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A gripe das aves está a crescer e poder tornar-se na próxima pandemia, alertam cientistas
Mundo 5 7 min. 22.05.2021 Do nosso arquivo online

A gripe das aves está a crescer e poder tornar-se na próxima pandemia, alertam cientistas

A gripe das aves está a crescer e poder tornar-se na próxima pandemia, alertam cientistas

REUTERS
Mundo 5 7 min. 22.05.2021 Do nosso arquivo online

A gripe das aves está a crescer e poder tornar-se na próxima pandemia, alertam cientistas

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O vírus H5N8, que causa a gripe aviária já matou milhões de aves pelo mundo e já infetou sete pessoas. Pode vir a causar “pandemias desastrosas”, mais perigosas do que a da covid-19, avisam cientistas chineses e espanhóis.

Desde dezembro de 2019 que um novo vírus perigoso já alastrou a 46 países da Europa, Ásia e África, matou milhões de aves selvagens e de criação passando e infetando sete humanos: o vírus H5N8 causador da gripe das aves, ou aviária. E este vírus pode originar a próxima pandemia, alertam Weifeng Shi e George Fu Gao, dois cientistas chineses num estudo publicado na edição de quinta-feira da prestigiada revista científica Science. 

O mesmo defende uma especialista espanhola, realçando que ela pode chegar já para o ano e ser mais perigosa do que a covid-19.

Os virologistas chineses, dois dos cientistas que participaram na identificação do vírus da covid, escrevem no artigo da Science que surtos provocados pelo vírus H5N8 (um subtipo derivado do vírus da gripe comum) estão a emergir pelo mundo e esta gripe das aves “representa um grave problema de saúde pública” que não pode ser ignorado. Ele pode ser causador de “desastrosas pandemias” em humanos, alertam.


Gripe das aves. É proibido importar aves para o Luxemburgo sem certificação do veterinário
Segundo as autoridades, o vírus da gripe aviária está cada vez mais presente e não apenas nos grandes produtores, mas também em pequenas explorações .

Por isso, torna-se necessária desde já uma "vigilância cuidadosa e rigorosa" a este vírus bem como "medidas de controle eficientes ligadas às infeções por esses tipos de vírus", para evitar "mais infeções humanas”, realçam na Science.

Das aves para os humanos

Tal como o novo coronavírus, o H5N8 é um vírus zoonótico, que passa do animal que é o seu reservatório ou hospedeiro para o ser humano, ou através de contacto direto, ingestão do animal ou picada. 

E tal como o SARS-Cov-2 já foram detetadas “mutações importantes” do vírus H5N8 nos surtos registados, que passaram para pessoas e parecem aumentar a sua capacidade de se ligar às células humanas, vincam George Fu Gao, do Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças em Pequim, e Weifeng Shi, da Academia de Ciências Médicas em Shandong.

Os virologistas chineses lembram no seu artigo que os casos humanos deste vírus foram detetados pela primeira vez, em fevereiro de 2021, e pertencem a sete trabalhadores de um aviário na Rússia com 900 mil aves, onde ocorreu um surto provocado pelo H5N8. Foram contaminados com uma mutação do vírus original “preocupante”. 

Embora infetados, nenhum dos funcionários teve sintomas. Esta mesma variante do vírus causou a morte de mais de 20 milhões de aves da Coreia do Sul e do Japão, lembram. Por isso, “é imperativo que não se ignore a sua propagação mundial e o risco potencial de disseminação entre as aves selvagens, domésticas e selvagens” representando um perigo para a saúde humana.

Mais perigoso do que a covid-19

Esta não é a primeira vez que pode ocorrer uma epidemia ou pandemia da gripe aviária. A virologista espanhola Maria Montoya do Conselho de Investigação Científico de Espanha recorda ao jornal El País que de quando em quando, ao longo dos tempos, os “vírus H5 saltam das aves para as pessoas”. 


Luxemburgo em alerta com a gripe das aves
Para já não há casos identificados no país, mas o aumento do número de aves com gripe aviária detetado em França e em zonas belgas próximas do Grão -Ducado levam os serviços veterinários a redobrar as atenções.

Em 1997, o H5N1 provocou centenas de casos de infeção em humanos, muitos fatais desde a sua identificação em humanos, em Hong Kong, diz a especialista. Montoya vinca que “a partir do momento em que estes vírus passam para os humanos e sofram mutações para se poderem transmitir entre as pessoas pode surgir uma nova pandemia”. E ainda mais perigosa do que a da covid-19.

É que a capacidade de mutação do vírus da gripe é “muito maior” do que as do coronavírus, pois “têm a potencialidade de gerar uma pandemia muito pior do que a que estamos a sofrer agora, explica esta virologista espanhola ao jornal El País. Em seu entender, esta pandemia “tando pode ocorrer já para o ano, como daqui a 100 anos”. 

Surtos em meio mundo

Os chineses Weifeng Shi e George Fu Gao não querem arriscar. As regras de prevenção da covid, como uso de máscara e distanciamento social levaram a uma diminuição de casos de gripe (influenza) nos humanos. 


Foto de arquivo
Surto de gripe aviária em França leva ao abate de centenas de milhares de patos
Como medida de prevenção, as autoridades francesas decidiram abater todas as aves de criação, que estejam confinadas em espaços ou não, num raio entre um e três quilómetros de distância das quintas onde foram identificados surtos.

Contudo, os cientistas realçam que entre as aves os vírus como o H5 altamente patogénicos (capaz de causar doenças) originaram surtos frequentes na Ásia, Euroásia, Europa Central e África desde 2019 até agora. Dinamarca, Alemanha, Irlanda, Holanda e Reino Unido foram alguns dos países europeus já afetados por surtos desta gripe aviária.

Além das quintas e dos aviários industriais que devem reforçar as medidas de higiene Shi e Fu Gao alertam também para o perigo das aves selvagens devido à sua migração de longas distâncias, se estiverem infetadas podem originar novos surtos da doença. 

Tal como a virologista espanhola referem a “capacidade inata” destes vírus “de ligação ao recetor humano” e a sua mutação constante para melhor transmissibilidade. Por tudo isto, os especialistas chineses apelam à tomada de atenção e ação de medidas para prevenir já a propagação e origem de uma próxima pandemia.

“Educação e divulgação também são importantes, incluindo medidas de proteção pessoal reforçadas durante a temporada de influenza, mantendo-se longe de pássaros selvagens e evitando caçar e comer pássaros selvagens”, escrevem Shi e Fu Gao no seu artigo da Science.


A investigadora Isabel Sousa Pinto integra a Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU).
“As pandemias serão mais frequentes e poderão matar mais pessoas do que a covid-19”
O mundo atravessa uma “era de pandemias” e a culpa é do ser humano, alerta um novo relatório da ONU. A investigadora Isabel Sousa Pinto, do comité científico deste documento do IPBES, explica ao Contacto como vão surgir mais doenças perigosas e o que é preciso fazer para as prevenir.

Vivemos uma "era pandémica"

O planeta está a atravessar uma “era pandémica”, em que as pandemias “serão mais frequentes, propagar-se-ão mais rapidamente, poderão matar mais pessoas e causar maiores danos à economia global”, do que a covid-19. O aviso consta do documento sobre “biodiversidade e pandemias” da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU).

“É isto que vai acontecer se não se agir já, e não se adotarem estratégias globais de previsão e prevenção das pandemias. O perigo é real. Daqui a dois, três anos, pode aparecer outra pandemia como a que vivemos agora, ou pior ainda, as probabilidades são imensas”, alertou ao Contacto a investigadora portuguesa Isabel Sousa Pinto, no final do ano passado. O aviso, dos primeiros oficiais, surgiu neste relatório em que investigadora portuguesa integrou a direção do comité científico do documento, que resultou de um do workshop virtual urgente sobre a ‘Biodiversidade e as Pandemias’ realizado pelos 22 cientistas do IPBES, entre 27 e 31 de julho.


Surto de gripe aviária no Reino Unido origina o abate de 10 mil perus
O surto foi detetado no sábado e as autoridades tomaram “medidas imediatas”, para evitar a propagação.

 Há dados científicos a comprovar tais possibilidades e que constam no relatório: “Estimam-se que existam 1,7 milhões de vírus desconhecidos em mamíferos e pássaros, dos quais entre 631.000 a 827.000 têm capacidade de infetar humanos”.  

 “Há mais de cinco novas doenças desconhecidas, a surgir nas pessoas todos os anos, qualquer uma das quais com potencial para se espalhar e se transformar numa pandemia”, indica o relatório, apontando que nos “últimos cinquenta anos foram descobertos 400 novos microrganismos, dos quais 70% constituem um perigo” para a saúde pública global.  

Países une-se contra perigo

Nesta sexta-feira, dia 21 de Maio, a União Europeia, a Organização Mundial de Saúde, os líderes do G20, os países mais ricos, e representantes de outras entidades, como as farmacêuticas que desenvolveram as vacinas anti-covid reuniram-se numa conferência Global sobre Saúde, em Roma, com grande parte realizada de modo virtual. O debate sobre o combate global à covid e a prevenção global a futuras pandemias foram os temas centrais. 


Surto de gripe aviária detetado em quinta no Grand Est
Como medida de segurança, a quinta afetada e as quintas em redor estão sob vigilância.

Pela primeira vez foi criado um grupo de trabalho ao mais alto nível com o objetivo de estudar e antecipar possíveis surtos que poderão se tornar graves para o planeta. Entre os especialistas ficou ainda a promessa de criar alianças entre as áreas de saúde pública, ambiente, vida animal e clima, para estudos cruzados sobre alterações e influências entre todos eles. No caso da pandemia da covid, ela resultou de consequências de alterações climáticas, invasões humanas e destruição do habitat natural. 

Já na entrevista ao Contacto no final do ano passado a investigado a investigadora portuguesa Isabel Sousa Pinto, da Plataforma Intergovernamental de Políticas Científicas sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistémicos (IPBES) da Organização Mundial das Nações Unidas (ONU) salientava a necessidade de  criação de um organismo intergovernamental de prevenção das pandemias, outra das medidas apontados no referido relatório. 

Trata-se de um organismo que possa fornecer informação científica sobre a emergência destas doenças, prever as áreas de alto risco, avaliar os impactos das potenciais pandemias ao nível da saúde humana e económicos, e ainda criar um mecanismo de monotorização das doenças. E é um organismo semelhante que deverá ser agora criado como ficou acordado na conferência global de Saúde de sexta-feira passada.

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