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“A América está dividida, mas não partida”
Mundo 6 min. 11.11.2020

“A América está dividida, mas não partida”

James O’Neal é o líder da delegação luxemburguesa dos Republicans Overseas, o braço do partido de Donald Trump na diáspora.

“A América está dividida, mas não partida”

James O’Neal é o líder da delegação luxemburguesa dos Republicans Overseas, o braço do partido de Donald Trump na diáspora.
Foto: António Pires
Mundo 6 min. 11.11.2020

“A América está dividida, mas não partida”

Ricardo J. RODRIGUES
Ricardo J. RODRIGUES
O próximo Presidente dos Estados Unidos vai ter de governar uma das sociedades mais polarizadas da história do país. Os representantes do Partido Republicano e do Partido Democrata no Luxemburgo avaliam a raiva que as eleições de 2020 tornaram evidente.

“Eu não digo que não possa haver episódios esporádicos de violência, mas a hipótese de uma guerra civil nos EUA neste momento é irreal”, diz James O’Neal, líder da delegação luxemburguesa dos Republicans Overseas, o braço do partido de Donald Trump na diáspora. “As posições entre os conservadores e os liberais extremaram-se nos últimos anos, é um facto. E agravaram-se nesta campanha. Mas daí até um conflito aberto vai um passo demasiado grande. A América está dividida, mas não está partida.”

Os canais de televisão, da CNN à Fox News, concederam no sábado a vitória nas eleições presidenciais norte-americanas a Joe Biden, vários chefes de estado já lhe endereçaram votos de boa sorte na governação. Mas o atual residente da Casa Branca, Donald Trump, parece tudo menos interessado em admitir uma derrota.

Natalie Bachiri é a representante dos Democrats Abroad no Luxemburgo.
Natalie Bachiri é a representante dos Democrats Abroad no Luxemburgo.
Foto: António Pires

“É um jogo perigoso. Acredito que, se Trump vencesse, não veríamos democratas na rua a organizar motins”, diz Natalie Bachiri, representante dos Democrats Abroad no Luxemburgo. “Mas não estou certa de que a mesma ideia se aplique ao outro lado. Durante a campanha, e mesmo durante a contagem de votos, assistimos a pressões e perseguições inaceitáveis num estado democrático.” Diz que, do atual Presidente, não se pode esperar qualquer sentido de estado. “O partido republicano terá de chegar a um momento em que deixe cair Trump, se não os ânimos nunca vão acalmar”, diz.

Para Emery Dalesio, jornalista norte-americano que trabalha no Luxembourg Times, uma coisa é certa: os tempos são perigosos. “Os agentes de autoridade são fortes nos Estados Unidos, por isso custa-me acreditar que as coisas possam chegar tão longe. Mas acredito que há pessoas que se radicalizaram perigosamente”, diz. Esse processo não começou, na sua opinião, com Trump, antes com Newt Gingrich – que entre 1995 e 1999, durante a administração Clinton, foi Porta-Voz do Congresso pelos republicanos, pondo termo a quatro décadas de domínio democrata. “Nessa altura começou a criar-se um tipo de discurso em que os oponentes não eram só oponentes, eram o demónio”, explica Dalesio.

O republicano O’Neal diz que a intolerância cresceu durante os anos da presidência Obama, e novamente na administração Trump. “Há duas Américas em contraste, que não se entendem uma à outra. Mas há uma coisa que mudou e ninguém parece ter ainda entendido. É que já não são só os ricos e privilegiados, nem é só a América rural, a votar em Donald Trump.” Há, diz ele, cada vez mais gente que vê no partido Democrata o velho establishment que promove as desigualdades. Para um conservador, este não deixa de ser um discurso surpreendente: “O que os eleitores estão realmente fartos é de verem uma distribuição inadequada da riqueza, de verem um grupo de privilegiados cada vez mais ricos e o fosso aumentar para os super pobres. E foi isso que mudou. Muitas das pessoas que estão revoltadas votam agora no Partido Republicano.”

Não é que Natalie Bachiri, dos Democratas, discorde inteiramente de O’Neal neste ponto, mas traz outros assuntos para a conversa. “Houve temas absolutamente fraturantes nesta campanha e os interesses de quem votou num lado ou no outro são evidentemente diferentes.” Recorda que, na noite eleitoral, as televisões explicaram bem as preocupações dos eleitores. Para os que votaram em Trump, o assunto central era a economia, para quem escolheu Biden, era a discriminação racial e a pandemia do coronavírus.

“Só em 2020 já foram vendidas 17 milhões de armas nos Estados Unidos, mais do que em qualquer outro ano”, diz Bachiri, citando um estudo da Small Arms Analytics. “E temos de perceber os sinais, temos de entender se os grupos mais radicais não se estão a preparar para uma campanha violenta.” O jornalista do Luxembourg Times aponta no mesmo sentido: “Este verão, tivemos protestos contra a violência policial e o homicídio de cidadãos negros desarmados. Um dos resultados disso foi vermos gente com armas nas ruas e pessoas a serem mortas. Neste momento, há um precedente de violência política no país”, diz Emery Dalesio.

Pressão do lado republicano

James O’Neal admite que os todos os sinais apontam para Biden, mas diz que há agora que deixar os tribunais avaliarem os casos em que a votação possa pender para o outro lado. “Mesmo que tenhamos perdido, aquela onda azul que os media pareciam estar a imaginar não se verificou”, argumenta. “O facto é que nunca houve tantos americanos a votar no partido republicano na história da nossa democracia.” O mesmo se aplica aos democratas, e ainda em números mais expressivos. “Mas mantemos o controlo do Senado, o que significa que Biden terá de negociar constantemente com o nosso lado”, diz O’Neal. A representante dos democratas no Grão-Ducado ri-se. “Neste momento, a imagem da América no mundo é péssima – e é urgente recuperar o respeito do resto do planeta. Para isso acontecer, é preciso que Trump saia do caminho.”

Natalie Bachini insiste na responsabilidade do Partido Republicano. “Tem que se traçar uma linha vermelha muito definida de até quando é que o partido vai continuar a apoiar as alegações de Trump. Se ele não respeitar o veredito dos tribunais, vão continuar a dar-lhe razão e alimentar esta fogueira que está a dividir o país”, pergunta a representante democrata.

“Neste momento vamos esperar pelos tribunais. E penso que esse será o ponto final até onde Donald Trump pode ir”, responde O’Neal. “Se a justiça determinar que Biden ganhou as eleições, o partido vai respeitar a decisão. Trump pode ter conseguido o nosso melhor resultado da História, mas somos uma instituição da democracia, não podemos ficar refém de ninguém.” A decisão judicial, em boa verdade, pode demorar meses. A cerimónia de tomada de posse do novo presidente está agendada para 20 de janeiro mas não faltam analistas a defender que as próximas semanas serão determinantes para perceber se a divisão da sociedade americana se vai tornar ou não perigosa. Dias antes da votação, a revista Foreign Policy publicava um artigo com o título “A violência eleitoral nos Estados Unidos é um perigo presente e claro”. E, no texto, pode ler-se isto: “A violência é provável, mas pode ficar limitada à intimidação dos eleitores junto a alguns pontos de votação. Há no entanto um risco de ataques mais sangrentos, especialmente dos supremacistas brancos e dos extremistas anti-governo contra as comunidades minoritárias e os políticos do Partido Democrata.” Numa entrevista à revista Atlantic, Thomas Zeitzoff, professor de Política na American University, dizia há dias que “os Estados Unidos estão agora mais polarizados do que em que qualquer outro momento desde o anúncio da Guerra Civil.”

O’Neal mantém a confiança de que as coisas vão correr bem, e diz que os media estão a alimentar um alarmismo que não é justificado. Bachiri contesta, diz que as feridas que estão abertas neste momento no país vão demorar décadas a sarar. “Há uns dias, uns amigos contavam-me que no jardim de infância onde puseram os filhos os miúdos trocam insultos racistas uns com os outros. Nenhuma criança vai discriminar outra se não for ensinada a fazê-lo. O ódio é uma coisa que se espalha como um incêndio, mas demora demasiado tempo a apagar.”

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