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Os heróis portugueses que perderam a vida a salvar pessoas nas Torres Gémeas

  • A coragem de António Rodrigues
  • Colegas devem a vida a João Aguiar
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Os heróis portugueses que perderam a vida a salvar pessoas nas Torres Gémeas

Os heróis portugueses que perderam a vida a salvar pessoas nas Torres Gémeas
11 de Setembro

Os heróis portugueses que perderam a vida a salvar pessoas nas Torres Gémeas


por Paula SANTOS FERREIRA/ 11.09.2021

O português António Rodrigues (interpretado pelo ator Armando Riesco) é um dos heróis do filme "World Trade Center" de Oliver Stone.D.R.

O polícia António Rodrigues, o engenheiro Carlos da Costa e o corretor João Aguiar ficaram para trás na fuga do World Trade Center para salvar muitas vidas. Eles faleceram. A bravura destes portugueses na manhã dos atentados está relatada em filmes e livros.

O heroísmo dos portugueses foi relatado às famílias pelos colegas que salvaram das Torres Gémeas no dia em que estas desabaram com os atentados terroristas naquela terça-feira de 11 de setembro de 2001. Porque António Rodrigues, João Aguiar, Carlos da Costa não sobreviveram para contar o ato de altruísmo que lhes custou a vida.

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A coragem de António Rodrigues
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Ciaran Dougherty/PA/dpa

Dos nove portugueses e lusodescendentes falecidos no World Trade Center “sabemos dos atos heroicos destes três homens, mas poderá ter havido outros de portugueses que ficaram por contar”, declara ao Contacto o jornalista Henrique Mano do Luso-Americano, o jornal para a comunidade portuguesa de Nova Iorque. Nos dias que se seguiram aos ataques, este jornalista falou com as famílias e com as autoridades ajudando a identificar as vítimas portuguesas da tragédia. “Foram os momentos mais duros e difíceis da minha carreira”, confessa.

O polícia português António Rodrigues, da autoridade portuária de Nova Iorque, foi um do seu pelotão que deu um passo em frente, quando o seu chefe, o sargento John McLoughlin, perguntou quem iria com ele para as Torres Gémeas na missão de salvamento daquela manhã de 11 de setembro.

Do pequeno grupo de cinco bravos homens que entraram na segunda Torre só o sargento e o colega Will Jimeno escaparam com vida, após 12 horas presos nos escombros, como revive o filme “World Trade Center”, do realizador Oliver Stone, de setembro de 2006, e ainda hoje um dos mais famosos sobre os atentados terroristas daquele dia.

O polícia António Rodrigues (interpretado pelo ator Armando Riesco) à esq. atrás do seu Sargento (Nicolas Cage) no filme World Trade Center, um dos mais famosos sobre o 11 de setembro
O polícia António Rodrigues (interpretado pelo ator Armando Riesco) à esq. atrás do seu Sargento (Nicolas Cage) no filme World Trade Center, um dos mais famosos sobre o 11 de setembro
D.R.

Enquanto todos fugiam em desespero ou feridos das Torres Gémeas o polícia António Rodrigues, casado e com um filho pequeno, entrou num dos edifícios em chamas e estava a preparar o material de salvamento para subir e ajudar na evacuação quando a Torre colapsou. Coube ao ator Armando Riesco interpretar o polícia português no filme protagonizado por Nicolas Cage (sargento McLoughlin) e pelo ator Michael Peña (polícia Will Jimeno).

“O corpo de António Rodrigues foi encontrado e eu fui ao funeral onde estava a mulher e o filho pequeno e todos os colegas da Autoridade Portuária que não foram para as Torres. Também o então mayor de Nova Iorque foi ao funeral”, conta Henrique Mano. Da Autoridade Portuária de Nova Iorque e New Jersey faleceram 37 oficiais nas Torres, além de 23 polícias da cidade de Nova Iorque e 343 bombeiros. Todos eles morreram a tentar salvar sobreviventes dos ataques.

O jornalista Henrique Mano que cobriu os atentados no 9/11 Memorial & Museum, onde colocou a bandeira portuguesa junto ao nome do António Rodrigues, numa homenagem aos portugueses falecidos.
O jornalista Henrique Mano que cobriu os atentados no 9/11 Memorial & Museum, onde colocou a bandeira portuguesa junto ao nome do António Rodrigues, numa homenagem aos portugueses falecidos.

Nas vésperas deste sábado, dia em que se assinalam 20 anos sobre os atentados terroristas ao World Trade Center, Henrique Mano visitou o 9/11 Memorial & Museum, erguido no próprio local da tragédia e que é o mais importante monumento de homenagem às vítimas desse dia.

“Fui lá em trabalho, mas pedi para me tirarem uma foto na laje do exterior que tem o nome de todas vítimas. Posei junto ao nome do António Rodrigues onde desfraldei a bandeira”, conta o jornalista que quis também ele fazer nova homenagem aos portugueses desaparecidos.

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Colegas devem a vida a João Aguiar
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AFP

Já a família de António Aguiar, então com 30 anos e empregado numa empresa de corretagem situada no 88º andar da Torre Sul, nunca teve sequer um pertence do jovem desse dia para enterrar.

“O corpo nunca foi encontrado entre os escombros o que ainda torna a dor maior para a família”, diz Henrique Mano contando “que as famílias precisavam de algo para fazer o funeral, para confirmar a morte e conviver melhor com a dor”.

“Um resto mortal, um dedo, parte de uma perna, um pedaço de roupa que identificasse o familiar para o enterrar, mas a família do João Aguiar nunca teve nada. Até hoje. No final de setembro de 2001, a família decidiu realizar uma cerimónia fúnebre na praia em New Jersey em homenagem a este luso-americano que foi um dos heróis do 11 de setembro”, lembra Henrique Mano.

 

Fotografia de João Aguiar com a irmã, na reportagem de Henrique Mano no Luso-Americano na edição especial de 20 anos do 11 de setembro.
Fotografia de João Aguiar com a irmã, na reportagem de Henrique Mano no Luso-Americano na edição especial de 20 anos do 11 de setembro.

 A bravura deste português foi contada, “pelos próprios colegas que ele salvou na Torre, à irmã, Tatiana Aguiar, nesta cerimónia fúnebre, em que todos os colegas que ele salvou estiveram presentes”, explica o jornalista.

Quando o avião embateu na primeira Torre, ardendo em chamas, João Aguiar correu os corredores e as secretárias mais próximas da firma no 88º andar da outra Torre, chamando os colegas para sair, como contou a irmã ao jornalista Henrique Mano. 

“Ele liderou a saída dos seus colegas, salvou os colegas, mas não sobreviveu. Todos desceram de elevador até ao 78º andar, a paragem final dos elevadores cimeiros da Torre. Nesse andar tinha então de apanhar outros elevadores para o lobby de saída da Torre. O João Aguiar conseguiu que todo o grupo entrasse neste segundo elevador para sair do edifício. Ele ficou à espera de outro elevador e foi quando o segundo avião embateu na sua Torre e ele morreu”, recorda Henrique Mano.

João Aguiar é um dos heróis do 11 de setembro que figuram no livro ‘The Hidden Brain’, de Shankar Vedantam, sobre os atos de heroísmo do dia dos ataques, sob a motivação para liderar em situações críticas.

Para Tatiana Aguiar o irmão deve ser lembrado “como o verdadeiro herói que foi no último dia de vida, ajudando a evacuar os colegas, ficando ele para trás. Lembro-me também do rapazinho espevitado que foi, de ação e pensamento rápidos. Era o nosso ‘John Kennedy Jr.’, a percorrer Manhattan”, recorda na entrevista a Henrique Mano publicada no Luso-Americano na edição especial de homenagem às vítimas quando se assinalam 20 anos da tragédia.

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Carlos da Costa salvou 70 pessoas
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AFP

Carlos da Costa, 41 anos, que trabalhava como engenheiro no departamento da Autoridade Marítima no World Trade Center também foi outro dos portugueses que não sobreviveu para contar a sua coragem naquela manhã de terça-feira, há vinte anos atrás. Carlos da Costa interrompeu a descida das escadas que lhe iria salvar a vida, para juntamente com quatro colegas retirar 70 pessoas das Torres. Nenhum destes quatro homens sobreviveu.

O ato de altruísmo deste português está assinalado logo no primeiro episódio da nova série documental "9/11: Um Dia na América”, da National Geografic lançada para assinalar a data dos 20 anos. No episódio de estreia da série, é mostrada a fotografia de Carlos Costa, emigrante natural de Canas de Senhorim como um dos heróis dos atentados terroristas.

“Há relatos de que morreu a ajudar muitos colegas a sair do edifício”, diz também Henrique Mano. A supervisora de Carlos Costa contou, citada pela Lusa, que o português começou a descer as escadas, mas depois percebeu que havia pessoas presas dentro do elevador e juntamente com outros colegas foi ajudar.

Entre os nove portugueses falecidos nas Torres Gémeas, três emigrantes nascidos em Portugal, um em Moçambique (o polícia António Rodrigues) e cinco luso-americanos, “pelo menos três foram heróis nesse dia, ajudaram primeiro pessoas a fugir e salvar-se, acabando por falecer no local. Não sei se as raízes portuguesas os levaram a tais atos heroicos, talvez, embora haja relatos de muitos heróis nesse dia”, lembra o jornalista.

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"Ficou um cheiro intenso a morte"
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 A viver nos EUA desde 1992, Henrique Mano conta que no dia 11 de setembro de 2001 não pode ir em reportagem ao centro de Manhattan, onde reside. Como a redação do Luso-Americano é em New Jersey o jornalista faz diariamente o percurso contrário aos milhares de pessoas que chegam à baixa de Nova Iorque para trabalhar.

Só no dia seguinte conseguiu voltar para a baixa de Nova Iorque, quando os comboios voltaram a fazer a ligação e dirigiu-se logo para o WTC. As Torres Gémeas imponentes no horizonte da cidade já não existiam.

“Era um cenário de horror, e a cidade estava com um cheiro horrível, um cheiro intenso a morte. Mesmo na minha casa que fica a 80 quarteirões do Ground Zero sentia-se aquele cheiro que se manteve ainda por muitos dias", relembra.

Nos tempos que se seguiram aos atentados houve uma união rara entre os nova iorquinos, que “têm fama de ser impessoais, de estar sempre a correr”, diz.  “O 11 de setembro humanizou as pessoas, todas unidas contra o inimigo comum que era o terrorismo, deixou de haver partidos, religiões, nada mais importava. E essa união manteve-se ainda durante um tempo, mas agora já desapareceu”, salienta Henrique Mano que foi chefe de redação e co-fundador da revista Mundo Português, que se publicou em Nova Iorque na década de 90, e desde 1997 trabalha no Luso-Americano.

Do seu currículo constam reportagens de vários momentos históricos nos EUA com protagonistas portugueses, como as visitas de governantes portugueses à Casa Branca, em Washington, entre elas a de Guterres ao presidente Bill Clinton, o lançamento do vaivém Discovery do Centro Espacial Kennedy, na Flórida, que levou ao espaço uma bandeira de Portugal para assinalar os 500 anos dos Descobrimentos ou a visita do papa João Paulo II a Nova Iorque.

O atentado do 11 de setembro, o desespero e a dor imensa das famílias dos portugueses desaparecidos nos escombros das Torres e que “permanece passado vinte anos” é a cobertura jornalística que não quer voltar a fazer. 

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É uma história com código postal em Alverca. A história de 2,5 toneladas do World Trade Center, que um dia um construtor civil trouxe para Portugal. O governo português não quis a peça, a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira também não. Ficou no jardim da sua quinta. À espera de se tornar num objeto de colecção.
Ernesto Cabeca Jr, portugues que esteve emigrado em Nova Iorque durante a queda das Torres Gemeas, em 2001, e que trouxe para Portugal uma peça proveniente dos destroços do atentado. Actualmente, a peça encontra-se numa quinta onde organiza casamentos, baptizados e outros eventos.