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"Não morri nas Torres porque Deus tinha planos para mim"

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"Não morri nas Torres porque Deus tinha planos para mim"

"Não morri nas Torres porque Deus tinha planos para mim"
11 setembro

"Não morri nas Torres porque Deus tinha planos para mim"


por Paula SANTOS FERREIRA/ 08.09.2021

Foto: dpa

Três portugueses apanhados no centro do ataque às Torres Gémeas relatam ao Contacto o dia de horror com as emoções ainda à flor da pele. Vinte anos depois os traumas permanecem.

Duas décadas passaram desde o dia em que o mundo tremeu às mãos dos terroristas. Mas para quem viveu de perto os atentados que mataram 2700 pessoas, em Nova Iorque, “parece que tudo aconteceu ontem”.

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"Parecia uma filme apocalítico"
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New York City Police/epa/ABC NEW

O que sucedeu a 11 de setembro de 2001 podia ser ficção, “um filme apocalíptico”, assim descrevem ao Contacto três portugueses cujas vidas mudaram nessa manhã de terça-feira. 

Elisabeth Vagos não morreu, naquele dia no restaurante do 106º andar da Torre, “porque Deus tinha planos” para ela, e a fez chegar tarde ao World Trade Center (WTC). 

Ao arquiteto Luís Mendes coube o pior e o mais gratificante da catástrofe, coordenar a remoção dos escombros e presidir à equipa que desenhou e ali construiu o 9/11 Memorial & Museum, o monumento que é a maior homenagem às vítimas. 

Nos dias a seguir aos atentados, a Isabelle Coelho-Marques, na altura funcionária do Consulado de Portugal em Nova Iorque, coube a missão de localizar o paradeiro dos portugueses que trabalhavam nas Torres Gémeas a pedido dos familiares distantes para quem foi criada uma linha telefónica de assistência. Deu sobretudo boas notícias. Mesmo assim, houve nove mortes de portugueses e luso-descendentes no WTC. 

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"Fiquei com stress pós-traumático"
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    Elisabeth, Vagos residente em Long Island, rebobina para o Contacto o filme daquele dia. “A porta do metro abriu-se, estava cheio como costume, e de repente, decidi não entrar e apanhar o próximo comboio para as Torres Gémeas. Ainda hoje não sei explicar porque tomei aquela decisão que me faria chegar atrasada”. 

Elisabeth Vagos com a família no 9/11 Memorial & Museum, no Ground Zero.
Elisabeth Vagos com a família no 9/11 Memorial & Museum, no Ground Zero.

Esta portuguesa trabalhava na empresa do restaurante do World Trade Center, no 106º andar de uma das Torres Gémeas. Esta decisão salvou-lhe a vida. Todos os 75 colegas que se encontravam na empresa morreram quando o primeiro avião embateu nos andares abaixo do “Windows of the World”, o mais famoso restaurante do WTC.

Elisabeth Vagos, então com 27 anos, era assistente da vice-presidente e diretora do Catering do restaurante. Entrava às 9h00 da manhã, mas chegava sempre mais cedo, pelas 8h30 e naquela terça-feira queria mesmo chegar mais cedo, pois havia um pequeno-almoço importante no restaurante. 

“Acabei por chegar ao WTC às 8h50. Sei a hora exata porque olhei para o relógio, estava irritada por me ter atrasado. Foi quando subimos as escadas para o lobby da Torre 1 que começámos a ouvir uns barulhos intensos, pareciam tiros e, passa um senhor aos gritos a dizer ‘fujam, fujam’. Achei que havia um tiroteio. Quando saí à rua, só vi fumo e chamas e ninguém sabia o que se passava”, recorda com voz trémula, confessando que sempre que a data se aproxima o “coração fica mais apertado”. E revive tudo de novo. 

“O avião já tinha entrado na Torre, embora eu não soubesse na altura. Comecei a ligar para todos os meus colegas que estavam no restaurante e nada. De repente, ouço alguém a gritar ‘Ai Meu Deus, ai Meu Deus’, olhei e vi que uma pessoa a cair, tinha-se atirado da nossa Torre”. Elisabeth começou a fugir, tal como os que estavam junto dela. De repente “ouvimos um estrondo, o chão a tremer e olhei para trás. Era o segundo avião embater na outra Torre,. Foi horrível”.

Elisabeth Vagos trabalhava no luxuoso restaurante que ocupava os 106º e 107º andares da Torre Norte, a primeira a cair.
Elisabeth Vagos trabalhava no luxuoso restaurante que ocupava os 106º e 107º andares da Torre Norte, a primeira a cair.
AFP

 À medida que desfia as memórias regressa por instantes ao palco da tragédia. “Durante muito tempo questionei-me porque sobrevivi. Até que um dia, estava na missa e pensei: Não morri nas Torres porque Deus ainda tinha planos para mim. Há nove anos tive o meu filho  e acho que foi isso”, assim justifica. 

Nunca mais Elisabeth conseguiu trabalhar em Manhattan. E como se isso não bastasse começou a ter ataques de pânico. “Fui a vários médicos e não descobriam a causa. Como não achava relevante não contava que tinha escapado aos atentados. Só quando contei me foi então diagnosticado stress pós-traumático”. 

Vinte anos se passaram e ainda hoje “não consigo estar em locais com muita gente, como centros comerciais e aeroportos, começo a sentir-me mal”, vincou. Há dois anos foi visitar o 9/11 Memorial & Museum com o marido e o filho.

Restaurante no "topo do mundo"

“Disse-lhe que foi ali que uns homens maus atiraram dois aviões, um contra o edifício onde a mamã trabalhava”, realçou a portuguesa dizendo que é muito cedo para o filho saber maiores relatos. Mas, contou-lhe como adorava o local de trabalho onde se sentia “no topo do mundo”, naqueles 106º e 107º andares dos 110 que tinham as torres, os edifícios mais altos do planeta. 

“A vista era maravilhosa, olhava lá para baixo e sentia-me em paz”, descreveu a portuguesa. “A América nunca mais foi a mesma e eu que me sentia segura em Nova Iorque, agora já não me sinto. Acho que podem voltar a atacar-nos”.

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O português que fez erguer o 9/11 Memorial
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Preston Keres/U.S. Navy

 O arquiteto Luís Mendes também admite que “infelizmente há sempre o perigo de outro atentado em Nova Iorque”. Contudo, este lisboeta de nascença reconhece que aquele dia “foi o pior de sempre”.

Em 2001 era comissário assistente de projetos especiais no departamento de Design e Construção da Câmara de Nova Iorque. Na manhã do 11 de setembro foi chamado de urgência ao local dos atentados. “Um carro da polícia veio buscar-me a casa e quando nos aproximámos do centro de Manhattan vimos milhares de pessoas a fugir como se fosse o fim do mundo. Quando cheguei ao WTC o cenário era surreal, comecei a ver corpos no chão. Parecia estar num filme apocalíptico”, recorda Luís Mendes. 

Luís Mendes liderou a operação de limpeza dos escombros e depois o design e a construção 9/11 Memorial & Museum.
Luís Mendes liderou a operação de limpeza dos escombros e depois o design e a construção 9/11 Memorial & Museum.
Henrique Mano/Nova Iorque

Nesse mesmo dia começaram a tarefa hercúlea de remoção dos escombros, toneladas de ferro dos edifícios reduzidos a pó. Luís Mendes foi o coordenador desta empreitada “dura” e perigosa. Nos primeiros dias, a prioridade foi encontrar sobreviventes. Tudo tinha de ser feito “com a máxima segurança para os mais de três mil homens que ali trabalhavam em três turnos, 24 horas por dia”, descreve. A qualquer momento os escombros podiam ceder “Não queríamos mais nenhuma vítima e a proteção de todos era a nossa prioridade”, entre toda aquela logística gigante e “complexa”. 

Católico, o arquiteto confessa que “pedia a Deus para proteger” todos os homens que trabalhavam entre as torres colapsadas. A par das buscas, os destroços tinham de ser retirados com cuidado para recuperar restos mortais. Tudo era importante para determinar a identidade das vítimas. Para que as famílias pudessem viver o seu luto.

“Foram dias intensos, a coordenar os turnos, as equipas. Acho que só caí em mim quando se realizou a primeira missa campal no local. Olhar para todas aquelas famílias que ali tinham perdido os seus filhos, pais, ente queridos, foi demais para mim, emocionei-me”, confessa Luís Mendes. 

A operação de limpar totalmente o Ground Zero demorou até maio. O arquiteto português foi então convidado para vice-presidente de Design, Construção e Instalações do 9/11 Memorial & Museum. “O lado humano esteve presente em todo o processo de arquitetura e construção da obra. Pedimos opinião às famílias. Claro que houve críticas ao projeto final, como sempre, mas muitas felicitações”, diz. Luís Mendes reconhece que liderou o “pior e o mais gratificante” da tragédia imensa. 

Randy Taylor/ZUMA Press Wire Ser

Confessa que se sente orgulhoso das suas missões, um orgulho profissional e o pessoal onde entra a parte de ser português. No próximo dia 11 de setembro, estará presente na homenagem anual às vítimas dos atentados, tal como em anos anteriores. Nessas celebrações que decorrem no 9/11 Memorial & Museum revê trabalhadores das operações que coordenou e “famílias que perderam ente queridos e que vêm de longe para assinalar a data”. 

Obra feita, o arquiteto foi convidado para ser vice-comissário da cidade de Nova Iorque, cargo que ainda ocupa, ao mesmo tempo que tem coordenado outros projetos de reconstrução.      

“O furação deixou mais de três mil famílias sem casa e nós durante a reconstrução acabamos também por dar apoio a muitas famílias”, conta Luís Mendes.

O pavilhão exterior do 9/11 Memorial & Museu.
O pavilhão exterior do 9/11 Memorial & Museu.

Desde o ano passado que o arquiteto português tem também estado envolvido em projetos de emergência relacionados com a pandemia da covid-19. reconstrução e ampliação dos hospitais de Nova Iorque para receber doentes covid.

“Em março de 2020 fizemos um trabalho enorme de renovação hospitalar de 85 milhões dólares e temos vindo a adaptar os hospitais criando novos espaços e ampliando enfermarias e serviços para os doentes covid-19”, diz Luís Mendes realçando que em todos os projetos que lidera são sempre para “estarem prontos ontem, são sempre com caracter de urgência”.

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"Desconhecidos abraçavam-se em choro"
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Hubert Michhael Bösl/dpa

Isabelle Coelho-Marques também não teve tempo para assimilar bem o que acontecera naquela manhã de 11 de setembro, pois nos dias a seguir aos atentados trabalhou horas a fio no Consulado Geral de Portugal em Nova Iorque. A sua missão era clara: tentar localizar portugueses que trabalhavam ou estavam no WTC, a pedido das suas famílias. 

Isabelle Coelho-Marques teve a dura missão de localizar o paradeiro dos portugueses a pedido dos familiares desesperados.
Isabelle Coelho-Marques teve a dura missão de localizar o paradeiro dos portugueses a pedido dos familiares desesperados.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros português criou uma linha telefónica especial para dar assistência a estas famílias e os pedidos eram encaminhados para o consulado em Nova Iorque. “Foi um trabalho duro e longo, de milhares de contactos” para tentar localizar tantas pessoas, algumas nem sequer trabalhavam nas Torres, mas as famílias pensaram logo no pior, recorda ao Contacto. Ainda hoje fica “arrepiada” ao recordar aquela manhã. 

“Lembro-me de tudo, passaram-se tantos anos, mas parece que foi ontem”, assumiu a ex-funcionária consular que hoje é presidente da New York Portuguese American Leadership Conference (NYPALC) e membro do Conselho da Diáspora Portuguesa. 

Mas aquele dia até começou bem e Isabelle saiu de casa com um sorriso nos lábios. “Era uma manhã perfeita de setembro, quente, mas com uma brisa, e a luz parecia quase a luz de Lisboa”, recorda. Por isso, nem acreditou quando o taxista imigrante que a transportou da Central Station ao Consulado Geral de Portugal, no Rockefeller Center, lhe disse num inglês rudimentar que “um avião tinha batido nas Torres Gémeas”. Impossível, deve ter compreendido mal, pensou. 

Quando chegou ao consulado percebeu que a informação era real e logo de seguida mandaram evacuar o edifício. Foi quando chegou à rua que Isabelle teve o primeiro grande impacto. “Estava polícia por todo o lado e todas as pessoas a sair dos edifícios. Havia carros de polícia com megafone a pedir às pessoas para se dirigirem a um dos extremos da ilha e milhares de pessoas a caminhar em silêncio. Parecia que estava num filme de ação, daqueles protagonizados pelo Bruce Willis”, diz. 

Durante a caminhada pelas avenidas ladeadas de arranha-céus “não conseguíamos ver nada, mas a meio do caminho alguém disse que uma das torres tinha caído. Muita gente chorava em silêncio”. Só quando chegou junto à margem do Rio Hudson e olhou para o centro de Manhattan viu uma nuvem enorme de fumo, “parecida com a da bomba atómica”. 

Randy Taylor/ZUMA Press Wire Ser

Depois, “vimos a segunda Torre a cair, as pessoas começaram a abraçar-se umas às outras e a chorar. Desconhecidos abraçados em choro”, relembra. “Foi um choque imenso. E ali fiquei até o meu ex-marido ir ter comigo e irmos para casa”. O percurso da saída da cidade demorou horas, e nos carros “toda a gente estava em silêncio”. Mas, no sentido contrário, “a fila era igualmente enorme de carros de bombeiros e de polícias que se dirigiam para o centro da cidade para ajudar a salvar pessoas”. 

O temor de outro ataque

Nos dias e semanas seguintes as emoções de continuaram à flor da pele. O seu trabalho intenso era pautado pelo som das gaitas de foles tocadas nas cerimónias fúnebres da Capela de St. Patrick, ao lado do consulado. “Muitos dos funerais dos bombeiros e polícias realizaram-se nessa Capela, e eu que antes gostava do som daquele instrumento, já não o consigo ouvir pelas memórias que me traz”, confessa. 

Vinte anos se passaram, mas ainda hoje esta portuguesa estremece “cada vez que ouço um avião a passar por cima de Manhattan. Olho logo para cima, é instintivo”. Para Isabelle Coelho- Marques, o 11 setembro trouxe uma “sensação de vulnerabilidade e insegurança muito grande”. Ainda lhe custa a creditar que “o coração da América foi atacado daquela forma tão violenta e ímpar. E tememos que volte a acontecer”.

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