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A queda da princesa de Angola
Mundo 7 min. 29.01.2020

A queda da princesa de Angola

A queda da princesa de Angola

Foto: AFP
Mundo 7 min. 29.01.2020

A queda da princesa de Angola

Telma MIGUEL
Telma MIGUEL
Numa semana, Isabel dos Santos, a mulher mais rica de África, passou de princesa a arguida, e a elite mundial dos negócios está a virar-lhe as costas. No meio do escândalo internacional há negócios feitos em Portugal que estão a ser vistos com outros olhos. A filha de Eduardo dos Santos diz-se vítima de perseguição política.

Na grande investigação jornalística publicada no passado dia 19, conhecida como Luanda Leaks, Isabel dos Santos, de 46 anos, filha de José Eduardo dos Santos – o presidente de Angola entre 1979 e 2017 – é acusada de, juntamente com o marido, o congolês colecionador de arte Sindika Dokolo, se ter aproveitado da sua situação familiar para conseguir contratos vantajosos em empresas públicas, que a levaram a reunir em poucos anos uma fortuna de mais de 2 mil milhões de dólares, fazendo uso de esquemas ilícitos e desvio de capitais. A Forbes considerou-a a mulher mais rica de África.

Um dos casos relatados tem a ver com a compra da empresa joalheira suíça De Grisogono, através da diamantífera angolana Sodiam, com empréstimo de mais de 100 milhões de euros contraído ao BIC, do qual Isabel dos Santos detinha quase metade do capital. Outro dos casos foi o da fuga de capitais da companhia petrolífera angolana Sonangol. Isabel tinha tomado o controlo da petrolífera angolana em 2016. Em setembro de 2017, José Eduardo dos Santos, após 38 anos no poder, renuncia à presidência e entrega-a João Lourenço. 


A woman walks past a store of Swiss celebrity jeweller De Grisogono with its windows empty in Geneva on January 29, 2020. - A Swiss celebrity jeweller linked to the family of Angolan ex-president Jose Eduardo dos Santos has filed for bankruptcy amid a corruption scandal involving his daughter Isabel, Bloomberg reported on Wednesday. Geneva-based De Grisogono, which has a host of international celebrity fans including Salma Hayek and Naomi Campbell, said in a statement it had not managed to secure a buyer despite months of talks, Bloomberg reported. (Photo by FABRICE COFFRINI / AFP)
Luanda Leaks. Joalheira De Grisogono anunciou que entrou em falência
A decisão será anunciada hoje aos 65 trabalhadores na fábrica de Plan-les-Ouates, na Suíça.

Mas o novo chefe de Estado anuncia a decisão de acabar com a corrupção no país. Dois meses depois, Isabel seria exonerada da administração da Sonangol. Segundo os documentos agora vindos a público, ao longo das 24 horas seguintes, Isabel dos Santos terá retirado da conta da petrolífera angolana no EuroBic Lisboa 104 milhões de euros que voaram para uma empresa offshore no Dubai, de que Paula Oliveira, amiga da empresária angolana, é a única titular.

A conta da Sonangol ficou com saldo negativo. Os documentos do processo Luanda Leaks dão conta de vários outros negócios lesivos do erário público angolano, em vários setores – da banca, aos petróleos e à telecomunicações – ocorridos nas últimas duas décadas nas cerca de 400 empresas a que Isabel dos Santos esteve ligada, incluindo 155 sociedades portuguesas e 99 angolanas.


Editorial. Portugal com "um império às costas"
O caso da agressão a Cláudia Simões e o crescimento do império de Isabel dos Santos podem ser vistos como os dois lados de uma mesma moeda cunhado pelo antigo Império português.

 O hacker Rui Pinto tramou Isabel dos Santos

A investigação liderada pelo Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ) – o mesmo que expôs o escândalo de empresas offshore conhecido como Panama Papers – e que integra os portugueses Expresso e SIC, fez uso de mais de 715 mil documentos referentes a transações entre 1980 e 2018. Logo no dia em que a história foi publicada, Isabel dos Santos proclamou que estava a ser vítima de uma caça às bruxas, coordenada pelo atual presidente de Angola, que apenas queria livrar-se de uma possível adversária política. Isabel dos Santos escreveu no seu Twitter que a investigação baseava-se em documentos falsos ou inexistentes.

Esta semana foi revelado que Rui Pinto – o hacker português detido preventivamente no processo do Football Leaks – foi quem forneceu os documentos sobre o império empresarial de Isabel dos Santos. Rui Pinto entregou há mais de um ano um disco rígido à PPLAAF, uma plataforma de proteção de denunciantes de casos de corrupção em África, com material confidencial. Por sua vez, a PPLAAF encaminhou os documentos para o ICIJ. A equipa de defesa do whistlebower português – que está de momento em julgamento – é constituída por Francisco Teixeira da Mota e pelo francês William Bourdon. Bourdon é um conhecido especialista em direitos humanos – foi também contratado por Edward Snowden- e é presidente da PPLAAF. As pontas ligam-se.


(FILES) In this file photo taken on March 5, 2015 Angolan businesswoman Isabel dos Santos arrives to the opening of an art exhibition in Porto, northern Portugal. - An award-winning investigative team published a trove of files on January 19, 2020 allegedly showing how Africa's richest woman syphoned hundreds of millions of dollars of public money into offshore accounts. Its latest series called "Luanda Leaks" zeros in on Isabel dos Santos, the daughter of former Angola president Jose Eduardo dos Santos. (Photo by FERNANDO VELUDO / PUBLICO / AFP)
A fortuna de Isabel dos Santos também se construiu no Luxemburgo
Empresária usou fundos estatais angolanos, um dos países mais pobres do mundo, para adquirir participações na marca de jóias suíça De Grisogono – em parte através de uma empresa de fachada no Luxemburgo. Só nesta jogada, Angola perdeu 120 milhões de dólares (108,2 milhões de euros).

Como Isabel está a defender-se?

Num momento em que todas as suas ligações estão a ser cortadas e passou a ser persona non grata – foi inclusive desconvidada da cimeira da elite mundial, em Davos – Isabel estará com residência oficial no Dubai e reclama a sua inocência. Anunciou que vai processar os jornalistas do ICIJ pelo que considera serem "ações irresponsáveis que desencadearam uma tragédia humana e negligenciaram o respeito pelo direito à privacidade". Isabel diz que está a enfrentar "acusações completamente falsas" e perseguida pela nova classe dirigente de Angola. Sustenta estar a ser vítima de racismo por parte das elites financeiras europeias, que estão a cortar laços.

A PricewaterhouseCoopers (PwC), que seria consultora financeira da Unitel, a holding para a área das telecomunicações, já se manifestou escandalizada e anunciou uma investigação interna e rotura com a família dos Santos. O elevado grau de toxicidade pública da outrora princesa de Angola está a provocar diversos afastamentos.


Opinião. Dona Disto Tudo
Notícia de última hora: a família dos Santos construiu um regime corrupto em Angola que lhes permitiu apoderarem-se do petróleo do país e tornarem-se das pessoas mais fabulosamente ricas no planeta.

O processo e uma morte

A 30 de dezembro de 2019, Isabel dos Santos e Sindika Dokolo já tinham visto as suas contas bancárias arrestadas por decisão do Tribunal Provincial de Luanda, por alegadamente terem provocado um prejuízo de mais de mais de mil milhões de dólares ao Estado angolano. Após as revelações do Luanda Leaks, na passada quarta-feira a Procuradoria-Geral da República angolana anunciou que Isabel dos Santos foi constituída arguida por má gestão e desvio de fundos da Sonangol, por branqueamento de capitais, abuso de poder e tráfico de influências.

O processo visa também os portugueses Sarju Raikundalia, Mário Leite da Silva e Paula Oliveira, a única acionista da empresa no Dubai para onde foram parar os milhões da Sonangol. Mas, segundo o PGR angolano, são visados como testas de ferro e poderão ser notificados para comparecerem no tribunal angolano. Mais difícil poderá ser sentar a filha de Eduardo dos Santos no banco dos réus, uma vez que tem também nacionalidade russa. Na quinta-feira, Hélder Pitta Grós, procurador-geral de Angola reuniu-se em Lisboa com as autoridades portuguesas para pedir ajuda no processo de notificação dos arguidos portugueses. Nesse mesmo dia, Isabel dos Santos também esteve em Lisboa para assinar procurações de venda das suas ações no EuroBic, tendo regressado a Londres, onde reside há anos.

Nesta fase do processo, a empresária dispõe de liberdade de circulação. No próprio dia em que o processo foi anunciado, Nuno Ribeiro da Cunha (também visado), diretor do private banking do Eurobic e gestor da conta da Sonangol, foi encontrado morto em casa, naquilo que a Polícia Judiciária aponta para ter sido suicídio.

Ana Gomes acusa Portugal de cumplicidade com a roubalheira em Angola

Com as histórias bombásticas sobre como se fez o seu império multimilionário, Isabel dos Santos anunciou que vai alienar os negócios que detém em Portugal, embora garanta que nenhuma dessas transações tenha sido feita com “fundos de origem ilícita”. No centro do escândalo, o EuroBic vai deixar de a ter como acionista, e Isabel vai também largar a sua participação na Efacec. Mas o rasto de polémica e escândalo não estará para acabar tão cedo. A ex-eurodeputada Ana Gomes acusou este domingo o Banco de Portugal, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários (CMVM) e a Procuradoria-Geral da República de serem “coniventes” com os esquemas alegadamente fraudulentos da empresária angolana Isabel dos Santos, acusando as autoridades e muitos empresários portugueses de serem cúmplices com “a organizada cleptocracia que espolia o povo angolano”. Para a ex-eurodeputada socialista, o governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, e o antigo ministro das Finanças Teixeira dos Santos, atualmente no EuroBic, já deviam ter-se demitido: “Estão à espera de quê?”.


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Em comunicado divulgado, nesta noite de terça-feira, a empresária angolana afirma “que nunca foi notificada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) ou citada pelo Tribunal Provincial de Luanda”, desconhecendo o teor da acusação e que “não teve oportunidade de apresentar defesa”.