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A guerra que o confinamento levantou

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A guerra que o confinamento levantou

A guerra que o confinamento levantou

A guerra que o confinamento levantou


por Ricardo J. Rodrigues/ 03.02.2021

Fotos: Sanne Derks

Ao fim de um ano de restrições por causa da pandemia, um novo fenómeno espalha-se pela Europa. Os protestos anti-confinamento crescem, tornam-se violentos, partem a sociedade a meio. Reportagem do enviado especial do Contacto nos campos de batalha que se estão a erguer na Holanda e na Bélgica.

Foto: Sanne Derks

Às duas da tarde era o amor. No Museumplein, o enorme relvado que liga os dois principais museus de Amesterdão (o Rijks e o Van Gogh), estava um grupo de raparigas com flores nas tranças a dançar à volta de uma coluna portátil. Uns metros adiante havia um rapaz vestido de Sherlock Holmes a fazer bolas de sabão gigantes, que o vento espalhava por todo o lado. Um tipo corria de cuecas pela erva, apesar de os termómetros marcarem dois graus negativos. Depois veio a morte, ou um homem disfarçado de morte, caminhando em cima de um andarilho. Chegava cada vez mais gente. Máscaras nenhumas, muito menos distância de segurança. Quem ali chegasse sem aviso poderia muito bem pensar que aterrara num cortejo de Carnaval antecipado.

Estas pessoas, e são mais de 600, vieram protestar contra as restrições impostas pelo governo de Haia para combater a pandemia de covid-19. A última semana mostrou que há um novo fenómeno em marcha na Europa. Ao fim de quase um ano de medidas restritivas, a resistência ao confinamento começa a crescer e, mais do que isso, a ripostar. “Já não podemos dizer que são só os negacionistas, nem os grupos anti-vacinação, nem os grupos radicais de direita a clamar por abertura”, diz Roel Jansen, um professor de psicologia de Groningen que decidiu vir à manifestação este domingo.

Roel Jansen é professor de psicologia e velejador.
Roel Jansen é professor de psicologia e velejador.
Foto: Sanne Derks

É velejador desde miúdo, por isso traça uma metáfora marítima. “Sei que há vandalismo, sim, como sei que há gente que diz isto é um gesto de amor. Não acredito numa coisa nem outra. Eu faço parte da imensa maioria que há no meio. Acredito que a ameaça da pandemia é real, mas também acredito que a resposta atual é apenas um disfarce para a incompetência da governação. É muito fácil navegar um barco ao sabor da maré, e desculparmos a nossa falta de comando dizendo que o mar está bravo. Mas isso só convence quem tem medo de nadar.”

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Preparação para o combate
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Perpendicular ao Museumplein, a Pieter Cornelius Hoofstraat é uma das ruas comerciais mais importantes da cidade – e aquela onde se concentram as lojas mais luxuosas da capital. As montras, agora, estão todas tapadas com painéis de madeira. A porta da Louis Vuitton, aliás, desapareceu completamente atrás de um paredão de blocos de cimento. “Depois do que aconteceu ao longo da semana, os comerciantes temem as pilhagens e tentam proteger-se. Sobretudo porque esta tarde há um protesto no Museumplein”, explicava Robert Labadie na manhã do último domingo. Médico, 61 anos, vive aqui desde que nasceu. “Não me lembro de ver a minha rua assim, e aquilo que penso é que estou no meio de uma guerra.”

Um rapaz vai pegando em latas de tinta para colorir algumas das montras que foram entaipadas. Karel Six, estudante de arquitetura de 24 anos, desenhou uma série de corações no George Café, a sua cafeteria preferida de Amsterdão. “Nestes tempos em que a cidade sofre apeteceu-me passar uma mensagem mais animadora, e falar do amor que todos temos pela nossa capital.” Adiante põe-se a pintar um mural com a frase “Amsterdam Stay Strong” - Amesterdão Mantém-te Forte. “Não sei se estou contra o confinamento, não sei se estou contra os protestos, mas sei que sou a favor da minha cidade. E acho que as coisas hoje vão correr mal. Se vier fogo, eu deixo aqui a minha resposta. Coragem, Amesterdão.”

Mais de 600 pessoas compareceram no protesto do Museumplein, no último domingo, em Amesterdão.
Foto: Sanne Derks

Não é o primeiro domingo em que a multidão se junta no Museumplein. Na semana passada, a 24 de janeiro, as coisas começaram a descambar precisamente aqui. O governo demissionário de Mark Rutte tinha imposto o recolher obrigatório no país a partir das 21h de sábado, 23. Nessa noite houve alguns protestos, centena e meia de detenções pelo país. Na tarde seguinte, em Amesterdão, as coisas explodiram. E espalharam-se como fogo em floresta de eucaliptos.

O ambiente segue animado e, de repente, irrompem pelo relvado duas mulheres. Uma vem de cadeira de rodas, a outra numa motorizada para pessoas com mobilidade reduzida. A mais velha vem vestida de gato, a outra de sapo. Estas são Wilma e Petra Buonstra, mãe e filha, e a sua chegada é saudada com uma ovação no Museumplein. “Eu tenho quase 60 anos, a minha mãe tem 80, pertencemos ambas a grupos de risco e no entanto quisemos vir aqui”, conta Petra. A matriarca sofre de asma e diabetes, ela de esclerose múltipla, as duas têm sistemas imunitários vulneráveis.

“Toda a minha vida tive de me resguardar, e muitas vezes de me autoconfinar, para assegurar a minha sobrevivência e a da minha filha”, diz Wilma. “E isso é uma opção que eu fiz, dentro do meu livre arbítrio. O que está a acontecer neste momento é que o Estado nos retirou essa liberdade de escolha. É perigoso quando as instituições impõem restrições individuais aos cidadãos. No meu corpo mando eu.” Mas os seus direitos não podem atropelar os dos outros? Pode sobreviver a uma infeção mas matar alguém por contágio. Petra responde pela mãe: “Sim, posso. Como posso com uma série de outras doenças. Há sempre um risco em estar vivo. Cada um deve proteger-se na medida que melhor entender.”

Wilma e Petra pertencem a grupos vulneráveis, mas não querem ver as liberdades individuais cortadas por causa da pandemia.
Wilma e Petra pertencem a grupos vulneráveis, mas não querem ver as liberdades individuais cortadas por causa da pandemia.
Foto: Sanne Derks

O ponto delas colhe aprovação no grupo que se juntou à volta a ouvir a conversa. Agora Petra fala para todos, como se de um comício se tratasse. “Estamos a destruir a economia, estamos a isolar a geração mais jovem no momento em que ela mais precisa de socializar. O governo quer proteger a saúde pública mas esquece-se de proteger a saúde mental. Conheço mais gente que morreu nos últimos meses por se ter suicidado do que por Covid-19.” Ela não nega a existência de uma pandemia, mas acredita que não justifica o que chama de “encarceramento da sociedade”.

Petra ainda tinha mais coisas para dizer, mas subitamente três drones começam a sobrevoar o relvado do Museumplein, emitindo uma mensagem sonora repetidamente. “Esta manifestação não foi autorizada. Dispersem rapidamente. A polícia vai intervir e recorrer ao uso da força.” Nos minutos seguintes algumas pessoas levantam-se e abandonam o terreno. A maioria, no entanto, decide ficar. São quatro e meia da tarde. A batalha está prestes a começar.

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Os negacionistas e o resto
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Foto: Sanne Derks

À medida que a tarde corria a multidão tinha engrossado. Nas redes sociais circulara a informação de que a polícia iria deter quem viesse manifestar-se, por isso muita gente explicava que só tinha vindo beber um café. Grupos inteiros sentavam-se em roda no chão, com termos e chávenas. Entre eles circulavam muitos miúdos em idade de liceu, normalmente vestidos de negro, com capuzes e bonés. São sobretudo eles que enfrentam a polícia. Trazem bolsos carregados de pedras, foguetes e petardos nas mochilas. Alguns são imediatamente revistados e detidos. Outros passam. O ambiente começava a ficar mais pesado.

Às três da tarde o amor começava a dar lugar à raiva. Grupos negacionistas distribuíam papéis, mas muita gente recusava recebê-los. Luka Lotze e Meina Kentner andavam ali a apelar a que ninguém se vacinasse. Como raio se dá cabo de uma pandemia se as pessoas não se vacinarem, perguntámos? “Este vírus simplesmente não existe”, respondia Meina. Mas em Portugal morrem 300 pessoas por dia de Covid-19. “Faz parte do plano”, respondia Luka, “Portugal é um país envelhecido. Os velhos custam caro e o plano é eliminá-los.” E de quem é o plano? “Das elites, daquele 1% de população que manda no mundo.”

Julian Visser critica os meios de comunicação social por estimularem o alarmismo na pandemia.
Julian Visser critica os meios de comunicação social por estimularem o alarmismo na pandemia.
Foto: Sanne Derks

Os negacionistas são um grupo crescente mas, em abono da verdade, não estavam em maioria neste protesto. Basta olhar para os cartazes: no grosso dos casos insurgem-se contra a ameaça às liberdades individuais, e muitos atacam os meios de comunicação social. “O alarmismo que os jornais estão a criar constantemente serve sobretudo para instigar o medo”, dizia Julian Visser, um estudante de Sociologia de 22 anos que viajou de Vlissingen, 200 quilómetros a sul.

“Não tenho dúvidas de que esta pandemia é real, de que os números são assustadores e é óbvio que os media têm de reportar isso”, continuava ele. “Mas as únicas notícias que vêm a público são as que provocam reações fortes. Devíamos ter a cabeça mais fria e pensar melhor no que está a acontecer. Por exemplo, não é justo que haja esta vigilância constante sobre o comportamento dos cidadãos sem que se questionem as medidas dos governos.”

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Às armas
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Foto: Sanne Derks

Depois de os drones avisarem a multidão do Museumplein para dispersar, percebeu-se imediatamente que a polícia de choque tinha cercado toda o jardim, deixando apenas uma escapatória aos manifestantes: para sul, em direção à Van Baerlestraat. Primeiro avançou uma carrinha blindada, que os protestantes cercaram e conseguiram fazer recuar. Um foguete explodiu no relvado, e segundos depois dezenas de agentes do corpo de intervenção, armados de escudos e bastões, investiram em corrida pelo lado norte.

A multidão agora fugia, mas alguns dos miúdos deixavam-se ficar para trás e tentavam fazer fintas aos agentes. Outro petardo, pum. E mais outro, pum. Uma segunda coluna de agentes avançava agora com cães, depois vinham os agentes montados a cavalo, e atrás deles seguia um cortejo de carros blindados e outro de carrinhas da polícia. No fim de tudo ia um canhão de água, que seria atacado sem grande sucesso por very-lights e ripostaria acionando o jato de água, mais para apagar o fogo provocado pelos engenhos do que para acertar na multidão.

No final da tarde, as autoridades registariam três dezenas de detenções – e desta vez a violência não escalou. “Para o domingo há mais”, gritavam alguns grupos de rapazes enquanto abandonavam o local. Atiravam o que tinham à mão aos carros que ainda ali estavam. Pedras, sim, mas também sacos de papel embrulhados e copos de cartão. “Ui que medo”, zombava um polícia. A operação de contenção do motim, desta vez, tinha sido um sucesso. Mas Amesterdão, a Holanda e uma boa parte da Europa não parecem estar dispostas a sossegar.

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Lenha para o fogo
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Foto: Sanne Derks

As medidas de restrição na Holanda intensificaram-se há quatro meses: os restaurantes fecharam no final de outubro, as lojas e as escolas em dezembro. O recolher obrigatório, esse, não era notícia desde a II Guerra Mundial. Há um fator importante para explicar a escalada de violência: na altura em que as retrições mais duras foram anunciadas, o país apresentava os números mais baixos desde setembro, tanto nos contágios como nos óbitos. O Executivo justificou o aperto das medidas com o aparecimento de uma nova estirpe de coronavírus vinda do Reino Unido. Para centenas de holandeses, no entanto, o argumento não serviu.

Na tarde de 24 de janeiro houve um milhar de pessoas a protestar no Museumplein. O protesto não estava autorizado e as autoridades decidiram intervir. Investiram sobre a multidão com cães e canhões de água. As notícias correram rápido até Eindhoven, onde na mesma noite a população incendiou carros e pilhou lojas. Também houve confrontos em Haia, Enschende, Roermond ou Tilburg. Mais de 300 cidadãos foram detidos.

Estava acesa a fogueira.

Foto: Sanne Derks

Na segunda feira os confrontos espalharam-se a Roterdão, Haarlem, Alkmaar e Gouda. Na terça alastraram a Den Bosch, Stein e Capelle, o coração das classes trabalhadoras holandesas. Em Maastricht os fãs do clube de futebol local invadiram as ruas para controlar as multidões. Na quarta, o presidente da câmara de Eindhoven disse que “se continuarmos assim, o país dirige-se para uma guerra civil.” Nesse mesmo dia, o chefe nacional de polícia anunciou controlos e penas de prisão para quem participasse nas concentrações. Na quinta, a Bélgica fechou as suas fronteiras e impôs postos de controlo junto à Holanda. No domingo, 31 de janeiro, verificaram-se confrontos entre a polícia e manifestantes anti-confinamento em Budapeste, Bruxelas e Viena.

A 15 de janeiro de 2021, o Instituto Nacional de Saúde Pública e Ambiente divulgou um estudo sobre a perceção holandesa em relação ao coronavírus. Quase metade da população não acredita na eficácia das medidas restritivas que estão a ser tomadas pelas instituições. Muitas destas pessoas protestam e a contestação está a subir de tom. Na Holanda, sim, mas não só.

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O controlo da insatisfação
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Foto: Sanne Derks

Também no domingo, em Bruxelas, 500 pessoas seriam detidas por participarem em protestos não autorizados. Na véspera, tinha sido anunciado um protesto em Antuérpia e outro em Turnhout, uma cidade belga junto à fronteira com a Holanda – ambos foram evitados graças a um enorme dispositivo policial. Quem passasse na estação central de Antuérpia na tarde de sábado, aliás, assustar-se-ia seguramente com a presença das autoridades. Havia centenas de agentes fardados e outros à paisana, militares armados com metralhadoras, cães polícia por toda a parte. Os jovens que passavam eram revistados, muitos deles foram levados para as esquadras.

“Parece que estamos num daqueles filmes de catástrofe, em que somos controlados a torto e a direito”, comentavam Stef e Jan, dois rapazes de 15 anos que tinham vindo andar de skate para o largo em frente a estação. “Estamos fartos de estar em casa, esta é a nossa maneira de matar o tempo. Mas às vezes parece que tentarmos divertirmo-nos é um crime. Há quanto tempo não ouves alguém a rir às gargalhadas?”

Em Turnhout o cenário era idêntico. Um apelo através da rede social Telegram tinha prometido transformar a cidade em campo de guerra na noite de sábado, mas a polícia vedou a praça e não permitia que nenhum jovem se aproximasse. Uma rapariga de 20 anos que vive na região, Tatiana Pereira, tentou ir com a mãe às compras nesse dia. São portuguesas de Ourém e há mais de um ano que adiam uma visita a casa. “Estou farta da pandemia, como toda a gente. Mas também estou preocupada com a incapacidade que temos de nos poder queixar”, diz a mais nova.

Ela explica: “Em março de 2020 acabei a universidade, só me falta o estágio para terminar o curso. Com a pandemia, estou à espera há um ano. Dizem-me sempre que não é seguro.” Estudou botânica e, na sua área de trabalho, a maior parte dos dias são passados sozinha, rodeada de plantas. “Ou então num laboratório onde tudo é esterilizado.” Tatiana tem dificuldade em perceber os argumentos que adiam a sua vida. “A minha e a de muito mais gente. Sinto que a pandemia é desculpa para emperrar aquilo que era fácil de resolver. Mas, se eu quiser protestar contra isso, sou detida e revistada. É justo?”

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