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"A América está de novo disponível para ouvir e colaborar com o mundo"
Mundo 10 min. 20.01.2021 Do nosso arquivo online

"A América está de novo disponível para ouvir e colaborar com o mundo"

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Mundo 10 min. 20.01.2021 Do nosso arquivo online

"A América está de novo disponível para ouvir e colaborar com o mundo"

Paula SANTOS FERREIRA
Paula SANTOS FERREIRA
O senador luso-americano Marc Pacheco mobilizou a comunidade lusa no apoio à campanha do novo presidente Joe Biden. Em entrevista exclusiva ao Contacto fala da nova era que hoje começa e das prioridades da agenda da Casa Branca.

Para Marc Pacheco, senador luso-americano do Estado de Massachusetts, na agenda de Joe Biden para o primeiro dia como presidente dos EUA estão três prioridades: o verdadeiro combate à pandemia, o regresso ao Acordo de Paris pelo clima e às políticas de cooperação externa, com os aliados e União Europeia. 

Em entrevista exclusiva ao Contacto este lusodescendente, senador há 28 anos, e líder da comunidade portuguesa, diz-se confiante com o futuro dos EUA nas mãos da administração Biden-Harris para reaproximar as comunidades imigrantes da Casa Branca e repor as políticas sociais e externas que Donald Trump deixou de lado. Durante a campanha às presidenciais, Marc Pacheco, 68 anos, esteve na fundação da ‘Plataforma Luso-Americanos por Biden-Harris’ que integrou oficialmente a campanha para apelar ao voto das comunidades lusófonas e ajudar à vitória do presidente que hoje toma posse. Este senador vai seguir a cerimónia de tomada de posse em direto pela televisão em sua casa "por causa da pandemia", respeitando assim as regras.

Qual o impacto da Plataforma Luso-Americanos por Biden-Harris no resultado das presidenciais?

Foi positivo embora já tivéssemos começado tarde, em outubro, apenas a seis semanas das eleições. Conseguimos envolver centenas de portugueses na campanha, mas se tivéssemos iniciado mais cedo tínhamos reunidos milhares de eleitores de origem portuguesa. Juntamente com os congressistas lusodescendentes Jimy Costa, da Califórnia e Lori loureiro Trahan, de Massachusetts, decidimos criar esta 'Plataforma Luso-Americanos por Biden-Harris' que foi oficialmente integrada na campanha eleitoral. O nosso objetivo foi chegar a todos os portugueses, mas sobretudo às famílias de origem portuguesa dos estados importantes para a vitória eleitoral, nomeadamente a Flórida, Califórnia, Geórgia. A maior comunidade portuguesa reside na Flórida, onde vivem 85 mil famílias.  

A plataforma foi oficialmente integrada na campanha de Joe Biden e Kamala Harris?

Sim, foi a primeira vez, a nível nacional que tivemos luso-americanos como parte oficial da campanha por Biden-Harris que juntou igualmente plataformas de outras comunidades como a irlandesa ou italiana. O diretor do envolvimento ético da campanha, Elvir Klempic, aplaudiu a ideia e eu, pela minha parte, contatei com a comunidade, líderes associativos e de vários setores da sociedade para uma mobilização dos eleitores portugueses e luso-americanos em Joe Biden e Kamala Harris. Foi importante, embora só tivéssemos trabalhado poucas semanas antes, mas tivemos a preocupação de chegar também às comunidades lusófonas como as brasileiras e cabo-verdianas.

Como era a ligação da administração Trump com os luso-americanos?

Para mim não houve grande ligação de Donald Trump com a nossa comunidade enquanto foi presidente, embora haja luso-americanos que apoiaram Trump sobretudo por razões económicas, mas penso que um largo número de lusodescendentes percebeu o impacto negativo das políticas sociais e internacionais de Trump para a população e para o País.

Que impacto negativo foi esse?

Creio que houve um claro distanciamento da administração Trump para com as comunidades imigrantes, além dos problemas raciais que nasceram. Houve também um afastamento com os países e organizações com quem temos relações tradicionais. Julgo que não houve interesse, nem Trump percebeu a importância da cooperação dos EUA com os países da União Europeia, distanciou-se dos compromissos assumidos. Donald Trump decidiu fazer uma espécie de caminhada solitária na política externa, incentivar acordos com líderes autocráticos em oposição ao reforço da cooperação com os nossos parceiros e aliados tradicionais, e para a nossa comunidade luso-americana foi muito frustrante assistir a este afastamento. Com o presidente Joe Biden na Casa Branca a América está de novo disponível para ouvir e colaborar com o mundo.

 E ao nível das políticas internas de Donald Trump?

Também houve um afastamento dos compromissos feitos com os estados e das políticas sociais importantes como a educação pública, na saúde onde Trump tentou desfazer o Obamacare, o plano elaborado por Obama e Joe Biden de criar planos de saúde acessíveis e mais amplos à população. 

Perante isto, o candidato democrata Joe Biden foi visto pela maioria dos luso-americanos e imigrantes portugueses como um político mais ao centro nas ideias e que não é demasiado à esquerda a nível económico, e que aprecia as relações tradicionais dos EUA com os países europeus. 

A nova administração quer reconstruir relações fortes externas. Retomar o nosso envolvimento com o Acordo de Paris, voltarmos a integrar a Organização Mundial de Saúde, voltarmos a ter uma liderança nos EUA que volte a colocar este país como um dos líderes mundiais que é aberto à colaboração com o exterior.

O novo presidente Joe Biden já declarou que quer voltar ao Acordo de Paris pelo clima.

Esta vai ser uma das suas prioridades, porque infelizmente a administração Trump decidiu sair deste acordo com os nossos aliados europeus, como Portugal e que muito antes dos EUA, se juntaram para abraçar uma nova economia sustentável, combater os nefastos efeitos das alterações climáticas e do aquecimento global. 

O regresso dos EUA ao Acordo de Paris vai estar na agenda do primeiro dia de trabalho do presidente Joe Biden. Temos de voltar a integrar o Acordo de Paris, de adotar medidas de combate ao aquecimento global e às alterações climáticas, de reduzir as emissões de dióxido de carbono, neutralizá-las até 2050 como prevê o acordo de Paris e desenvolver energias sustentáveis.

A defesa do ambiente e do clima tem sido uma das suas maiores batalhas enquanto senador estadual. O Senador é o presidente fundador da Comissão Permanente do Senado sobre Aquecimento Global e Alterações Climáticas.

Sim. Estive sempre próximo da administração de Bill Clinton e de Al Gore na luta pelo clima e ambiente, empenharmo-nos como os nossos aliados europeus nas energias sustentáveis, renováveis, como a economia azul (oceanos e mares sustentáveis) ou a energia eólica, dos ventos. 

Tanto a nível estadual, onde tenho apresentado várias iniciativas legislativas, da nossa Commonwealth, como a nível externo, por exemplo, com as Nações Unidas tenho estado envolvido em projetos ambientais, participado em reuniões. 

Há que reforçar, nomeadamente os compromissos feitos entre Portugal e os EUA pela defesa do nosso oceano comum, o Atlântico, por uma economia azul. Parte dos EUA é banhada pelo Atlântico tal como Portugal continental, Açores e Madeira e há que apostar nesta colaboração, reunindo os conhecimentos científicos que Portugal tem nesta área há já tantos anos, com os dos Estados Unidos. Acredito que agora vamos voltar a reforçar esta colaboração.

Outra das prioridades será o combate à covid-19 nos EUA, o país com mais infeções e mortes no mundo pela pandemia. Mais de 24 milhões de casos e mais de 400 mil mortes?

Neste momento, acredito que será a principal prioridade da presidência Joe Biden e Kamala Harris e penso que eles têm um grande desafio pela frente no combate à pandemia no nosso País. 

O verdadeiro e sério combate vai começar agora com esta liderança. Até agora, com a administração Trump a liderança foi fraca na luta contra a covid-19, agora há que reforçar a cooperação com os governos estaduais, realizar uma ampla campanha para a adoção dos gestos barreira, uso de máscara, distanciamento social. Donald Trump deu mais importância à economia, mas para mantermos a economia a funcionar temos de prevenir a doença, adotar medidas de saúde pública.

O combate à pandemia não vem tarde demais?

Acredito que vamos conseguir. Vai ser um grande desafio, mas totalmente diferente com o presidente Biden e a vice-presidente Kamala Harris, porque a liderança do combate vai partir da Casa Branca, e vai ser um combate agressivo de prevenção à covid-19 como deveria ter sido feito desde o início da pandemia, para não se perderem tantas vidas, e haver tantas famílias destruídas pela doença. 

Acredito que o presidente Joe Biden vai trabalhar em conjunto com os governos dos estados, encontrar recursos para os setores mais afetados, como os empresários da restauração e da cultura para que possam sobreviver à crise, mas tal só é possível com uma aposta forte na prevenção.

E já há a vacina anti-covid.

Já temos vacinas, o que é fundamental na prevenção da doença e agora há que garantir que todos tenham acesso à vacinação, essa é outra das preocupações da nova administração. Diminuir o número de mortes, salvar vidas ao mesmo tempo que se salva a economia. Acredito que tal ainda é possível.

Também aqui podemos cooperar com os países da União europeia, trabalhar com eles, garantir que as populações dos países mais frágeis, como os africanos também tenham acesso à vacinação. Cooperarmos todos para voltar a ter um mundo seguro e para que não haja perigo de um ressurgimento da pandemia no futuro. 

 Voltando aos portugueses, o senador é tido como um dos líderes da comunidade, sempre se manteve próximo dos portugueses e luso-americanos do EUA e também de Portugal. Qual a razão?

O meu casamento com a comunidade daqui é muito longo e estive sempre atento aos seus problemas e conquistas. Eu já nasci cá, em Taunton, Massachusetts, mas tenho uma ligação muito forte a Portugal. Os meus avós paternos eram de Mega Cimeira, perto de Castanheira de Pera, Leiria e os meus avós maternos dos Açores. Sempre que posso vou a Portugal continental ou aos Açores. Gosto do Porto, Lisboa, das praias do Algarve e adoro a gastronomia portuguesa.

Mas na sua cidade Taunton e pelo estado de Massachusetts onde reside a segunda maior comunidade de origem portuguesa, cerca de 280 mil, existem restaurantes portugueses, não é?

Sim, muitos e têm comida portuguesa maravilhosa, mas não é a mesma coisa (risos). Em Portugal tudo tem um gosto diferente. Estou ansioso para que a pandemia seja controlada para poder regressar a Portugal.

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