Escolha as suas informações

O fim da inocência
Opinião Mundo 3 min. 07.09.2021
11 de Setembro

O fim da inocência

11 de Setembro

O fim da inocência

Foto: Preston Keres/U.S. Navy
Opinião Mundo 3 min. 07.09.2021
11 de Setembro

O fim da inocência

Hugo GUEDES PINTO
Hugo GUEDES PINTO
Claro que quem já era adulto há 20 anos se lembra do que estava a fazer a 11 de Setembro de 2001; a catástrofe mudou o mundo em que vivemos como nenhuma outra na última geração.

Devia ser um pouco antes das duas da tarde. Tinha acabado de almoçar no "Good Friend" e, em vez de ir aproveitar aquela linda terça-feira de verão luxemburguês tardio, voltei relutantemente ao escritório para prosseguir a rotina diária. Apenas tive tempo de sentar-me à secretária quando um amigo me avisou: Nova Iorque blá blá, parece que acidente ou ataque blá blá. 

Vamos voltar ao café para ver se encontramos uma TV, vens? Eu fui. Devastado, não consegui olhar para o ecrã por muito tempo, mas ao fim do dia fui a uma loja de móveis e comprei um cadeirão para a sala de estar. Não sei se na contradição há alguma mensagem subconsciente.

Claro que quem já era adulto há 20 anos se lembra do que estava a fazer a 11 de Setembro de 2001; a catástrofe mudou o mundo em que vivemos como nenhuma outra na última geração. Foi aquele dia ensolarado em que perdemos a despreocupação e a inocência, chamados brutalmente à terra e acordando para as realidades implacáveis da vingança e do medo.

Mas será que vivíamos mesmo nas nuvens?

Por outras palavras, é possível que os aviões da Al-Qaeda se tenham materializado a partir do nada? Fui pesquisar as edições do jornal Público dos dias imediatamente anteriores aos atentados para tentar perceber o que nos consumia há duas décadas. A melhor resposta que posso dar é: quase o mesmo que hoje em dia – e isso não são boas notícias.


Former 9/11 ground zero cleanup worker Rubiela Arias demonstrates the use of a Continuous Positive Airway Pressure (CPAP) device that she uses, following the diagnosis of breating dificulties associated with her work in the wake of the September 11, 2001 World Trade Center attacks, at her home in the Queens borough of New York on May 27, 2021. - Arias, who has been fighting for years for the legalization of the Hispanic workers who cleaned up "the giant cemetery" at Ground Zero, has since suffered from various respiratory and stomach illnesses, as well as post-traumatic stress, among other mental ailments. For eight months after the attacks, tens of thousands of people -- many of them immigrants -- cleaned Ground Zero and nearby damaged buildings. They removed 1.8 million tons of rubble from the area and were paid between $7.50 and $10 an hour, just above the minimum wage at the time. They didn't know it then but the exposure to asbestos and other toxic materials exposed them to the risk of cancer, asbestosis and a host of respiratory illnesses, as well as post-traumatic stress, anxiety and depression. (Photo by Ed JONES / AFP)
É possível limpar o terror?
Milhares de imigrantes trabalharam nas limpezas dos destroços dos ataques ao World Trade Center, em 2001. Dizem-se esquecidos mas as marcas - físicas e psicológicas - permanecem.

Os títulos do internacional mantêm-se atuais: "Hamas reivindica triplo atentado na Palestina e Israel riposta"; "Jihad islâmica ataca autocarro escolar"; "EUA condenam violência sem sentido no Médio Oriente"; "Lukashenko ignora protestos nas eleições bielorrussas". Na economia há indignação quanto à "Fuga de capitais para paraísos fiscais". Na política, o PSD, na oposição, pedia a demissão do ministro da cultura, enquanto o PCP bramava na Festa do Avante contra as "imposições de Bruxelas" e o governo PS recorria a uma manobra política para aprovar o orçamento de Estado. 

Não podiam faltar os incêndios, "ainda activos em cinco distritos" – em Tondela há bombeiros feridos, em Silves há casas perdidas. No capítulo epidemias, "Surgem novos focos de infecção por febre aftosa no Reino Unido". No desporto, o Boavista aterrava em Liverpool para defrontar os 'reds' na Liga dos Campeões. Não falta sequer uma espécie de arrepiante pré-aviso da emergência climática, na forma do plano hidrológico espanhol "que ameaça secar os rios portugueses".

Talvez tenhamos aprendido algo, mas não é fácil descortiná-lo. 20 anos depois, todos os problemas referidos acima se agravaram, e até o Boavista seria certamente incapaz de repetir o empate conseguido em Anfield nessa noite em que o mundo desabou. Claro que nem é preciso recordar que a tudo isto ainda adicionámos adversários formidáveis como a devastação dos ecossistemas, a(s) pandemia(s) alienantes ou as redes sociais estupidificantes.

Não ficamos nada bem na fotografia. O fim da inocência não trouxe sobriedade nem vontade de arrepiar caminho e 20 anos depois, o mundo nem mudou assim tanto; está parecido – só mais perigoso, mais inseguro, mais incerto, mais queimado, mais poluído, mais desigual, mais injusto, mais doente e mais exausto. É caso para perguntar que catástrofe será necessária para a tendência finalmente virar.

(Este autor escreve de acordo com o antigo Acordo Ortográfico).

Siga-nos no Facebook, Twitter e receba as nossas newsletters diárias.