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A política da morte
Editorial Mundo 2 min. 12.11.2019

A política da morte

A política da morte

Cartoon: Florin Balaban
Editorial Mundo 2 min. 12.11.2019

A política da morte

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Estamos a voltar para tempos que já pensávamos estarem perdidos na escuridão da história, em que a morte substitui os votos.

Tinha uma idade indeterminada, a cara estava escurecida pelo Sol. Encontrei-o às seis da manhã a cruzar San Vicente del Caguan. Perguntei aos guerrilheiros das FARC quem era o homem que marchava sozinho de megafone. “É a voz sonhada”, disse-me uma jovem guerrilheira. Todos os dias a voz percorria o povoado de alguns milhares de almas transmitindo as notícias do dia. Eu e o repórter de imagem da SIC tínhamos feito quilómetros na selva com os combatentes das FARC, para uma reportagem. A pouca distância dali, as pessoas matavam–se numa guerra de pobres e de ricos, em que só morriam pobres, começada há várias gerações: “a violência”, como lhe chamavam. Existências de mortos vivos com uma arma na mão. Nestas estradas de lama, um homem teimava em transmitir um pensamento pela palavra, convencido de que ela poderia abafar todo o ruído da metralha. 

 A violência na América Latina tem demasiado tempo. Quando lemos a descrição, nos “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez do massacre dos trabalhadores bananeiros ordenado pela United Fruit, sabemos que essas linhas fantásticas os resgatam os mortos do esquecimento e nos permitem escutar a respiração daqueles que tombaram 

Não faltam anjos caídos por estas paragens. O escritor mexicano Paco Ignacio Taibo II convocou assim, num caderno, as centenas de estudantes massacrados na Praça das Três Culturas, na Cidade do México, em 1968: “Como se cozinhou a magia? Com o que se alimentava a fogueira? De onde saíram os 300 mil estudantes que chegaram a Zócalo no dia da manifestação do silêncio? […] qual foi o destino de Lurdes? Quem estava por detrás da porta de prepa no dia do tiroteio? Como fabrica uma geração os seus mitos? Qual era o menu diário da cantina de Ciência Política? […] Porque caiu Romeu por causa de uma minissaia? Onde deixaram os nossos mortos? Onde deixaram os nossos mortos? Em que sítio de merda deixaram os nossos mortos”. 

O sociólogo colombiano Orlando Fals Borda tem um livro célebre, naquelas latitudes, em que se fala da violência como categoria disruptiva que transforma a certa altura todo o ambiente social e quebra todas as outras formas de expressão e todas as mediações existentes. Quando se permite que a América Latina volte a ser o pátio das traseiras dos EUA, e que os golpes de Estados se sucedam para servirem a conveniência dos negócios, abre-se uma caixa de pandora difícil de fechar: a violência e repressão só conseguem produzir mais violência, mais repressão e mortos. Estamos a voltar para tempos que já pensávamos estarem perdidos na escuridão da história, em que a morte substitui os votos. 

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