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"Acabamos por normalizar o anormal"
Mundo 32 6 min. 26.08.2021
Entrevista

"Acabamos por normalizar o anormal"

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"Acabamos por normalizar o anormal"

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Mundo 32 6 min. 26.08.2021
Entrevista

"Acabamos por normalizar o anormal"

Luís Pedro Cabral
Luís Pedro Cabral
Gustavo Carona, médico anestesista e intensivista no Hospital de Matosinhos, correu o mundo em missões humanitárias. Esteve no Afeganistão em diferentes momentos. O acontece actualmente não o surpreende, apenas a forma. O futuro parece condenar este país às trevas do passado. Onde ficam os direitos humanos? Noutro lugar.

Quando foste para o Afeganistão, já tinhas estado no Paquistão.

Sim, estive antes no Paquistão. A geopolítica do Paquistão envolve-se bastante do é o Afeganistão. Estava bastante interessado e até deslumbrado com aquilo que é a história e a cultura do Afeganistão já antes da minha missão lá. Fui em 2012. No pior contexto possível. Estive na província Helmand, cuja capital é Lashkar Gah, que é o êxodo de Kandahar, e que se tornou um santuário dos talibã. É a província que tem mais ópio do país. Tendo em conta que os americanos depois de terem controlado Cabul, a segunda prioridade era conquistar Kandahar, a capital ideológica dos talibã, que depois começaram dispersar e a concentrar-se nesta região. Helmand, onde havia um enorme contigente britânico, foi uma das regiões onde se registou mais violência e mais baixas da parte das forças aliadas. Foi uma zona muito bélica durante muitos anos. Uma zona de resistência talibã.

 Na cidade era perceptível todo o clima que existia?

Absolutamente. As nossas regras de segurança eram muito, muito restrictivas. Éramos completamente proíbidos de fazer qualquer espécie de vida fora de casa ou fora hospital. Só nos deslocávamos casa/ hospital, hospital/ casa. Fazíamos sempre a horas e com trajectos diferentes, para não tornar o nosso percurso previsível. Sempre que víamos "convoys" (grupos de veículos), fosse do exército afegão, fosse, neste caso, do exército britânico, eles atravessavam a cidade a uma velocidade estonteante também para diminuir a probabilidade de haver ataques. Só no centro da cidade, enquanto eu lá estive, houve pelo menos três ataques de bombistas suicidas. E estava na altura do inverno, em que há muito menos ataques da parte dos talibã. Embora a cidade em si estivesse controlada pelo exército afegão, sabíamos que às portas da cidade o território era todo ele talibã.

Isso causava-te receio?

Sou sincero: em relação ao meu trabalho com ONG´s, nomeadamente os Médicos Sem Fronteiras, eu entrei com a ´segurança` de alguns profissionais, que fazem análise de risco, com conversações com os diversos actores do conflito na medida do possível e eu acredito bastante na seriedade e na competência de quem a faz. Portanto, em boa verdade, eu despreocupo-me um bocadinho. Não vou dizer que não exista algum receio, que seja igual a quando estou em casa, mas não vivo muito a pensar no que pode acontecer. Para estar a desempenhar o meu trabalho não posso estar a relacionar-me constantemente com isso. Acabamos por normalizar o anormal. Passa-se um dia, passa-se uma semana, duas, às tantas torna-se normal sentires que há uma certa tensão, vives com isso e dormes descansado. Sabes que estatisticamente há o risco de diferentes perigos mas, no meu caso - e não me sinto particularmente corajoso - isso não preenche as minhas preocupações diárias. Fico focado no meu trabalho. A envolvência e a necessidade humanitária é tão grande que isso absorve muito da nossa energia e empurra a preocupação para outro lado.

Quando começaste a sentir no teu trabalho esse confronto civilizacional

Nós temos preparações culturais, comportamentais, a vários momentos. Mesmo antes de sair, no caso de Portugal, depois em Bruxelas, na sede dos Médicos Sem Fronteiras, também uma conversa com várias pessoas com muita experiência no Afeganistão. Chegado ao Afeganistão, em Cabul, tive também várias conversas já com afegãos, que nos explicam as regras culturais, comportamentais, o que é que podemos fazer, o que não podemos, quer do ponto de vista do nosso dia-a-dia, quer do ponto de vista do nosso trabalho. Há toda uma preparação prévia que nos obriga a compreender. E quando digo obriga, é mesmo esta a palavra. Nós não vamos lá para discutir regras culturais, para ocidentalizá-los ou modificá-los. Vamos fazer o nosso trabalho, tratar das pessoas, salvar vidas, de acordo com o que são as regras civilizacionais do povo onde estamos inseridos.

 Mas essas regras às vezes confrontam com a própria Medicina?

 Completamente. Há aqui questões que ultrapassam os Direitos Humanos que são, julgo eu, das coisas menos refutáveis, menos negociáveis da nossa sociedade. Mas assim o é. Há um sofrimento ético e emocional muito grande. A experiência ajuda-nos muito. Se ocupamos demasiado espaço da nossa cabeça com a revolta que nos causa a diferença, estás no sítio errado. Mais: se isso transparecer, há questões de segurança muito complicadas de gerir. Nós só somos aceites para trabalhar nestas circunstâncias extremamente complexas e perigosas a vários níveis, se formos aceites pela população e pelos líderes. É muito importante saber sofrer as pressões culturais, respeitando-as e tentar transformá-los de uma forma activa.

Que tipo de situação encontraste?

Trabalhei num hospital bastante generalista, mais importante da capital, um hospital público que tinha uma parceria com os Médicos Sem Fronteiras. Tínhamos de tudo um pouco. Estamos a falar de um país, muito, muito pobre, com carências a nível médico basicamente de tudo. Concentramo-nos muito no que é mais importante, no que salva vidas. No meu caso, nas situações mais ligadas ao bloco operatório, às intervenções cirúrgicas de emergência, seja de crianças, sejam de traumas, seja da patologia obstétrica, que muitas vezes também carece do nosso trabalho no bloco operatório. Estamos a falar de um hospital que não tinha rigorosamente nada se não fosse o apoio dos MSF. Temos a sensação que se não fosse a nossa presença aquilo não seria um hospital mas um conjunto de paredes onde as pessoas lá iam morrer.

Achas que algo mudou nestes vinte anos na sociedade afegã?   

Acho que mudou para melhor, parece-me é uma mudança artificial. Estes últimos acontecimentos levam-me a concluir isso. Vinte anos é muito tempo. Permite que várias pessoas, nomeadamente mulheres, tenham tido acesso à escola, tenham frequentado a faculdade, tenham ingressado em cargos públicos. Vinte anos permite já, principalmente nas grandes cidades, um progresso muito considerável. Acreditar que este progresso imposto por uma força externa vai perdurar, acho que é muito difícil. É difícil contrariar o factor unificador deste país: a religião.

Esta transição constitui alguma surpresa?

Facto incontestável: não nas grandes cidades, mas pelo menos 50 por cento do território é controlado pelos talibã. Sem em vinte anos, com o maior exército do mundo, apoiado por outros países igualmente potentes do ponto de vista bélico, não consegues reduzir a oposição... O anterior governo afegão, reconhecido pelos americanos, era considerado pelos talibã como um fantoche. O único ponto positivo que me é dado a ver desta ocupação rápida dos talibã, é, à primeira vista, não ter conduzido a uma guerra civil. Não é que seja um analista experimentado, mas acho que uma guerra só se ganha no coração das pessoas. E o que está provado é que os talibã tinham o coração das pessoas. Infelizmente, parece que a grande maioria da população se identifica mais com os talibã do que com a alternativa. 

As pessoas mais qualificados vão fugir em massa?

As pessoas mais cultas, mais formadas, mais instruídas, mais bem preparadas, o património crítico do país, vai para o exílio. Só lá ficam os mais simples, os mais básicos, os mais manietáveis, os mais radicalizáveis, os mais polarizados. Acho que o futuro é muito triste. Penso que não haverá nenhuma força que se arrisque a entrar lá nos próximos tempos. A única via é a diplomacia. 

Com é que se faz diplomacia com os talibãs?

Ninguém sabe.

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