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A morte de Sarah Everard gerou uma onda de revolta no Reino Unido
Mundo 5 7 min. 18.03.2021

A morte de Sarah Everard gerou uma onda de revolta no Reino Unido

A morte de Sarah Everard gerou uma onda de revolta no Reino Unido

Foto: Kirsty O'connor/PA Wire/dpa
Mundo 5 7 min. 18.03.2021

A morte de Sarah Everard gerou uma onda de revolta no Reino Unido

Regina NOGUEIRA FERNANDES
Regina NOGUEIRA FERNANDES
Esta semana, depois de vários dias de protestos e revolta nacional, o primeiro-ministro britânico anunciou um pacote de medidas imediatas destinadas a "eliminar a violência contra mulheres" e a garantir que a justiça funciona "para melhor as proteger e defender".

Foi o namorado de Sarah quem deu o alerta para o seu desaparecimento na noite de 3 de março. Sarah telefonou-lhe quando voltava para casa a pé, depois de uma visita a casa de um amigo, que vivia a cinquenta minutos de distância.

Uma semana depois, as autoridades descobriram o corpo de Sarah numa mata em Kent. Duas pessoas foram detidas: um polícia de 48 anos, Wayne Couzens, por suspeita de rapto, e uma mulher na casa dos 30 anos, por auxílio ao crime.

Nos dias imediatamente após Sarah ter desaparecido foi anunciada uma vigília em Clapham Common, o parque onde se acredita que Sarah terá sido raptada. Muitas outras se seguiram, um pouco por todo o país, ecoando o sentimento de revolta que inundou também os meios de comunicação social. O grupo Reclaim These Streets, responsável pela organização do evento em Clapham diz que as vigílias são uma forma de "recuperar os espaços públicos e de nos unirmos em solidariedade".

Couzens, que trabalhava para a Metropolitan Police há cerca de dois anos e estava pela primeira vez destacado no sul de Londres, numa unidade responsável pela segurança do Parlamento britânico e das representações diplomáticas, não estava de serviço à data do desaparecimento.

Wayne Couzens compareceu esta terça-feira em tribunal pela segunda vez. Está em prisão preventiva a aguardar o julgamento marcado para outubro. A Metropolitan Police disse estar também a investigar Couzens por uma alegada exposição indecente num restaurante de fast-food, dias antes de Sarah Everard ter desaparecido.

Cressida Dick, figura principal da polícia de Londres, disse estar "horrorizada" com os acontecimentos: "o nosso trabalho é patrulhar as ruas e proteger as pessoas". A comissária disse ainda entender que as britânicas se sintam assustadas, mas aproveitou para relembrar que o rapto de uma mulher nas ruas da capital é um "acontecimento raro".

No Reino Unido, apesar de casos de rapto serem relativamente raros, os números corroboram indicam que o assédio e abuso sexual não são. Mais de 70% das mulheres inquiridas pela UN Women UK disseram ter sido vítimas de assédio sexual em espaços públicos. O número sobe para 97% entre as mulheres com idades compreendidas entre os 18 e os 24 anos.

Vigília marcada por confrontos com a polícia

"Ela estava só a voltar para casa" e "Mortas pelo sistema que dizem proteger-nos" podia ler-se nos cartazes que enchiam o parque de Clapham no sábado passado. No memorial improvisado, houve quem deixasse flores e acendesse velas, enquanto se gritava: "Quantas mais?" e "não seremos derrotadas".

Rahila Gupta, escritora e membro da organização feminista SouthHall Black Sisters, sentiu necessidade de ir à vigília por mágoa e solidariedade: "Também eu já fui assediada na rua. Também eu já tive medo a voltar para casa à noite", disse ao Contacto.

Apesar de o evento ter sido considerado ilegal, devido às restrições da covid-19, e da polícia ter pedido as vigílias fossem realizadas em reflexão, em casa, foram várias as centenas de pessoas que se juntaram em Clapham para prestar homenagem a Sarah Everard.

O evento começou com pequenos grupos reunidos, em silêncio, à volta do memorial, mas acabou num confronto tenso com a polícia. Quatro mulheres foram presas. "A polícia estava a maltratar estas mulheres quando era precisamente contra isso que elas estavam a protestar", conta Rahila. "Vi-os a empurrar para fora de um coreto as mulheres que lideravam as palavras de ordem". "Se estavam tão preocupados com o distanciamento social, não deviam estar a puxar pessoas para o meio da multidão", acrescenta.

A Polícia Metropolitana defendeu as ações da noite de sábado, mas enfrentou críticas intensas de todo o espectro político. A secretária do Interior, Priti Patel, descreveu as imagens como "perturbadoras" e pediu esclarecimentos à Scotland Yard. Sadiq Khan, presidente da câmara de Londres, apelidou as cenas de "inaceitáveis" dizendo que, apesar de a polícia ter a responsabilidade de fazer cumprir as leis de Covid, a resposta não foi "apropriada nem proporcional".


Quando chegares a casa, manda mensagem
Quando regressam a casa sozinhas à noite, muitas mulheres sabem que é normal enviarem uma mensagem a avisar que chegaram. Mas há quem queira impedir as mulheres de viver no espaço público, perpetuando a cultura do medo. A crónica semanal de Raquel Ribeiro.

"As ruas não nos pertencem"

Nas redes sociais, milhares de pessoas partilharam as suas próprias experiências de assédio em solidariedade com Sarah Everard e todas as mulheres vítimas de violência, contando histórias da insegurança que as enfrentam diariamente, em casa e no espaço público.

"A sensação de déjà-vu é cansativa e frustrante. As ruas não nos pertencem: somos cidadãs de segunda classe", diz Rahila Gupta. A escritora considera que este caso foi particularmente chocante por Sarah se tratar de uma mulher que seguia todos os padrões patriarcais de como as mulheres se devem proteger: "vestida da forma apropriada, a fazer as chamadas telefónicas que devia, etc.", e que nem isso a impediu de ser atacada pela força que a deveria proteger.

A morte Sarah voltou a chamar a atenção para estas cedências que as mulheres são obrigadas a fazer em nome da segurança. A ideia de que, para se manterem a salvo violência masculina, devem fazer as escolhas "certas" - no vestuário, nos caminhos, nas horas de voltar - e que, não o fazendo, serão culpabilizadas pelo que de mal lhes acontecer.

"Aceitamos como normal que as mulheres tenham de seguir esses padrões", disse no Twitter Anna Birley, investigadora e membro do partido trabalhista, envolvida com o grupo Reclaim These Streets: "Todas as mulheres se podem rever nesta situação".

De acordo com uma nova análise da Organização Mundial de Saúde (OMS), publicada em março deste ano, uma em cada três mulheres a nível mundial foram sujeitas a violência física ou sexual nas suas vidas. Uma em cada quatro mulheres entre os 15 e 24 anos já terá sofrido violência por parte de um parceiro.

Boris Johnson promete "medidas imediatas"

Esta terça-feira, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson disse estar a preparar uma série de "medidas imediatas" para melhorar a segurança das mulheres no Reino Unido, após uma reunião da Comissão do Governo para o Crime e para a Justiça. A reunião ocorreu em Westminster, depois de mais um dia de protestos contra a atuação da polícia e a violência sobre as mulheres, o terceiro desde sábado.

Entre outras medidas, Downing Street prometeu duplicar os fundos do projeto Safer Streets - responsável pela segurança dos locais públicos através de videovigilância e melhor iluminação – e enviar polícia disfarçada para discotecas, bares e outros locais noturnos.

Para ativistas e grupos feminista, as medidas apresentadas são suficientes, dizendo que dinheiro apenas não chega para acabar com a violência sobre as mulheres e apelando a mudanças institucionais significativas. A deputada trabalhista Jess Phillips criticou o Governo por responder ao problema com "polícia em calças de ganga".

Ao mesmo tempo que decorria a manifestação nos jardins em frente do Parlamento, era aprovado um projeto-lei que facilitará a proibição de protestos que com potencial para causar perturbações. David Lamy, deputado e secretário de Estado para a Justiça, disse num discurso que "dando à polícia poderes anti protesto em algumas ocasiões, o Governo está a privar-nos da nossa liberdade o tempo todo".

O grupo Reclaim These Streets reuniu no mesmo dia com Cressida Dick, mas diz ter "perdido a confiança" na comissária. "Pressionámos para que nos fosse dada uma ideia clara sobre o modelo aceitável para a realização de uma vigília ao abrigo da legislação, e não obtivemos qualquer resposta".

Com a Grã-Bretanha a caminhar gradualmente para o fim do confinamento, a luta pela realização da vigília voltou a trazer para a mesa a questão do equilíbrio entre as medidas de segurança da pandemia e o direito à liberdade de reunião, à semelhança do que aconteceu nas manifestações contra a brutalidade policial do ano passado.

Para já, os protestos poderão ser legalmente retomados a 29 de março, data em que acaba o dever de recolhimento, desde que respeitem as medidas de distanciamento social impostas pela covid-19.

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