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100 anos do Partido Comunista Chinês. Rumo ao império do algoritmo nascente

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100 anos do Partido Comunista Chinês. Rumo ao império do algoritmo nascente

100 anos do Partido Comunista Chinês. Rumo ao império do algoritmo nascente
China

100 anos do Partido Comunista Chinês. Rumo ao império do algoritmo nascente


por Nuno RAMOS DE ALMEIDA/ 06.07.2021

Foto: AFP

Ao celebrar o 100º aniversário, será que o Partido Comunista Chinês (PCC) se tornou capitalista? Quarenta anos após as reformas de liberalização económica de Deng Xiaoping, mais de 800 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza, e o Estado-partido lidera agora a segunda maior economia do mundo, com 18% do Produto Interno Bruto (PIB) global.

 A série televisiva com maior sucesso nos lares na China, nas últimas décadas, é a história de um combatente comunista, chamada "Assim Foi Temperado o Aço", baseada no romance autobiográfico do soviético Nikolai Ostrovski. O herói do livro desaparece prematuramente, como o escritor, que morreu aos 32 anos, cego e paralítico devido aos inúmeros ferimentos causados na guerra civil russa. Ostrovski é autor do romance célebre do realismo socialista "Assim Foi Temperado o Aço", e o seu Pavel é uma espécie de alter ego do autor. 

Até ao fim não desiste de viver. Um romance a preto-e-branco em que lutam, vivem e morrem bons e maus, sem margem para nuances. Sobre o sentido da existência, o escritor soviético escreveu: "A vida é aquilo que de mais valioso um homem possui, só lhe é dada uma vez e há que saber vivê-la de modo que no final dos dias não se sinta o pesar pelos anos passados em vão, para que não haja angústia sobre os anos perdidos e seja possível dizer no momento da morte ´toda a minha vida e todas as minhas forças foram dada à causa mais nobre deste mundo, a luta da libertação da humanidade".

Em 2002, há quase 20 anos, pediu-se a estudantes universitários chineses, num inquérito sociológico, que escolhessem um modelo de herói para as suas vidas. A lista estava circunscrita a dois nomes extremados. Dela constavam o milionário Bill Gates e a personagem de Ostrovski, o proletário e combatente da cavalaria vermelha Pavel Korchagin. Verificou-se um empate na resposta sobre quem seria o herói ideal para os jovens: 45% para o comunista e 45% para o milionário. Já quando se inquiriu sobre quem tomariam como modelo de vida, os estudantes universitários chineses deram a maioria ao capitalista: 44% escolheram Gates, 27% ambos, e apenas 13% optaram pelo comunista.

É preciso realçar que a presença de um herói de ficção nessa sondagem chinesa se explica devido a uma situação particular. Um dos maiores êxitos de sempre da televisão chinesa é uma série baseada no "Assim Foi Temperado o Aço", realizada em 2000. Um produto de sucesso, rodado na Ucrânia, com loiríssimos actores locais, propriedade da empresa privada Shenzhen, e difundida por uma televisão chinesa nominalmente comunista. A série retrata um herói comunista com algumas diferenças assinaláveis em relação ao livro em que se baseia. Pavel bate-se contra os excessos de violência no Exército Vermelho e casa-se com a sua amada Tónia. A burguesa é a primeira paixão de Pavel no livro. Nas páginas, a revolução separa-os, na série televisiva, esse final é reescrito.

As séries e a cultura popular expressam as características de uma sociedade e as suas formas de poder. A sociedade chinesa está, nas últimas décadas, dividida entre uma fraseologia comunista e uma economia tecnológica cada vez mais capitalista.

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A longa marcha do Partido Comunista da China
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Ao celebrar o 100º aniversário, será que o Partido Comunista Chinês (PCC) se tornou capitalista? Quarenta anos após as reformas de liberalização económica de Deng Xiaoping, mais de 800 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza, e o Estado-partido lidera agora a segunda maior economia do mundo, com 18% do Produto Interno Bruto (PIB) global. A introdução da economia de mercado e a aceleração do crescimento foram acompanhadas de um aumento exponencial da desigualdade - o coeficiente de Gini, que mede a extensão da desigualdade, aumentou 15 pontos entre 1990 e 2015 (as últimas estatísticas conhecidas).

Apesar das medidas de contenção e prevenção da Covid-19 sem precedentes, que afetaram a atividade no início de 2020, o número de bilionários em dólares aumentou na China, no ano passado, segundo o ranking da unidade de investigação Hurun Report Inc, que publica anualmente uma lista dos mais ricos da China. O país asiático somou mais 253 bilionários e domina amplamente o ranking mundial, com um total de 992 bilionários.

Os Estados Unidos estão em segundo lugar, com 696 bilionários, mas as três maiores fortunas do mundo continuam a ser norte-americanas e francesas: Elon Musk (chefe da Tesla), seguido por Jeff Bezos (Amazon) e Bernard Arnault (LVMH). O agora homem mais rico da China é o chefe da empresa de água engarrafada Zhong Shanshan. A sua fortuna está estimada em 85 mil milhões de dólares (70,71 mil milhões de euros).

Até os desportistas, que eram uma espécie de heróis da sociedade, se têm de adaptar à vida numa comunidade com muitos novos ricos. Desde há uns anos, muitos ex-atletas ou esportistas que não conseguem integrar a delegação chinesa aos campeonatos mundiais e olimpíadas descobriram um filão profissional mais duradouro para suas habilidades físicas. Juntaram-se às inesgotáveis fileiras e foram povoar a miríade de centros de treino para guarda-costas que brotaram, que nem cogumelos, pela China.

Vista aérea de Xangai, a maior cidade e um dos centros financeiros da China.
Vista aérea de Xangai, a maior cidade e um dos centros financeiros da China.
Foto: AFP

Dado que um terço desses novos-ricos é de mulheres, a procura de guarda-costas do sexo feminino foi a que mais cresceu, com grandes listas de espera em quase todas as 3 mil empresas de segurança pessoal que operam no país. Treinadas para deixar ko assaltantes, mesmo quando estão de saltos altos e enfiadas num insuspeito vestido, as amazonas chinesas têm dado conta do recado. Para os milionários, andar escoltados por guarda-costas femininas chama menos a atenção, pois a '007' poderia ser confundida com uma assessora ou secretária-executiva.

O treino das futuras guarda-costas costuma ficar a cargo de ex-membros dos serviços especiais das Forças Armadas, e é duro. Uma das academias visitadas por jornalistas estrangeiros, a Yun Hai Elite Security, instalada num armazém próximo do aeroporto de Pequim, funciona seis dias por semana, das 6:00 às 22:00, e mesmo a recruta recém-chegada costuma ter oferta de emprego garantida. "Para muitos milionários e celebridades chineses, ter uma escolta feminina tornou-se quase uma questão de prestígio", explica a gerente da Yun Hai.

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Do comunismo ao capitalismo de Estado?
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O Partido Comunista Chinês (PCC) foi fundado em julho de 1921 numa pequena sala no distrito de Xangai – então controlado pela França – com apenas 13 pessoas presentes, de acordo com a história oficial. Hoje, tem mais de 95 milhões de membros, quase 7% da população do país.

O Presidente do país, líder do Comité Militar e secretário-geral do PCC, Xi Jinping, tem todos os motivos para proclamar o papel do partido. Em 2020, 2,43 milhões de chineses aderiram às fileiras do PCC, o maior aumento anual desde que Xi chegou ao poder, em 2013. Este ano, o crescimento deverá ser ainda maior. Só nos primeiros seis meses de 2021, 2,31 milhões de chineses aderiram ao partido.

O Partido Comunista Chinês dirige a segunda potência económica do mundo, que as projecções garantem que ultrapassará, nas próximas décadas, os Estados Unidos da América. Há muito que o PCC deixou de ter uma maioria de militantes operários e camponeses, e o modelo económico que construiu está longe dos conceitos de Lénine e Marx sobre o que é o socialismo.

As mudanças encorajaram o crescimento do sector privado, mas o Estado mantém o controlo directo sobre uma grande parte da economia - o sector público representa cerca de 30% desta - fazendo da China um caso exemplar de capitalismo de Estado. Além disso, o PCC conseguiu cooptar um grande número de elites desta economia liberalizada. Embora a ideologia comunista já não estruture o seu recrutamento, a preocupação do partido dominar a economia permanece no centro da relação entre o Estado e o capital.

Unidade de produção de molho de soja, na China.
Unidade de produção de molho de soja, na China.
Foto: Zhou Zhiyong/Sipa Asia

No início dos anos 2000, o então presidente Jiang Zemin levantou a proibição de recrutamento de empresários do setor privado, anteriormente vistos como inimigos de classe, para que o PCC deixasse de representar apenas as classes "revolucionárias" - trabalhadores, camponeses e militares - mas também as "forças produtivas avançadas" do país.

Os homens e mulheres de negócios, assim seleccionados, tornam-se membros da elite política, o que garante que os seus negócios são, pelo menos parcialmente, protegidos. O seu alistamento acelerou-se sob o Presidente Xi Jinping (a partir de 2013), com o objectivo de formar "um grupo de indivíduos pertencentes ao mundo empresarial e determinados a marchar com o partido".

Resultado: o PCC tornou-se rapidamente cada vez mais elitista. Já em 2010, "os profissionais e gestores com formação superior" igualaram o número de camponeses e trabalhadores. Dez anos mais tarde, ultrapassaram-nos, formando 50% dos membros, enquanto menos de 35% dos trabalhadores e camponeses são membros.

Embora "trabalhar para o comunismo" tenha sido uma das principais razões para aderir ao partido durante a era maoísta (1949-1976), as motivações actuais são mais pragmáticas, tratam-se principalmente de facilitar o avanço profissional. Os cursos de formação interna oferecidos mostram que o próprio Partido se apresenta como uma estrutura de gestão inspirada no neoliberalismo, visando uma gestão eficiente da população e da economia.

Foto: AFP

A partir dos anos 70 do século passado, a classe dirigente chinesa colocou gradualmente os mecanismos capitalistas no centro da economia política. Para eles, só um novo contrato social baseado na promessa de prosperidade pode garantir a restauração do poder chinês e a continuação do Partido. A contrapartida é o abandono da luta de classes como método de dominação. Em 2002, com a teoria das "três representatividades", é necessário, para além dos interesses dos trabalhadores e dos intelectuais, respeitar os dos empresários, que criam crescimento, emprego, e assim reforçar o poder nacional. Numa China ainda socialista, eles não podem ser exploradores. O país é assim uma sociedade sem classes, composta por "rendimentos médios", em que todos devem contribuir para a felicidade e a grandeza nacional. É claro que o Partido tem inimigos, mas eles são apenas os inimigos da nação.

Apesar das falhas e erros, a China não só se tornou uma potência económica e militar, como também permitiu que uma grande parte da população satisfizesse a sua aspiração de entrar na sociedade de consumo. Hoje em dia, as expectativas e o estilo de vida do chinês médio não são muito diferentes das de um cidadão da União Europeia. Claro que o PCC explica, curiosamente auxiliado pelos meios de comunicação internacionais, que os "valores chineses" se opõem aos "valores ocidentais", mas dificilmente o demonstra. A "sociedade harmoniosa" ou o "sonho chinês" limitam-se a combinar referências que são, em suma, banais. 

Um cidadão exercita-se na rua, em Pequim, capital chinesa.
Um cidadão exercita-se na rua, em Pequim, capital chinesa.
Foto: AFP

Um Estado forte, mas administrado por lei; "boa governação", segundo a gestão clássica (burocracia eficiente, prevenção de conflitos, etc.); acompanhados com a antiga, e também ocidental, ideia de felicidade colectiva. Quanto ao "pensamento, Xi Jinping" recorre ao Leninismo ("preservar a liderança do Partido sobre todas as organizações"); ao Iluminismo (promover a ciência, "criar uma comunidade de destino para a humanidade"); ao discurso humanista (melhorar a vida e o bem-estar das pessoas); ou a ideias comuns a todas as nações de hoje ("viver em harmonia com a natureza").

Longe de ter traído, o PCC permanece fiel a dois princípios. Por um lado, mantém o mito de uma sociedade sem classes; por outro, recusa-se a abandonar a ideia de uma fusão entre os interesses da nação e do Partido. Evidentemente, não se trata de criar uma sociedade igualitária, mas de permitir a toda a população alcançar uma "pequena prosperidade". Não importa se a diferença de rendimentos é abismal, desde que todos possam alcançar um nível razoável de conforto, e a pobreza desapareça. Para uma grande parte da população, este objectivo justifica (por enquanto) a predominância dos interesses nacionais e a unidade sobre tudo o resto.

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"Não voltaremos a ser escravos dos estrangeiros"
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A legitimidade do PCC começa por se fundar na História da China moderna e na vitalidade do nacionalismo chinês. Na proclamação da República Popular da China, no dia 1 de outubro de 1949, na Praça Tiananmen em Pequim, Mao Tse-Tung garantiu: "O povo chinês ergueu-se. (…) A nossa nação não voltará a ser humilhada (…) Os chineses nunca mais voltarão a ser escravos".

No ponto alto do seu discurso, o actual líder do partido, Xi Ji Peng, assinalou a continuidade no local, na indumentária escolhida, e na reafirmação da ideia de Mao em novas circunstâncias, dizendo em tom resoluto que o povo chinês nunca permitirá que poderes estrangeiros o intimidem, oprimam e escravizem.

"Todo aquele que se ilude a intimidar a China terá sangue a fluir da sua cabeça partida ao bater na Grande Muralha de aço construída com a carne e o sangue de 1,4 mil milhões de chineses", afirmou, numa imagem que fez correr muita tinta.

Estas imagens violentas têm de ser entendidas a partir das referências da própria cultura chinesa. "Sangue a fluir da sua cabeça partida" é, segundo Calebe Guerra, doutorando em Literatura Clássica Chinesa pela Universidade de Wuhan, citado pelo Público, "uma figura que remete a um capítulo do grande romance chinês 'A Viagem para Ocidente', escrito em meados do século XVI por Wu Chengen. No episódio em questão, o personagem Sun Wokong, mais conhecido como Rei Macaco, faz um apelo pela vida de monges budistas a um maldoso líder taoísta que os prendeu e os obrigou a trabalhar como escravos. No pedido, Sun Wokong diz que os monges são seus parentes queridos, mas o vilão só aceita libertar um deles, decisão que não agrada ao Rei Macaco".

"Num ímpeto heróico, Sun Wokong liberta todos os 500 monges do tirano ao bater no vilão com seu bastão mágico dourado", daí o "sangue a fluir da sua cabeça partida. A linguagem é forte, mas o contexto é o de libertar da opressão", garantiu.

Foi nesse tom de desafio aos países do Ocidente, que colocam a China como a maior ameaça à paz no planeta, que Xi Jinping discursou perante 70 mil pessoas em Pequim, durante o culminar dos festejos do centenário do PCC. Xi deixou avisos aos adversários do regime, prometeu a reunificação com Taiwan e proclamou a proeminência do partido e a sua invencibilidade.

Com Xi, no poder desde 2013, nada é deixado ao acaso e os pormenores contam. Vestido com o fato idêntico aos do "grande timoneiro", o líder discursou durante mais de uma hora de costas para os Portões da Paz Celestial, na Praça Tiananmen, o local onde Mao Tsé-Tung proclamou a República Popular da China.

O secretário-geral relembrou os primórdios da fundação do PCC, em Xangai, há cem anos, para elogiar o seu trabalho na eliminação do "sistema de exploração feudal que persistiu durante milhares de anos na China" e para anunciar que os objectivos de construir uma "sociedade moderadamente próspera" e sem pobreza foram atingidos. "O povo chinês é bom não apenas a destruir o mundo antigo, mas também a construir um novo mundo", declarou Xi, para acrescentar que "apenas o socialismo pode salvar a China, e apenas o socialismo com características chinesas pode desenvolver a China".

Esta ideia de "sociedade moderadamente próspera", antes do socialismo, vai buscar mais às tradições milenares chinesas que ao marxismo revolucionário. "Xiaokang Shehui" (sociedade moderadamente próspera) é um estado social que antecede a comunidade utópica que os confucionistas sonharam no século VI a.C., presente no "Livro Dos Ritos". Procurar na história da China, nos mitos do seu povo e nos clássicos dos seus intelectuais antigos a fundação da lenda, como o cumprimento de um sonho da civilização chinesa - e o seu cume - é algo que o líder do Partido Comunista Chinês está sempre a fazer.

Num discurso cheio de avisos dirigidos a adversários nunca nomeados, Xi quis deixar bem clara a posição hegemónica do PCC na sociedade, na política, na economia e na cultura da China. O partido é "a coluna vertebral do país", afirmou, pelo que "o êxito da China depende do partido".

Presidente chinês, Xi Jinping, no discurso à nação nos 100 anos do Partido Comunista Chinês, transmitido na Praça Tiananmen, na capital chinesa, a 1 de julho.
Presidente chinês, Xi Jinping, no discurso à nação nos 100 anos do Partido Comunista Chinês, transmitido na Praça Tiananmen, na capital chinesa, a 1 de julho.
Foto: AFP

Nunca terá sido tão cerrado o controlo do partido sobre a sociedade. Graças à inteligência artificial, os cidadãos estão sujeitos a uma vigilância electrónica, a que jocosamente chamam Big Brain, mas que maioritariamente aceitam, encontrando nela aspectos positivos. Xi reforçou também as medidas de vigilância e prevenção de tendências de pensamento “politicamente incorrectas”, tal como pune magnatas, como Jack Ma, um dos homens mais ricos da China e dono de uma das empresas mais poderosas da Internet, a Alibaba, para mostrar que é o partido que comanda. O combate à corrupção, uma causa muito popular, terá também servido para afastar putativos adversários políticos e alguns dos mais poderosos e ricos empresários e magnates chineses.

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O 'Go' mudou tudo, rumo a um poder dirigido pelos computadores
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O 'Go, Weiqi ou Baduk' é um jogo estratégico para tabuleiro em que dois jogadores posicionam alternadamente pedras pretas e brancas. Sua origem remonta à antiga China, há cerca de 2.500 anos.

Quando o computador Deep Blue derrotou Kasparov em 1997, disseram que conseguiu calcular um número finito de possibilidades sujeito a um número finitos de regras. Mas afirmava-se que o mesmo propósito era impossível com o jogo chinês Go. O xadrez é jogado num tabuleiro de 8x8 e o número de permutações (o conceito de permutação expressa a ideia de que objetos distintos podem ser arranjados em inúmeras ordens diferentes) possíveis é superior a 64; enquanto no Go, cada movimento tem uma ordem superior a 400 permutações. O tabuleiro de Go tem 19 por 19 linhas, as suas regras explicam-se em apenas nove frases, mas o número de posições possíveis no tabuleiro excedem o número de átomos no Universo.

Em março de 2016, o sul-coreano Lee Sedol, 16 vezes campeão do mundo de Go, foi derrotado pelo computador Alpha Go. A associação Baduk da Coreia outorgou ao computador e ao seu algoritmo a categoria de 9 dan, a máxima que um jogador profissional pode receber.

Em 2017, a máquina derrotou o chinês Ke Jie, considerado o melhor jogador da história do Go. No espaço de um ano, o salto qualitativo que a máquina deu a jogar contra si própria foi tão significativa que passou de uma categoria de 9 dan para 20 dan.

O Teorema do macaco infinito afirma que um macaco digitando aleatoriamente em um teclado por um intervalo de tempo infinito irá quase certamente criar um texto qualquer, como por exemplo a obra completa de William Shakespeare foi negado. A situação é que já nem sequer um número infinito de chineses a jogar um número infinito de partidas poderá ganhar uma só vez ao Alpha Go.

Durante mais de 2.000 anos, todos os mestres de Go ambicionavam jogar uma partida perfeita, em que cada uma das jogadas fosse perfeita, chamavam-lhe "a mão de Deus". Hoje esse sonho foi concretizado por uma máquina, que nem sequer é chinesa, e que é pertença de uma empresa comprada pela Google.

Este foi segundo o investigador de Inteligência Artificial Kai-Fu-Lee, o "momento Sputnik" que impressionou as autoridades chinesas e que as levou a investir na inteligência artificial, fazendo que em dois anos se tornassem uma potência mundial na área.

Em 2020, sob o lema: "os bons cidadãos caminharão livres debaixo do sol e os maus não poderão sequer dar um passo", entrou em vigor um sistema de crédito social na China, conhecido como Sesame Credit. Todos os cidadãos começam com o mesmo crédito e aumentam e diminuem segundo o seu comportamento. Roubar, comer no metro, urinar na rua, fazer batota nos videojogos, não pagar faturas, dizer mal do governo num chat privado, são algumas coisas que podem retirar créditos.

Tudo o que se faz é controlado por um gigantesco dispositivo electrónico contando com mais de 400 milhões de câmaras dispondo programas de reconhecimento facial. Em Pequim, um cidadão que ultrapasse um sinal vermelho pode ser multado e ver-lhe retirado o respetivo dinheiro da sua conta, instantaneamente. Também há ações que aumentam o crédito social como dar sangue, tirar boas notas, fazer voluntariado, são algumas delas.

Quem tem más classificações, o "mau cidadão", perde acesso aos serviços públicos, a empregos e compra de casa, fica sem a possibilidade de contrair créditos e até impedido de ir a concertos ou viajar nos transportes públicos. Já os cidadãos bem classificados podem ter prioridade nos hospitais, descontos especiais, promoções profissionais e até têm mais hipóteses de serem bem classificados no Tinder chinês, para poderem ter acesso a mais raparigas.

O partido diz em sua defesa, que pelo menos o seu sistema de classificação é transparente e igual para todos, e que no resto do mundo há muito que os algoritmos classificam as pessoas, mas que essas regras são opacas e desconhecidas pelo cidadão comum.    

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A primeira visita à China (há quase duas décadas) proporcionou-me, obviamente, umas quantas surpresas interessantes. Uma delas foi a comida – deliciosa, variada e saudável –, outra a ausência de arquitectura tradicional em Pequim; tudo, ou quase tudo, é novo.