Escolha as suas informações

13 repelentes segundos
Editorial Mundo 4 min. 29.07.2019

13 repelentes segundos

13 repelentes segundos

Foto: AFP
Editorial Mundo 4 min. 29.07.2019

13 repelentes segundos

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
“Mandem-na de volta! Mandem-na de volta!”, gritavam os apoiantes de Trump, perante o silêncio entusiasmado deste.

É bem possível que a melhor explicação possível para Donald J. Trump tenha sido lançada logo no dia seguinte à sua vitória-choque nas eleições de novembro de 2016, quando a escritora feminista Jill Filipovic escreveu um artigo intitulado “A vingança do homem branco”. Metade dos EUA, dizia ela, chorou de alegria quando Obama foi eleito presidente e essa metade fez os possíveis por eleger uma mulher para o substituir – mas a outra metade, essencialmente constituída por homens brancos e de meia-idade que se sentem ameaçados pela perda dos seus privilégios seculares, votou rancorosamente por alguém que lhes promete restaurar a ordem e o conforto de antanho em que os mesmos homens brancos de meia-idade se sentavam, ainda mais firmemente que hoje, no topo da pirâmide social e económica.

Insidiosamente, a teoria conspirativa fez o seu caminho desde a chegada do primeiro afro-americano ao poder, em 2008: Obama teria nascido no Quénia, e como tal não seria um “verdadeiro americano” nem poderia ser presidente (obviamente a verdadeira razão pela qual Obama “não poderia” ser eleito não era dita com todas as letras). Os rumores tornaram-se tão ruidosos que Obama viu-se compelido a mostrar a sua certidão de nascimento (nasceu no Havai). Por trás da campanha difamatória estava um homem de negócios com ambições políticas e algum dinheiro: Trump. A sua trajectória é feita de tensões machistas e raciais desde a própria génese; a plataforma em que foi eleito baseava-se em caluniar os imigrantes hispânicos (os “bad hombres”) e propor meter a sua concorrente, uma “mulher venenosa”, na cadeia.

Adversários, apoiantes ou indiferentes, todos sabemos o que é Trump. Podemos ver os demónios que liberta e mesmo encoraja. O seu comentário à morte de uma jovem activista atropelada durante uma marcha neonazi – “havia pessoas excelentes dos dois lados” – viverá para sempre nos anais da infâmia do poder. Mas ele, ainda assim, conseguiu agora passar uma nova linha vermelha ao incitar quatro deputadas (por casualidade, todas mulheres, todas de cores de pele diferente da sua) a “abandonar os EUA e voltarem aos países de onde vieram”. Todas têm a nacionalidade americana e três nasceram nos EUA – apenas uma delas, Ilhan Omar, é refugiada somali e vive lá desde criança. É exactamente esta última que constitui o alvo preferido do presidente. Há uma semana, Trump usou o seu comício para acusar Ilhan de várias mentiras, cada uma mais destinada que a anterior a chocar um público altamente nacionalista (e quase exclusivamente branco). No fim do rol de tiradas bombásticas, em movimento cuidadosamente ensaiado, Donald calou-se e a turbe gritou em uníssono: “Mandem-na de volta! Mandem-na de volta!”

Embora em formato farsa, a cena foi tão chocante, tão reminiscente da de um qualquer comício em Nuremberga durante a década de 1930, que o próprio Trump tentou desajeitadamente culpar os seus apoiantes, dizendo que não tinha nada a ver com os cânticos e “até tentou logo mudar de assunto”. Um mentiroso compulsivo não se detêm a pensar em detalhes como a existência de vídeocâmaras; estas mostram claramente o deleite do suprematista branco em atingir o efeito desejado na multidão ululante – e os 13 longos, repelentes segundos que este deleite dura até que o aprendiz de ditador volta a falar.

Usar o racismo para subir nas sondagens é um estratagema que provoca vómitos – e o pior de tudo é que funciona. Ao diabolizar o “diferente”, que representa também uma ala radical do partido Democrata, Trump está paradoxalmente a apelar ao centro, apresentando-se como uma espécie de “guardião da América” contra as forças divisionistas estrangeiras (e mais escuras). As sondagens de hoje confirmaram-no: o presidente subiu e é agora menos impopular. Os republicanos, membros de um partido cada vez menos diverso, defendem-no encarniçadamente. Há três anos mais de dois terços dos homens americanos brancos votaram nele – entre as mulheres brancas também obteve maioria – e para o ano pode ser pior.

Sabemos tudo isso, mas não é possível simplesmente encolher os ombros. Não é aceitável que o racismo seja usado como distracção dos temas importantes em que Trump perde pontos (quase todos). Não podemos continuar embevecidos a olhar para o circo em que se tornou a política americana (e europeia), aceitando a normalização do uso cínico e estratégico da intolerância. Por esta linha de fractura passa a escolha das sociedades em que queremos viver. A igualdade de oportunidades não passa de uma treta; a casa das democracias justas e equilibradas já está a arder, e um dia destes somos todos nós as vítimas.

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba a nossa newsletter das 17h30.


Notícias relacionadas

Destaque: Republicanos chocados com reações contra eleição de Trump
Os Republicanos no Luxemburgo dizem-se chocados com as “reações exageradas e histéricas” contra a eleição de Donald Trump. Já os Democratas americanos no Grão-Ducado querem que o Congresso controle o magnata. Quanto ao Governo e partidos luxemburgueses, quase todos esperam que o Presidente Trump não leve a cabo as promessas de campanha do candidato Trump.