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Abusos sexuais na Igreja. Quando os "médicos da alma" se convertem em "assassinos da fé"
Mundo 5 min. 22.02.2019 Do nosso arquivo online

Abusos sexuais na Igreja. Quando os "médicos da alma" se convertem em "assassinos da fé"

Abusos sexuais na Igreja. Quando os "médicos da alma" se convertem em "assassinos da fé"

Mundo 5 min. 22.02.2019 Do nosso arquivo online

Abusos sexuais na Igreja. Quando os "médicos da alma" se convertem em "assassinos da fé"

A reunião de líderes católicos arrancou com os testemunhos de cinco vítimas. Apenas uma revelou a sua identidade, mas nenhuma escondeu o trauma que sofreu nem a dor que lhes causou a indiferença da Igreja perante a denúncia destes abusos.

Pela primeira vez, os líderes católicos de todo o mundo reuniram-se no Vaticano para discutir a responsabilidade da Igreja nos abusos sexuais de menores, um tema que abalou a Igreja em 2018. A cimeira inédita arrancou esta quinta-feira com um apelo do papa para que sejam tomadas “medidas concretas e efetivas” para erradicar os abusos sexuais por parte do clero. Nesse mesmo dia, foram ouvidos os testemunhos de cinco vítimas de quatro continentes - Europa, África, Ásia e América - por 190 bispos e superiores religiosos. Todos os testemunhos foram gravados, mas das cinco pessoas, apenas uma revelou a sua identidade, tratando-se do chileno Juan Carlos Cruz, segundo o Washington Post. As restantes não quiseram ser identificadas, mas quiseram ser ouvidas. 

A cimeira de líderes católicos decorre até este domingo, no Vaticano
A cimeira de líderes católicos decorre até este domingo, no Vaticano
Foto: AFP

Para Juan Carlos Cruz, os "médicos da alma" transformaram-se nos "assassinos da fé"

“A primeira coisa que pensei foi: vou contar tudo à Santa Mãe Igreja, onde eles me vão ouvir e respeitar. Mas a primeira coisa que fizeram foi tratar-me como um mentiroso, viraram-me as costas e disseram-me que eu e outros éramos inimigos da Igreja”, disse Juan Carlos Cruz, umas das alegadas vítima de abuso sexual pelo padre Fernando Karadima, de acordo com o Observador. “Tem de se acreditar nas vítimas, elas têm de ser respeitadas, cuidadas e curadas. Têm de reparar o que lhes foi feito, de estar perto delas, acreditar nelas e acompanhá-las. Vocês são os médicos da alma e, ainda assim, em alguns casos, transformaram-se em assassinos da alma e da fé”, acusou Juan. "Pergunto-me: o que ia achar Jesus? O que iria achar Maria quando visse que são os seus próprios pastores que traem as suas pequenas ovelhas? Peço-lhes, por favor colaborem com a justiça”.


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 "Engravidei três vezes e ele obrigou-me a abortar três vezes" 

A segunda vítima ouvida foi uma mulher africana. A mulher tinha 15 anos quando teve sexo pela primeira vez com um padre. Por ser tão nova e crente, segundo as suas palavras, não percebeu que estava a ser vítima de abuso sexual, de uma relação que viria a durar 13 anos. “Engravidei três vezes e ele obrigou-me a abortar três vezes, simplesmente porque não queria usar preservativos ou contracetivos”, recordou a vítima. “De início, confiei tanto nele que não sabia que ele podia abusar de mim. Tinha medo dele, e de cada vez que recusava ter sexo, ele batia-me. Como dependia completamente dele em termos económicos, sofria as humilhações que ele me fazia passar. Tínhamos relações tanto na sua casa, na aldeia, como no centro diocesano. Eu não tinha direito a ter namorados. Sempre que tinha um namorado e ele descobria, batia-me. Era a condição para me ajudar economicamente. Dava-me tudo o que eu queria quando eu aceitava ter sexo”. No final, a vítima disse que a sua vida estava destruída.

Membros da organização Ending Clergy Abuse ("Acabar com os abusos do Clero", em português), do qual fazem parte vítimas e ativistas, manifestam-se em Roma, Itália
Membros da organização Ending Clergy Abuse ("Acabar com os abusos do Clero", em português), do qual fazem parte vítimas e ativistas, manifestam-se em Roma, Itália
Foto: AFP

Um padre também pode ser vítima de abusos por um membro da Igreja

A terceira vítima ouvida, um padre da Europa do Leste, contou que estava a iniciar o seu percurso para ser padre quando foi abusado por um superior. Na sua adolescência, depois da conversão, foi ter com um padre para que este lhe ajudasse a ler as escrituras. Nesse encontro, o padre começou a tocar-lhe nas partes íntimas. "Passei uma noite na cama com ele. Isto magoou-me profundamente”, conta o homem que comemora este ano o 25º ano da sua ordenação sacerdotal. “A outra coisa que me magoou foi o bispo a quem muitos anos mais tarde, enquanto adulto, contei o que tinha acontecido. Fui ter com ele juntamente com o meu provincial. Passaram oito anos e ele ainda não me respondeu". Segundo a vítima, no encontro com o bispo foi apenas insultado pelo mesmo.


Igreja Católica de Illinois escondeu nomes de 500 padres acusados de abusos
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Quando a dor afeta não só a vítima mas toda a família

“Ainda há dor nas relações da minha família. Ainda há dor nos meus irmãos. Eu ainda carrego dor. Os meus pais carregam a dor da disfunção, da traição, da manipulação que este homem mau, que era o nosso padre católico da altura, trouxe sobre a minha família e sobre mim próprio”, contou a quarta vítima ouvida pelos líderes católicos. O homem americano falou da sua “total perda da inocência da juventude”, mas admitiu sentir-se melhor por poder ser ouvido. “Estou melhor agora porque encontrei a esperança ao contar a minha história”, disse. 

Depois de se ser abusado "mais de cem vezes", como é que se volta a estar com alguém?

A última vítima ouvida foi um homem asiático, que não quis dar pormenores sobre a sua experiência de abuso sexual. “Fui molestado sexualmente durante muito tempo, mais de cem vezes, e em toda a minha vida. É difícil viver a vida, é difícil estar com pessoas, ligar-me a elas”, confessou a vítima, acrescentando que o problema dos abusos sexuais é “uma das bombas-relógio a acontecer na Igreja na Ásia”.


Cimeira sobre abusos no Vaticano será "ponto de viragem" para a Igreja
A cimeira será precedida de uma reunião que a comissão organizadora irá manter com um grupo de uma dúzia de vítimas, entre os quais o espanhol Miguel Hurtado, que acusou o monge de Montserrat Andreu Soler.

Nos próximos dias, o papa Francisco vai tentar convencer os presidentes das Conferências Episcopais da Igreja Católica no mundo da sua responsabilidade individual face às agressões sexuais a menores. Ouvir as vítimas, aumentar a consciência, aumentar o conhecimento, desenvolver novos procedimentos e partilhar boas práticas são alguns dos objetivos do encontro que decorre até domingo, no Vaticano.



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