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Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye
Opinião Mundo 3 min. 06.01.2021

Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye

Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye

Foto: AFP
Opinião Mundo 3 min. 06.01.2021

Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
A suprema ironia é ver que o Brexit, em vez de iniciar a desunião da Europa, pode causar a do Reino Unido.

José Cid teve algum impacto com “Um grande, grande amor” no festival da Eurovisão de 1980. A canção salienta a força do amor, acima de todos os obstáculos que se possam encontrar, mas, talvez pela voz da experiência, acrescenta-lhe uma dose de realismo: “Se o nosso amor findar, só me ouvirás cantar: Addio, adieu, auf wiedersehen, goodbye”

A 1 de janeiro de 2021, quatro anos e meio depois do fatídico referendo, a União Europeia disse “addio, adieu, auf wiedersehen”, e do Reino Unido respondeu-se um seco “goodbye”. O amor tinha findado. Para os britânicos que o desejavam (um pouco mais de metade na altura, menos de metade agora), este dia em que a porta se fechou definitivamente é um momento de soberania, em que eles “recuperaram o controlo”. Para muitos outros, é sobretudo um momento de alívio - a “guerra do Brexit” durava há pelo menos uma década, abafando todos os outros problemas a resolver - e nesse sentido foi revelador ver primeiro-ministro e líder da oposição a discursarem com praticamente as mesmas palavras, gloriosos e sorridentes. Um sorriso amarelo e falso, pois estas elites, incluindo Boris Johnson, estão conscientes do crime histórico que acaba de ser cometido. Também os assusta saber que, a partir de agora, as costas largas de “Bruxelas” deixam de servir para distrair a ferozmente demagógica imprensa de Londres e levar com as culpas da incompetência governativa do governo de Sua Majestade.

Foi um dia triste. A Europa fica mais pobre. O Reino Unido fica muito mais pobre, e o alívio que o divórcio lhe trouxe é temporário: as tensões que dilaceram o país não desapareceram por magia e vão agudizar-se. Em Londres, Manchester, Liverpool, Newcastle e outras grandes cidades, a maioria quis pertencer à Europa. Da mesma forma votaram os mais jovens, ou os mais instruídos. E assim também votaram Escócia e Irlanda do Norte, cuja possibilidade de secessão é agora bem real - suprema ironia ver que o Brexit, em vez de iniciar a desunião da Europa, pode causar a do Reino...

No seu seminal “A Jangada de Pedra”, José Saramago imagina que de repente a Península Ibérica se desprende da Europa pelos Pirinéus e começa a flutuar sem rumo pelo Atlântico, em vã busca por uma nova casa, livre das suas amarras e dos preconceitos dos demais europeus. Ideologicamente, Saramago sempre foi anti-europeísta e as origens dessa sua desconfiança revelam-se no livro: uma amargura complexada causada pelo desprezo condescendente que os países ricos da Europa Ocidental dedicavam aos antigos donos do mundo, portugueses e espanhóis. Mas a “Jangada” foi escrita em 1986, ano de entrada de Portugal e Espanha na UE, e (apesar de alguma daquela atitude anti-lusa ainda ocorrer no Luxemburgo) o mundo mudou. Hoje são os ingleses a empreender a quimera de percorrer sozinhos o frio oceano, longe da Casa Comum, impelidos por ilusões de grandeza e amargura de já quase ninguém lhes validar os complexos de superioridade trazidos pelo império vitoriano.

A jangada britânica iniciou a sua estranha aventura que os levará a um futuro mais pobre, menos escrupuloso, ainda mais desigual. O caminho é diferente, mas os britânicos nunca deixarão de ser europeus, os seus habitantes, culturas, economias, atitudes continuarão firmemente interligados com os nossos. E tal como muitos dos que votaram para ficar pedem, nós vamos cuidar da estrela dourada britânica; daqui a vinte anos, talvez menos, ultrapassaremos os rancores dos últimos anos, faremos as pazes, voltaremos a acolhe-los no grande projecto. Até agora acertei (infelizmente) todos os vaticínios que fiz sobre o Brexit; espero acertar também neste último.



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