Escolha as suas informações

A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?
Mundo 3 min. 04.03.2020

A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?

A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?

Mundo 3 min. 04.03.2020

A Gripe Espanhola seria hoje tão devastadora?

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
A pandemia de 1918-1919 matou mais de 20 milhões de pessoas no mundo, só em Portugal, mais de 100 mil. Atualmente seria assim tão mortal? Podem os estudos sobre este flagelo ajudar nos planos de combate à pandemia do novo coronavírus? As respostas do especialista.

Ainda hoje, a Gripe Espanhola é objeto de estudos científicos e já se passaram mais de 100 anos, desde que num só ano, entre 1918-1919, dizimou países já de si fragilizados e a braços com as mortes provocadas pela guerra. 

Mas a Pneumónica, ou ‘Spanish Lady’, como também é chamada, a mais devastadora pandemia da história humana recente conseguiu ser mais mortífera dos que a própria Primeira Guerra Mundial. A Gripe surgiu meses antes do Armistício.

Pelo mundo, provocou a morte de mais de 20 milhões de pessoas, contra as oito milhões vítimas da guerra. Em Portugal, revelou-se quase o golpe final, num país pobre, fragilizado pelos efeitos da guerra, como a fome, miséria, os surtos endémicos de tifo, varíola, tuberculose e numa época social e política bastante conturbada. 

"A pandemia de 1918-19 foi responsável por um excesso de 117 764 óbitos por todas as causas, valor que corresponde a uma taxa de 195,7 óbitos por 1000 habitantes (ou cerca de 1,96% da população de todas as idades)", indicam os resultados de um novo estudo 'A Pandemia da Influenza 1918–1919 em Portugal: uma análise regional do impacto da morte’, realizado por uma equipa do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge.

A gripe causou a morte de muitas crianças, como os pastorinhos Jacinta e Francisco Marto e jovens adultos, como os artistas Amadeo Sousa-Cardoso. Os seus efeitos, neste contexto de vulnerabilidade, mostraram levar alguns anos a desaparecerem. 

REUTERS

 Se fosse hoje, a Pneumónica seria tão mortífera? “Muito provavelmente, não”, declara ao Contacto Baltazar Nunes, epidemiologista e coordenador do estudo publicado em 2018, por ocasião do centenário da Gripe Espanhola.

 As razões, que distam 102 anos da pandemia letal, são várias. “As condições de higiene, socioeconómicas e o estado de saúde da população é muito diferente”, realça este investigador do Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge. 

 Além de que, a ciência e a medicina evoluíram muito, sobretudo ao nível da prevenção. “Hoje em dia existe uma vacina contra a gripe e, mesmo com um novo vírus da gripe, é possível num espaço de alguns meses desenvolver e produzir uma vacina para um novo vírus da gripe”, garante o autor principal do artigo. E exemplifica: “Em 2009, o vírus A(H1N1) pdm09 surgiu em abril, e em novembro desse ano, já se estava a vacinar a população com uma vacina contra esse vírus”. 

 Os hábitos pessoais, sociais e a nível de saúde também contribuem para que uma tal pandemia ganhasse tal proporção. “Atualmente a população tem também outros hábitos de higiene respiratória que reduzem a transmissão da doença, como lavar as mãos frequentemente, e espirrar para o braço. Outras medidas como ficar em casa em teletrabalho, quando se tem sintomas de gripe, poderia em muito reduzir a sua transmissão”. 

 Estudos ajudam na prevenção 

 Nas conclusões deste estudo epidemiológico sobre a mortalidade da Gripe Espanhola em Portugal, a equipa liderada por Baltazar Nunes realça que investigações como estas podem contribuir para priorizar medidas preventivas em futuras pandemias. 

 “É nas populações mais vulneráveis que se observam os maiores impactos das epidemias e pandemias de gripe”, refere Baltazar Nunes justificando que os planos de contingência “devem ter em consideração estas desigualdades que se observam entre países, mas também entre regiões dentro dos países”. 

 Da mesma forma, no cenário da atual pandemia do novo coronavírus, os “planos de resposta internacionais e nacionais devem ter em conta estas desigualdades” que levam a que “ países e regiões mais desfavorecidas tenham mais dificuldade em lutar contra este flagelo”, alerta este especialista.      

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas

“Este coronavírus contagia muito mais do que os anteriores”
O investigador português Vítor Borges, do INSA que está a colaborar com o LNS do Luxemburgo explica em entrevista exclusiva como o vírus da pandemia se comporta e altera para continuar a contaminar o planeta. Uma investigação fundamental para a criação da vacina eficaz.
O investigador português Vítor Borges do INSA
Memória. A mulher que derrotou a pneunómica
Há alguns anos a agência Lusa entrevistou Maria Rosa, uma mulher que na altura tinha 101 anos, e que conviveu de perto com a doença que na altura matou mais de 50 milhões de pessoas no planeta.
Da peste negra ao coronavírus, passando pela gripe espanhola
O governo chinês introduziu o uso de uma aplicação para telemóvel que indica a ficha de quarentena: verde para quem pode sair às ruas, amarelo para quem deve ficar isolado por uma semana e, vermelho, para as pessoas que têm de ficar duas semanas isoladas.
a