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A oportunidade perdida
Editorial Mundo 3 min. 13.07.2019

A oportunidade perdida

A oportunidade perdida

Foto: AFP
Editorial Mundo 3 min. 13.07.2019

A oportunidade perdida

Sérgio Ferreira Borges
Sérgio Ferreira Borges
Só os poderes da Comissão Europeia foram reforçados, apesar de se tratar de uma instituição em claro défice de democracia e cada vez mais burocratizada. Como é incapaz de desenvolver políticas que resolvam os grandes problemas, limita-se a fazer regulamentos que obrigam estados soberanos e, sobretudo, cidadãos.

A escolha dos novos titulares dos cargos de topo da União Europeia foi um espetáculo deprimente que, mais uma vez, colocou em causa a democracia das instituições. Não passou de um jogo de cadeiras movido por interesses egoístas.

As tímidas reformas operadas nos últimos anos não resolveram um único problema, dos muitos que afectam a União. O Parlamento passou a ter alguns poderes, porque era impossível manter uma estrutura daquela dimensão sem responsabilidades, nem competências. Criou-se um lugar de Presidente do Conselho Europeu que ninguém percebe para que serve. É tão inútil como o alto responsável da Política Externa que mais não faz que aparecer na fotografia de família das grandes cimeiras internacionais.

Só os poderes da Comissão Europeia foram reforçados, apesar de se tratar de uma instituição em claro défice de democracia e cada vez mais burocratizada. Como é incapaz de desenvolver políticas que resolvam os grandes problemas, limita-se a fazer regulamentos que obrigam estados soberanos e, sobretudo, cidadãos.

Este diagnóstico foi feito há exactamente 30 anos por políticos como François Mitterrand, Felipe González, Helmut Kohl e Jacques Delors. Todos eles sabiam que a União Europeia queria crescer, mas tinham a consciência que, antes de qualquer alargamento, era necessário reformar profundamente as instituições e o seu funcionamento.

Helmut Kohl prontificou-se então a elaborar uma proposta de reforma que depois seria discutida e melhorada no Conselho Europeu. A sua boa vontade foi prontamente aceite, mas os tempos foram passando, sem que o chanceler alemão cumprisse aquilo que tinha prometido.

O mais impaciente era François Mitterrand que um dia lhe telefonou a perguntar pela tal proposta de reforma. Kohl disse-lhe que podiam conversar sobre o assunto mas teria de ser pessoalmente. Sugeriu que Mitterrand o convidasse para jantar no Eliseu, nessa mesma noite. Mais, queria que o então presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, também estivesse presente.

Mitterrand aceitou a ideia e Kohl telefonou de imediato a Delors, convocando-o para o jantar. Desconheço o que comeram, mas sei do que falaram.

Kohl disse que continuava interessado em concretizar a tal proposta de reforma e explicou porque ainda não tinha avançado. Segundo ele, a então primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher vetaria essa proposta, porque da União Europeia, ela só queria o mercado único.

Mitterrand concordou com as reservas de Kohl, mas disse que a Europa não podia ficar refém dos estados de alma de Margaret Thatcher. Até este momento, Jacquer Delors tinha sido apenas um espectador silencioso.

Kohl disse então o que para os outros era uma novidade. Thatcher estava debaixo de fogo intenso dentro do Partido Conservador e a rebelião liderada por Michael Heseltine estava a ganhar força suficiente para a derrubar. A queda podia estar eminente. O chanceler assegurou que as suas fontes de informação eram credíveis.

Jacques Delors tentou então convencer Mitterand que valia a pena esperar, para depois discutir a reforma das instituições, sem Margaret Thatcher. O presidente francês aceitou e, desde então, passou a telefonar diariamente para jornalistas ingleses da sua confiança, para conhecer a situação interna do Partido Conservador.

Tudo parecia correr bem, mas para apressar a sua saída, Thatcher impôs uma condição. Michael Heseltine teria de ser afastado da corrida à sucessão. Queria no seu lugar um dos seus dilectos, John Major. A condição foi aceite e, no Partido Conservador e no Governo ficou quase tudo na mesma.

Kohl, entretanto, entrou em queda, na Alemanha. Os liberais de Hans-Dietrich Genscher começaram a espalhar-lhe cascas de banana no caminho e a coligação governamental também caiu. Genscher não era tão seu amigo, como Kohl pensava.

Mitterrand adoeceu gravemente e os seus últimos anos de mandato foram penosos. Em Espanha, Felipe González estava a braços com um escândalo de corrupção que atingia o seu número dois, Alfonso Guerra.

Com tudo isto, falhou a grande oportunidade de reformar a União Europeia. Uma oportunidade perdida, com péssimas consequências, como ainda hoje se vê.

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