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75 anos depois, soldados voltam a "desembarcar" na Normandia

75 anos depois, soldados voltam a "desembarcar" na Normandia

75 anos depois, soldados voltam a "desembarcar" na Normandia

75 anos depois, soldados voltam a "desembarcar" na Normandia


05.06.2019

Foto: AFP

Vários líderes mundiais comemoraram esta quarta-feira os 75 anos do desembarque na Normandia, durante a Segunda Guerra Mundial, ao lado de veteranos de guerra, em Portsmouth, no Reino Unido.

Muitos veteranos que passaram por cenários de guerra permanecem em silêncio no seu país durante muito tempo, até encontrarem a sua "segunda família" em França. É o caso de James Carroll, mecânico aposentado e antigo soldado norte-americano que chegou à praia de Omaha, a 12 de junho de 1944, com 19 anos.  "Nos Estados Unidos, metade das pessoas nem sabe o que é a praia de Omaha. Durante 50 anos, não falei sobre isso em casa. Aqui [na Normandia], gosto de ir às escolas e responder às perguntas das crianças", diz James Carroll, em casa de dois amigos,  Jean e Catherine Maillet, na Normandia, em França. "Jean, Catherine e eu temos uma amizade para toda a vida".

Esta quarta-feira, Carroll viajou até à Normandia para participar na cerimónia dos 75 anos do Dia D, em Saint-Germain-de-Vareville. Assim como ele, vários veteranos aproveitam esta data para rever amizades que ficaram da guerra e partilhar histórias e memórias daquele período tenebroso.

"O compromisso das famílias da Normandia é muito impressionante. Para os veteranos, é uma segunda família", diz Valérie Gautier-Cardin, uma normandesa de 42 anos, fundadora da associação "Retour des vétérans en Normandie" ("Regresso dos veteranos à Normandia"), em 2012. A associação financiou a viagem de 13 veteranos norte-americanos para estarem presentes no 75º aniversário do desembarque na Normandia, inclusive a viagem de James Carroll.

"Quando fomos a Sainte-Mère-Eglise, o carro parou três vezes em 50 metros, para um beijo e um autógrafo", diz a amiga de Carroll, Catherine Maillet, de 66 anos. "É um choque para eles, quando voltam pela primeira vez, serem recebidos como heróis e aclamados pela multidão", acrescenta Jean Maillet, de 69 anos, engenheiro reformado. Mas James Carroll não se sente um herói. "Tive sorte. Muitos dos meus amigos não tiveram nenhuma".  

Comemorações dos 75 anos do Dia D, em Portsmouth, Reino Unido
Foto: AFP

“Sabemos que os nossos filhos irão vencer. Mas sabemos que alguns não voltarão”  

Uma parada de líderes mundiais, atores e cantores celebrou esta quarta-feira os 75 anos do Dia D, o desembarque dos aliados na Normandia, na Segunda Guerra Mundial, perante uma plateia onde se destacavam veteranos de Guerra, em Portsmouth, no Reino Unido.

Entre imagens e sons de arquivo e atuações de atores e cantores, recordando o Dia D e o seu impacto na vitória das forças aliadas sobre a Alemanha nazi, em junho de 1944, vários líderes de países que participaram no desembarque na Normandia leram textos de soldados e políticos que tiveram um papel crucial naquele episódio histórico.

O Presidente de França, Emmanuel Macron, leu o emotivo texto de um soldado da Resistência francesa que dizia não ter medo da morte, porque estava de consciência tranquila e esperava apenas que os seus compatriotas fossem felizes no final do conflito. A primeira-ministra britânica, Theresa May, leu a carta de um capitão à sua mulher, dois dias antes do desembarque na Normandia, dizendo que sonhava com o dia em que regressaria aos seus braços. Nesse mesmo momento, May leu o telegrama que anunciava a morte do soldado.

Minutos antes, tinha sido a vez do Presidente dos EUA, Donald Trump, repetir a oração que o seu antecessor na era da Segunda Guerra Mundial, Franklin D. Roosevelt, tinha lido numa emissão radiofónica dirigida ao país, nas vésperas do Dia D: “Sabemos que os nossos filhos irão vencer. Mas sabemos que alguns não voltarão”, dizia a oração que emocionou a audiência das cerimónias hoje realizadas em Portsmouth, a cidade costeira do Reino Unido que serviu de posto de preparação para o desembarque das forças aliadas na Normandia.

Alguns dos momentos de preparação dessa missão militar foram recriados por atores, no enorme palco que serviu para as celebrações, a que assistiram líderes mundiais de vários países, alguns dos quais derrotados na fase final da Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Vários líderes mundiais estiveram presentes na cerimónia, como o primeiro-ministro luxemburguês Xavier Bettel, o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, o Presidente francês Emmanuel Macron, o Presidente dos EUA Donald Trump, entre outros
Vários líderes mundiais estiveram presentes na cerimónia, como o primeiro-ministro luxemburguês Xavier Bettel, o primeiro-ministro canadiano Justin Trudeau, o Presidente francês Emmanuel Macron, o Presidente dos EUA Donald Trump, entre outros
Foto: AFP

Noutros momentos, foram gravações de imagens e de sons da época a fazer a evocação, como quando se ouviu o discurso do antigo primeiro-ministro britânico Winston Churchill a desafiar os concidadãos a lutarem em todo o lado e em todo o momento.

A atriz Sheridan Smith tomou conta do palco para uma rendição do êxito musical “When the lights go on again” (“Quando as luzes voltarem a acender-se”), tornada popular por Vera Lynn, uma das mais célebres cantoras britânicas dos anos 40 do passado século, para evocar o espírito de esperança numa vitória sobre as forças do eixo, lideradas pela Alemanha de Adolf Hitler.

O nome do ditador alemão ficou de fora do espetáculo, onde não faltou a presença da chanceler da Alemanha, Angela Merkel, que, no início das celebrações foi cumprimentada pela Rainha de Inglaterra, Isabel II, a par dos líderes de países que participaram no desembarque na Normandia, como foi o caso dos presidentes de França, EUA, Canadá, Holanda e Reino Unido. Isabel II aproveitou para recordar que, quando presidiu às celebrações do 50.º aniversário do Dia D, muitos acharam que seria a última vez que a monarca ali estaria. “Estar hoje aqui, 75 anos depois, mostra o espírito de resiliência” que está subjacente aos países do “mundo livre”, disse a Rainha, agradecendo o contributo dado em favor da liberdade.

O primeiro-ministro Xavier Bettel ao lado da chanceler alemã Angela Merkel e do primeiro-ministro dos Países Baixos Mark Rutte, durante a cerimónia
O primeiro-ministro Xavier Bettel ao lado da chanceler alemã Angela Merkel e do primeiro-ministro dos Países Baixos Mark Rutte, durante a cerimónia
Foto: AFP

Em nome das Forças Armadas britânicas, o general Nicholas Carter salientou o espírito de camaradagem que se viveu entre as tropas das diferentes nações que se opuseram ao regime ditatorial nazi, dizendo que o desembarque de junho de 1944 foi a prova do espírito e da força multinacional.

A cerimónia terminou com o hino do Reino Unido e com um outro êxito musical de Vera Lynn, em que a cantora prometia aos soldados que há 75 anos lutavam pela sua causa: “Voltaremos a encontrar-nos. Não sei onde, não sei quando. Mas voltaremos a encontrar-nos, num dia de sol”.

Com agências