pequeno-almoço logo na segunda-feira. “Precisamos de uma transição pacífica que traga paz a todos os argentinos, porque o mais importante é o bem-estar de todos”, acrescentou ao convite. “Todos percebemos que é uma eleição histórica, entre dois modelos de país”, sublinhou depois de falhar o objetivo de reverter o cenário que as primárias de Agosto já davam como certo. À saida daquela que vai ser a sua residência oficial, o presidente eleito no assumiu que durante o encontro ambos manifestaram “a vontade que tudo seja tranquilo” na transição de poder que vai decorrer nas próximas seis semanas. O diário La Nácion assegura que Alberto Fernandéz deve anunciar os futuros ministros dias antes de assumir o cargo. Até lá deverá concentrar-se a consolidar a equipa para alcançar um equilíbrio sustentável entre as diferentes fações que compõem a coligação Frente de Todos.

Inimigos declarados

Antes da reação dos mercados que, na ressaca do regresso do centro-esquerda à Casa Rosada, abriram com o dólar a cair dos 1,3 dólares para os 39,33 centavos, o maior parceiro comercial do país abriu as hostilidades com Jair Bolsonaro a reforçar as ameaças de retirar a Argentina do Mercosur. “Eu lamento. Não tenho bola de cristal, mas acho que os argentinos escolheram mal. O primeiro ato do Fernández foi ’Lula Livre’, dizendo que ele está preso injustamente. Já disse ao que veio”, atirou o chefe de Estado de extrema-direita que recusou cumprimentar Fernández pela vitória do último domingo.

O recém-eleito presidente argentino não respondeu mas já anunciou que o México é o destino da sua primeira deslocação oficial, quebrando, assim, a tradição dos chefes de Estado do país que sempre se deslocaram ao seu principal sócio comercial.

Bruno Sgarzini não se surpreende na medida em que “Bolsonaro prometeu ser o porta aviões e aliado dos Estados Unidos para devastar Fernandéz”.

De resto, o jornalista considera que o resultado das eleições na Argentina pode impôr uma reviravolta no continente que nas últimas semanas foi sacudido pelos protestos que obrigaram os governos do Equador e do Chile a recuar na imposição de medidas de austeridade.

Se arriscar entrar num eventual bloco regional dos progressistas, acrescenta, “pode pressionar, por exemplo, uma saída democrática para a crise venezuelana”. Mais do que isso, “pressionar saídas democráticas no Equador, Honduras, Haiti e mesmo no Chile para evitar que continuem a bloquear os avanços populares com as perseguições judiciais, pressionando, por exemplo, uma eventual libertação de Lula da Silva”.

“Herança pesada”

Antes de olhar para fora, a Argentina continua a ter pela frente um sem número de problemas financeiros que tornam numa das economias mais frágeis do continente.

Além do maior empréstimo de sempre dos cofres do Fundo Monetário Internacional (FMI), avaliado em cerca de 57 mil milhões de euros, a estadia de Maurício Macri na Casa Rosada deixa para trás um rasto de 150 mil postos de trabalho perdidos só no setor privado. Ao fim de quatro anos no poder, a taxa de pobreza disparou para os 35% e a desvalorização do peso argentino galgou para os 500%, num cenário em que as famílias perderam 36% do poder aquisitivo e o número de argentinos a viver na rua duplicou dos 99 mil para os 198 mil.

Nem os multimilionários ficaram indiferentes à catastrofe económica semeada pelo pacote de austeridade desenhado em troca da intervenção do FMI e do Departamento do Tesouro norte-americano.

Com os termómetros a bater nos 2 graus, e a sensação térmica abaixo de -2 graus , o River Plate abriu as portas do estádio Monumental Nuñez, nos primeiros dias de junho, para abrigar e alimentar os milhares de novos sem-abrigo que, pela primeira vez, cairam nas ruas de Buenos Aires em plena vaga de frio.

Ao todo, 8,9 milhões de pessoas nos 31 maiores centros urbanos do país estão abaixo da linha da pobreza, segundo o instituto de pesquisa estatal argentino.

Os números ultrapassam em larga escala os da crise de 2001 que ajudou a eleger o chamado “princípe do neoliberalismo”, Maurício Macri.

De acordo com um estudo publicado pela Universaide Católica, os mais atingidos pelo empobrecimento foram os trabalhadores e a classe média baixa. “Talvez grande parte dessas pessoas já tivessem problemas e carências multidimensionais estruturais, mas agora somou-se uma total incapacidade monetária para cobrir a cesta básica total”, resumiu a Universidade.

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