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A marcha de um milhão de milícias ameaça a posse de Joe Biden
Mundo 6 min. 13.01.2021

A marcha de um milhão de milícias ameaça a posse de Joe Biden

A marcha de um milhão de milícias ameaça a posse de Joe Biden

Foto: AFP
Mundo 6 min. 13.01.2021

A marcha de um milhão de milícias ameaça a posse de Joe Biden

Nuno RAMOS DE ALMEIDA
Nuno RAMOS DE ALMEIDA
O FBI detetou planos para invadir e "atacar todos os 50 capitólios estatais e o Congresso entre 15 e 20 de janeiro". Está prevista uma "marcha de um milhão de milícias" para impedir a posse do novo Presidente Joe Biden.

Estamos numa época estranha, parecemos estar dentro de uma série da Netflix. Um cartoon que circulou nas redes sociais, mostrava um casal de extraterrestres, verdes, olhos grandes e com as costumeiras antenas espetadas, num sofá à frente da televisão a comentar: "Esta temporada da série sobre a 'Vida na Terra', está completamente louca".

Mas um golpe de Estado nos EUA , mesmo para estes anos incomuns é uma coisa nunca vista. Desde o início do século XX ocorreram cerca de 200 golpes de Estado promovidos pelos EUA na América Latina, de tal maneira que circulava a anedota que a razão que não havia esse tipo de acontecimentos em Washington era porque não havia embaixada dos EUA nos próprios EUA. Uma salutar prática para os nativos que parece ter acabado. Mais uma vez, o humor nas redes sociais, dá uma explicação que a razão desconhece: com as restrições de viagem devido à pandemia, os norte-americanos passaram a fazer golpes em casa.

Tanto que é assim que nem sequer existe uma palavra em inglês para descrever um golpe de Estado. Em francês, diz-se coup d’État. Em espanhol e em português, golpe de Estado. Em alemão, Staatsstreich. Os americanos foram buscar o termo ao francês. Nos últimos meses, a possibilidade de golpe foi aventada inúmeras vezes, geralmente numa pronúncia precária e acompanhada de uma dose de ceticismo. É como se boa parte dos políticos, colunistas e académicos americanos acreditasse que golpes ocorrem da porta para fora, em território estrangeiro, e tentasse ver os movimentos de Trump nos últimos meses como qualquer outra coisa

Mas, segundo um relatório interno do FBI que a estação de televisão ABC teve acesso há "informações que grupos armados planeiam viajar para Washington a 16 de janeiro", a polícia norte-americana alerta para uma escalada de distúrbios armados, caso o Congresso tente afastar o atual Presidente Trump. Segundo, o relatório policial, que fez um levantamento das atividades das milícias e grupos extremistas nas redes sociais e fóruns, "estão planeados protestos armados nos 50 capitólios estatais, desde 16 de janeiro até 20 de janeiro", alertam.

O Pentágono também emitiu uma alerta sobre "várias ameaças terroristas possíveis" para os próximos dias, incluindo no próximo dia 20 de janeiro. Esses dados foram revelados numa conversa telefónica entre o secretário do Exército, Ryan McCarthy, ao congressista democrata Jason Crow, membro do Comité das Forças Armadas na Câmara dos Representantes.

Na conversa revelada por este último, soube-se que as forças de segurança apreenderam, no dia da invasão do Capitólio, uma grande quantidade de armas e de explosivos. "o que indica que se evitou por pouco um desastre maior", garantiu o responsável das forças armadas. McCarthy expressou a sua "profunda preocupação" por informações que mostram que "membros do exército no ativo e na reserva estiveram envolvidos na insurreição".

Infiltrações que existem também na polícia e em outras forças de segurança. Hoje, sabe-se que os 2.500 elementos do corpo especial de polícia que tem como missão defender o Capitólio não atuaram devidamente, devido a cumplicidade de alguns dos seus elementos com os invasores trumpistas.

A possibilidade de existir um segundo ataque à sede do poder legislativo dos EUA, foi um argumento usado pelo Twitter para justificar a suspensão da conta do Presidente em funções, Donald Trump. "Já começaram a proliferar dentro e fora do Twitter planos para futuros protestos armados, incluindo o plano de um novo ataque ao Capitólio no dia 17 de janeiro", garante a empresa detentora dessa rede social em comunicado à imprensa.


Europa, a desmancha prazeres dos fora-da-lei digitais
Os políticos europeus estão a usar o assalto ao Capitólio como prova da necessidade de leis mais rígidas no online. A Comissão apresentou um manual de instruções para a década digital europeia.

Na última semana, a Apple , Google e a Amazon praticamente deitaram abaixo a rede social Parler, os dois gigantes informáticos descontinuaram as aplicações dessa rede para Android e IOS e a Amazon não permite que essa rede usada preferencialmente por ativistas de extrema-direita continue alojada nos seus servidores. Em causa, estão planos que utilizam essa rede social sem moderação de conteúdos de se organizar para dia 20, para a frente da varanda do Capitólio, em que tomará posso o novo Presidente Joe Biden, a denominada "Marcha de um milhão de milícias". Nessa rede discutia-se animadamente que armas os manifestantes de extrema-direita deviam levar, para impedir a tomada de posse do Presidente eleito, se tacos de basebol ou espingardas de assalto.

A presidente da câmara de Washington, a democrata Muriel Bowser, enviou uma carta, no último sábado, ao Departamento de Segurança Nacional da administração Trump em que se pede que se ponha em marcha um plano de segurança máxima para garantir a tomada de posse de Joe Biden e que se tomem medidas de reforço de segurança na capital dos EUA. O senador republicano, Roy Blunt, responsável de supervisionar a organização da tomada de posse do novo Presidente, insistiu no mesmo sentido com as forças de segurança.

Democratas querem a demissão de Trump por insurreição

A poucos dias da tomada de posse do novo Presidente dos EUA, Joe Biden, a zona do Capitólio ganhou uma vala de dois metros e o edifício está guardado por um impressionante dispositivo policial e militar.

Depois da invasão do Congresso, os democratas maioritários na Câmara dos Representantes, prontificam-se para apresentar um pedido de impeachment a Donald Trump. Os autores acusam o atual Presidente de ter promovido uma insurreição e acham que é demasiado perigoso mantê-lo à frente dos EUA até dia 20. Teme-se que possa tomar medidas irresponsáveis, como ações militares contra o Irão, para além disso, se Trump fosse corrido, estaria legalmente impedido de se recandidatar em 2024.

É o quarto pedido de impeachment a um Presidente dos EUA, e o segundo contra Donald Trump. A resolução que será aprovada pela Câmara de Representantes, mas que necessita de uma maioria de dois terços no Senado, considera o atual Presidente culpado do delito de “incitação à insurreição”, pelo seu papel violento de ter incitado os manifestantes, no dia 6 de janeiro, a dirigirem-se para o Capitólio e por ter justificado reiteradamente a ocupação nas suas contas nas redes sociais. A invasão do Congresso dos EUA foi um ato sem precedentes, a última vez que o edifício tinha sido invadido e saqueado, foi no século XIX, por tropas britânicas, durante a guerra da independência. A invasão teve como consequências cinco mortos e várias dezenas de feridos.

A presidente da Câmara dos Representantes, a democrata Nancy Pelosi, considerou que Trump era "um perigo" para a democracia e para o respeito da Constituição.


EUA. Vice-presidente recusa invocar 25.ª emenda para destituir Donald Trump
O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, descartou na segunda-feira a possibilidade de invocar a 25.ª emenda da Constituição para destituir o Presidente cessante, Donald Trump, após a invasão do Capitólio por apoiantes do governante.

Apesar de Trump ter aceite sair do cargo a 20 de janeiro, os democratas temem o que possa fazer até lá. "O horrível assalto à nossa democracia por parte deste Presidente intensificou-se, e portanto tornou-se mais urgente a necessidade de agir", defendeu Pelosi.

Os democratas, com esta iniciativa, pretendem pressionar o vice-Presidente, Mike Pence, e a sua equipa de governo, para que num prazo de 24 horas, façam uso da 25.ª Emenda da Constituição, que permite destituir Donald Trump, por manifesta incapacidade de honrar o cargo. Mas tal não aconteceu. 

Sondagens realizadas depois dos incidentes, afirmam que 45% dos eleitores republicanos apoiaram a invasão da sede do poder legislativo dos EUA, e apenas 28% desses eleitores de Trump condenaram o sucedido. 

Donald Trump convenceu grande parte dos seus eleitores que as eleições foram fraudolentas, mesmo que não haja nenhuma prova disso. Nos próximos dias se verá se a rota de colisão continua e se a violência vai tomar ou não as ruas dos Estados Unidos da América.

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