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Reportagem. A batalha pela normalidade em Kiev
Mundo 4 13 min. 06.10.2022
Guerra na Ucrânia

Reportagem. A batalha pela normalidade em Kiev

Nesta artéria da capital da Ucrânia respira-se um ar de normalidade. Mas nem todas as grandes cidades ucranianas se pautam pela calmaria que Kiev exibe atualmente.
Guerra na Ucrânia

Reportagem. A batalha pela normalidade em Kiev

Nesta artéria da capital da Ucrânia respira-se um ar de normalidade. Mas nem todas as grandes cidades ucranianas se pautam pela calmaria que Kiev exibe atualmente.
Foto: Danylo Antoniuk/dpa
Mundo 4 13 min. 06.10.2022
Guerra na Ucrânia

Reportagem. A batalha pela normalidade em Kiev

Tiago Carrasco
Tiago Carrasco
O metro a abarrotar à hora de ponta, festas e uma vontade inabalável de reconstruir o que os russos destruíram. A batalha pela normalidade em Kiev é disputada diariamente e também faz mossa entre famílias e amigos.

(Em Kiev, capital ucraniana)

Assim que os autocarros chegam a à aldeia de Kolychivka, perto de Chernihiv, 150 quilómetros a norte de Kiev, Ivan Antonovic, de 79 anos, apressa-se a saúdar os visitantes. São 180 voluntários do grupo Repair Together, na maioria jovens na casa de 20 anos, oriundos da capital, Kiev, que se deslocam a zonas devastadas pela guerra para limpar os destroços causados pelos bombardeamentos russos e reconstruir casas desfeitas. 

“Nem sei como agradecer esta iniciativa”, diz o idoso. “Estive 53 anos a construir a minha casa, pouco a pouco, quando em um segundo um míssil arrasou tudo. Estava com a minha mulher à porta. Tentámos esconder-nos na cave mas ela partiu a perna. Tive de a levar ao colo para a casa do vizinho, que estava vazia. Por muito pouco não morremos”, diz o homem, com as lágrimas a precipitarem-se pelo rosto.

Os voluntários não vêm somente para ajudar. Está planeada uma rave (festa de música eletrónica) para o final da jornada, aquecida com algumas garrafas de vinho e vodca trazidas da urbe. “Este conceito é perfeito”, diz Yevheni Tarashenko, 26 anos, produtor musical, que após sete ações do Repair pediu para ficar na cozinha a tratar das refeições. “Se fosse só pela festa, não vinha seguramente, mas também se fosse apenas para acartar tijolos, provavelmente só teria vindo uma ou duas vezes. A conjugação entre a diversão e a ajuda aos mais necessitados é imbatível”.

Mila Chernii, 31 anos, é uma das cofundadores do projeto. Começou com meia dúzia de amigos que, afastados por opção do campo de batalha, queriam sentir-se úteis no esforço de guerra, sem abdicar de conhecer pessoas novas e de celebrar a vida. “Muitos ucranianos abominam qualquer tipo de celebração durante a guerra, mas não sabemos quanto tempo este conflito vai durar e não podemos descurar a normalidade, em prejuízo de graves danos psicológicos na nossa juventude”, diz. “Além disso, há algum poder em dançar sobre a gravilha que as bombas russas nos deixaram, porque quando eles vêm os nossos vídeos na internet percebem que não conseguem eliminar a nossa boa disposição e a  nossa liberdade”.

Os membros do Repair Together chamam às suas iniciativas Toloka, uma expressão tradicional ucraniana para denominar uma mobilização comunitária: “Antigamente, os habitantes das aldeias ucranianas juntavam-se para reparar uma casa incendiada e no fim faziam um banquete, em que cada aldeão trazia o que podia. Estas são tolokas modernas, já com tratores para transportar os destroços e música eletrónica em vez de instrumentos e canto”, diz Ilya Yurchenko, 33 anos, um empreendedor tecnológico que acabou de inaugurar uma aplicação para os refugiados ucranianos encontrarem casas a preço acessível na Europa. “É uma velha máxima... todas as guerras trazem muita dor, mas também algumas oportunidades”.

Depois de carregarem milhares de baldes de entulho, os jovens trocam de roupa numa escola primária e preparam-se para dançar. No pavilhão, dois DJ’s disparam batidas potentes, com samples de frases patrióticas no fundo. Os brindes são muitas vezes acompanhados por um grito de Slava Ukraini (Glória à Ucrânia), algo que alguns aceitam apenas por serem proferidos por adolescentes: “Não é decente estar a gritar isso a beber cerveja enquanto os nossos soldados estão a morrer por esse mote na frente de guerra”, diz Yurchenko. A discussão entre o que é normal e anormal em tempo de guerra domina grande parte das discussões: “Os nossos feeds de Instagram variam entre corpos mutilados, granadas, gatinhos, anúncio do McDonald’s e mais cadáveres. Claro que as pessoas já não sabem o que é normal. É uma loucura!”, diz Mila.

Ao mesmo tempo que uma centena de foliões saltam freneticamente na pista, o psicólogo Kyrylo Hutsol, de 28 anos, conduz na cozinha uma palestra sobre a normalidade em tempo de guerra. É um tema que apoquenta toda uma geração de ucranianos formados, ultradigitalizados e fluentes em línguas estrangeiras, muitos deles, os homens, impedidos de sair do país por decreto da lei marcial. “Tanto é herói o soldado que combate pela pátria, como o bom pai de família que, após cumprir os seus deveres, vai ao bar beber uma cerveja”, discursa o especialista. 

“Ele está a educar os ucranianos do futuro, também é herói. Se estivéssemos todos aos tiros, quem iria construir as bases para o pós-guerra?”, questiona. Entre colheradas de papas de milho com queijo branco, a audiência abana a cabeça em concordância. O psicólogo sugere a todos os presentes que não julguem ninguém.


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Ainda assim, a normalidade é uma revolução difícil de atingir no meio de tamanha catástrofe. Segundo Hutsol, a maioria dos seus pacientes apresenta problemas familiares: “Com a deslocação das mulheres para o exterior, os casais tornaram-se disfuncionais e cada um dos cônjuges tem agora receio de não reconhecer o seu parceiro quando se voltarem a encontrar”, diz o psicólogo. Outra causa de desgaste é a impossibilidade de fazer planos a longo prazo: “Ter filhos ou comprar uma casa deixou de ser opção. Para mais, o tempo de espera é indeterminado, o que provoca ainda mais desgaste emocional”.

A língua do inimigo

Ismail Ismailov, de 32 anos, e Oleksandr Rybalko, 52, são amigos de longa data e vivem no bairro de Pozniaky, uma zona residencial na margem oriental do rio Dnipro, dominada por torres massivas de estilo soviético, habitada cada uma delas por um número de pessoas superior à maioria das aldeias portuguesas. O bairro era há dez anos uma zona puramente residencial, mas apesar dos problemas vividos pelo país – a revolução de Maidan e a anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, e o conflito no Donbass, já com oito anos – rendeu-se à gentrificação e tem hoje cafés elegantes, bares de cerveja artesanal e parques frequentados por jovens casais com carrinhos de bebé.

Rybalko é um ativista de línguas ameaçadas na Ucrânia e defende que é tempo de toda a gente se expressar em ucraniano e não em russo, como antigamente. Ismail concorda mas, sendo um tártaro da Crimeia, educado em escolas russas, tem dificuldade em expressar-se no idioma nacional e, portanto, é mais tolerante com aqueles que continuam a expressar-se no idioma do inimigo. Costumavam frequentar o Bar Cultura, junto ao lago artificial formado pela remoção de terras para a construção das torres, mas há alguns meses entraram e depararam-se com um empregado que só sabia russo: “Não volto mais aqui”, exclamou Rybalko, virando as costas ao funcionário. Ismail teve de aceitar, contrariado, pois tratava-se de um dos melhores bares de Pozniaky.

“Já é tempo de toda a gente perceber que tem de falar em ucraniano”, insiste Rybalko. “Passaram-se 30 anos desde a independência e ainda temos uma larga fatia do país a expressar-se na língua do inimigo. É um caso único na Europa”. Mas há quem aponte o dedo à radicalização linguística: nas províncias ocidentais, alguns ucranianos deixaram de responder a refugiados do leste, por vezes idosos, que a eles se dirigem em russo. O tema domina grande parte das conversas sobre o presente e o futuro da Ucrânia.

A cidade, essa, não tem tempo para discussões. Pelas 8h da manhã, já a estação de metro de Pozniaky está a abarrotar de trabalhadores que têm de cruzar o rio para chegar aos seus escritórios. Ainda há seis meses, este mesmo túnel subterrâneo servia de abrigo a milhares de ucranianos receosos dos ataques russos. Hoje parece Paris ou Lisboa, enquanto a 600 quilómetros há casas a ir pelos ares. “Desde que expulsámos os russos da zona de Kiev, no passado mês de abril, deixámos de ter medo de circular normalmente pelas ruas”, diz Tetiana Deena, advogada de 43 anos, a caminho do tribunal. “Eu já saio de casa mais stressada com o trabalho em si do que com as sirenes de bombardeamento”.

No verão, vendo a praia fluvial cheia e pessoas a fazerem churrascos nos jardins, o presidente da câmara, Vitali Klitschko, afirmou que as sirenes não são barulho de fundo e que os sacos de areia, os soldados armados e os postos de controlo militar não são elementos decorativos. “O bom tempo e o ambiente pacífico são uma ilusão”, disse, em entrevista ao jornal Daily Telegraph. “A cidade pode ser atacada pelo ar a qualquer momento”. Klitschko acrescentou que “apesar de não se poder falar em normalidade em tempo de guerra, os cidadãos estão a fazer o seu melhor para se adaptarem às difíceis condições”.

Segundo as autoridades, a capital conta já com três dos 3,6 milhões dos seus habitantes regulares, a que se somam 100 mil deslocados internos que escolheram Kiev para se refugiarem. Há centenas de pessoas a praticar jogging e o velódromo está repleto de crianças e adultos a pedalar sem temores: “Estive três meses a treinar em casa com uma bicicleta de ginásio”, diz Stanislav Zinchenko, 33 anos, ciclista amador. “Como aqui temos um abrigo perto, não tenho qualquer receio. Sinceramente, a liberdade de poder praticar desporto na rua vale o risco que, de momento, me parece pouco”.

Até os circuitos turísticos voltaram a funcionar para turistas nacionais. “Temos tido uma procura similar à existente antes da guerra, com o senão de não termos tours em inglês porque não há estrangeiros”, diz Olga Andrushka, guia turística. “A vantagem é que os habitantes de Kiev voltaram a ter curiosidade em conhecer a sua própria cidade”. Os espaços culturais reabriram. Já se pode passar a noite na ópera, no Teatro Nacional Lesya Ukrainka ou visitar o Museu Nacional de História da Ucrânia. Recentemente, reabriram as discotecas e até há concertos na estação de metro de Maidan Nezalehzhnosti. “O pior é o recolher obrigatório ser às 23h, o que obriga todos os espaços a fecharem as portas às 22h, de modo a que toda a gente possa chegar a casa a tempo”, diz Dimitri Semko, 27 anos, ator. “Isso altera todos os horários, pois temos de jantar mais cedo e aproveitar ao máximo aquelas duas horas antes do recolher”.

Oportunidades e desafios

Nem todas as grandes cidades ucranianas se pautam pela calmaria que Kiev exibe atualmente. Em Odessa, a vida noturna continua pujante, mas é por vezes interrompida por investidas de drones russos, de fabrico iraniano, que têm apoquentado o quotidiano da cidade da comédia e da prostituição. Nessas alturas, civis saem para as ruas e varandas de metralhadoras em punho e aplicam disparos para o ar para abater o engenho. De seguida, a boémia volta a assaltar as ruas, com uma mulher vestida de burro cor de rosa a interpelar um soldado e copos de vinho a tilintar em brindes contidos.

Já a leste, em Kharkiv, o ambiente é muito mais depressivo e angustiante. Houve muitos mortos e a destruição de edifícios domina a paisagem. À noite, não há iluminação pública, o que deixa a cidade imersa na escuridão total, ocasionalmente interrompida por clarões de bombas caídas nas imediações. Não obstante, Vitali Oros, 30 anos, dono de um pub, decidiu driblar os obstáculos e iniciar uma nova etapa: “Vendíamos cerveja importada, mas ficou tudo caríssimo, principalmente o transporte”, afirma. “Então decidi começar a produzir a minha própria cerveja com produtos nacionais e já estou a vendê-la. Quando este pesadelo terminar, já vou estar lançado para um bom negócio”. Um taxista comenta mais um clarão, seguido de um estrondo: “Problema? Não, só mais um dia de 'chuva'”, ironiza.


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Com a presença de mais de 12 mil profissionais de comunicação acreditados pelas Forças Armadas para cobrir a guerra para todo o mundo, vários ucranianos fluentes em línguas estrangeiros agarraram a oportunidade de trabalhar como produtores locais (fixers), recebendo uma média de 250 euros por dia de trabalho. Muitos deles auferiam não mais que 500 ou 600 euros por mês nos seus empregos anteriores: “Não tinha qualquer tipo de experiência em órgãos de comunicação social, trabalhava como tradutora, mas de facto a minha conta bancária tem crescido durante o conflito ao trabalhar com televisões francesas, alemãs e inglesas”, diz Daryna Holovaty, 32. 

“É um sentimento dúbio: por um lado, sinto-me um pouco mal por estar a lucrar com isto, por outro, acredito que tenho uma missão importante para dar a mostrar internacionalmente os horrores que os ucranianos estão a sofrer”. De mês a mês, Daryna ruma a leste, para se encontrar com o namorado, um soldado.

Para muitos homens, a guerra está mais próxima do que aparenta estar. Uma pequena infração pode significar a mobilização e a troca súbita de uma rodada de cervejas para uma rajada de metralhadoras nas frentes de Mykolaiv ou do Donbass. “Uma vez fui apanhado na rua depois da hora de recolher obrigatório e pensei logo que ia receber um papelinho para me apresentar no exército”, diz Yevheni, o produtor musical do Repair Together. “Pode acontecer à mínima falha. Na estação de comboios, por exemplo, um tipo meteu-se com a minha namorada. Tive vontade de o esmurrar, mas aguentei-me sossegado. Havia tanta polícia que se perdesse as estribeiras podia ser mobilizado”.

A cidade continua a preparar-se para um inverno complicado. Cerca de 600 edifícios foram danificados durante o cerco a Kiev, no passado mês de março, e as autoridades aceleram a reparação para que muitos dos afetados possam passar o inverno nas suas casas. O aquecimento dos apartamentos vai ser ligado a meio de outubro e, apesar de o governo ter prometido manter as despesas energéticas estabilizadas, o aumento dos preços do combustível, o colapso de muitas empresas e a difícil situação financeira de muitos indivíduos – tudo resultante da invasão russa – podem colocar sérios obstáculos à economia. É esperada uma contração do PIB na ordem dos 30%, ao passo que o custo de vida aumentou 21% desde o início da guerra, encabeçados pelo valor da comida, 35% mais elevado.

A guerra está no epicentro da atmosfera da cidade: na Praça Maidan, há fotos de mártires espalhados a cada esquina, enquanto oportunistas disfarçados de soldados cobram para tirar selfies com os visitantes, mesmo diante de um tapete de bandeirinhas com uma simbologia dolorosa: cada uma delas representa um dos cerca de 11 mil ucranianos tombados durante a guerra. As lojas de souvenirs vendem agora camisolas com a insígnia do país: “O que sai melhor são peças com a mítica frase do início da guerra: Russian warship, go fuck yourself [navio de guerra russo, vai-te foder]!”, diz Natalia, uma lojista.

Kiev é mais um exemplo de que o ser humano se adapta às mais cruéis formas de existência. Crentes de que a cidade não será mais atacada pela artilharia russa, muitos preocupam-se apenas com a eventualidade de um ataque com armas nucleares. 

Todavia, até para isso os ucranianos encontraram uma forma de se abstraírem, talvez inspirados pela veia humorística do seu presidente, Volodymyr Zelensky; Ismail abre um canal de Telegram chamado Orgia, com mais de 10 mil membros. O que se discute ali? “A organização de uma orgia gigantesca numa das colinas de Kiev em caso de ataque nuclear”, diz Ismail. “Uma loucura? Sim, mas haverá uma possibilidade sã de viver normalmente debaixo dessa ameaça?”.

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