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Xavier Bettel: “Dou-me bem com Wiseler, mas tenho de ver o programa do CSV”
Luxemburgo 11 min. 29.08.2018

Xavier Bettel: “Dou-me bem com Wiseler, mas tenho de ver o programa do CSV”

Xavier Bettel - Photo : Pierre Matgé

Xavier Bettel: “Dou-me bem com Wiseler, mas tenho de ver o programa do CSV”

Xavier Bettel - Photo : Pierre Matgé
Pierre Matgé
Luxemburgo 11 min. 29.08.2018

Xavier Bettel: “Dou-me bem com Wiseler, mas tenho de ver o programa do CSV”

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Na política de alianças para as eleições de 14 de outubro, o atual primeiro-ministro não exclui coligação com os cristãos-sociais, mas sublinha a boa relação pessoal com os cabeças de lista de socialistas e verdes.

Não existe uma contradição entre o slogan do partido para estas eleições legislativas [“Zukunft op Lëtzebuergesch”, ou seja, O futuro em luxemburguês] e as ideias que o DP tem defendido acerca do multilinguismo e do multiculturalismo inclusive do que justificou a convocação do referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros em 2015?

Quando falamos sobre o Luxemburgo há quem queira colocar-nos num canto como se disséssemos que tem de ser tudo em luxemburguês, mas não é disso que se trata – é do modelo luxemburguês que significa viver todos juntos. Há quem diga que devemos ter menos multiculturalismo e mais cultura luxemburguesa, mais de luxemburguês e menos de diversidade. Isso é falso e o que diz o meu partido é que ambos são necessários, mas não devemos dizer que o luxemburguês não é importante, é uma língua de integração. O multilinguismo é também uma oportunidade e devemos ter um e outro e não um ou o outro. É este o modelo luxemburguês que tem funcionado até agora, somos invejados no mundo inteiro porque falamos várias línguas; invejam-nos o modelo social que funciona. O que queremos com o futuro em luxemburguês é este modelo: vida em conjunto, ter um e o outro, respeitar, não dizer que é um contra o outro e sim que é um com o outro.

Não é uma tentativa de chegar a um eleitorado mais amplo e mais conservador que vota em partidos de extrema-direita, obcecados com a identidade nacional?

Se não mostro interesse pela identidade nacional estou a alimentar a extrema-direita. Ao contrário, o que pretendo é afirmar que existe a identidade nacional e o multilinguismo, existe a cultura luxemburguesa e o multiculturalismo. E esta mistura é a identidade nacional. Há dez anos, quando se falava em aprender luxemburguês como língua de integração, as pessoas brincavam. E nunca como agora houve tanta gente a aprender o idioma. Percebeu-se que era importante aprender a língua e repito: não se trata de um modelo contra o outro, não concordo que um seja mais importante do que o outro ou que se deva promover um em detrimento do outro, mas é importante preservar a tradição e a cultura luxemburguesa e também internacional. É isso que nós somos, trabalhamos o ferro e também exploramos minério no espaço, temos tudo isso. É fulcral ter orgulho nas origens e nelas existe também esta diversidade.

Foto: Pierre Matgé

O país está muito perto de ter mais de metade da população estrangeira. Muitos chegam aqui já com 40 ou 50 anos, falando diversos idiomas, entre os quais francês ou alemão, falados por milhões em vários pontos do mundo, mas acabam confrontados com a necessidade de aprender luxemburguês. Não seria mais lógico permitir-lhes optar por uma dessas linguas como sendo a de integração?

Há pessoas que chegam aqui para trabalhar durante dois ou três anos e outras que vêm para viver. No caso destes últimos, caso não falem luxemburguês, estarão a autoexcluir-se. Por exemplo, a minha mãe tem 75 anos [francesa de origem russa], vive cá há cerca de 45 e está em cursos de luxemburguês, porque entendeu a importância de aprender. Quem viva aqui e queira participar mais na sociedade terá a vida facilitada com o domínio do idioma.

E as outras línguas estão bem asseguradas pelo sistema educativo?

Sim, mudámos o sistema porque entendemos que, como havia muitas coisas em alemão, os latinos teriam mais dificuldades na escolaridade clássica. Por isso temos alfabetização noutras línguas e damos as mesmas oportunidades a cada cidadão. A origem dos pais, seja social ou linguística, não deve ser um fator de privação ou favorecimento de oportunidades.

Voltando ao referendo sobre o direito de voto dos estrangeiros, isso pode tornar a ser abordado, uma vez que estes não podem contribuir para a escolha do governo?

Podem, através da lei da nacionalidade...

Sim, mas isso demora tempo...

Certo, mas alterámos as regras e o processo tornou-se mais simples. Organizámos um referendo transparente e os luxemburgueses foram claros a dizer não. E não foi um resultado equilibrado, foi de 80 contra 20%. Sou um democrata, portanto, respeito a sua decisão. Logo, não será um tema que eu proponha numa próxima legislatura.

Foto: Pierre Matgé

Dado o peso da comunidade portuguesa no país, por que razão existe apenas uma candidata lusófona [Mónica Semedo] nas listas do DP?

Para ser franco, não olho para as origens dos meus candidatos, sejam nomes lusófonos, italianos ou outros. Têm a nacionalidade luxemburguesa, querem empenhar-se na vida do país onde vivem, tanto posso ter um como cinco, não importa.

Se definisse uma lista com prioridades do DP nestas eleições, quais seriam os temas?

Queremos continuar a aposta na política da família que alterámos para haver maior flexibilidade na vida familiar. Mudámos a licença parental para que esta fosse também mais flexível e houvesse a possibilidade de estar junto das crianças por um período mais longo. Trata-se de temas que vamos continuar a negociar com o patronato no futuro. Também é fundamental manter uma situação financeira estável como a que temos para investir em infraestruturas, porque nunca tivemos tanto investimento neste setor. E, nos próximos cinco anos, vai ser muito importante, por um lado, garantir a coesão, não apenas social com a participação das pessoas, mas económica – prosseguindo o crescimento de forma sustentável. Devemos deixar de falar em modelos de transportes e sim fazê-los; sinto-me satisfeito porque, nesta legislatura, avançámos muito no setor e é preciso continuar.

Foto: Pierre Matgé

Mas, ao contrário do LSAP, vosso parceiro na atual coligação, não defende a redução do horário de trabalho: porquê?

O meu princípio é que, trabalhando menos, ganha-se menos, chamo a isto flexibilidade. Em termos económicos, na atualidade, não podemos permitir-nos pagar 40 horas e trabalhar 35. Estamos a sair de uma crise, a economia está a portar-se bem, mas não sou a favor da redução do horário de trabalho.

O CSV defende a ideia de colocar de lado um montante para fazer face a uma próxima crise: concorda?

Não percebo muito bem aquilo que pretende o CSV, quantas rotundas quer fazer, quantas linhas do elétrico, querem resolver o problema da habitação e baixar os impostos, não sei como tudo isto se conjuga e como pretendem fazer tudo. São precisas escolhas e, por exemplo, travámos uma tendência de despesas do governo anterior, garantindo um fundo inter-geracional que deve continuar e estará disponível para as próximas gerações.

A habitação é sempre um problema aqui e estão propostas mais medidas para o combate à especulação. Mas, perante as dificuldades de quem chega, não deveriam existir mecanismos legais que forçassem, por exemplo, os proprietários a pagar a comissão às agências ou a fixação de um teto para as rendas?

Não são as comissões de agência que vão mudar os preços, o problema é que existe demasiada procura na habitação, por isso devemos começar por aumentar a oferta. E isso pode fazer-se emconjunto com as comunas, existindo já exemplos de milhares de habitações cuja existência vai ser importante no futuro. Escandalosas são algumas situações de terrenos que, tendo para isso condições, estejam sem construção durante 20 ou 30 anos. A situação depende das comunas e da vontade das pessoas e, também, de impostos que aumentem todos os anos para encorajar as pessoas a agir. Sobretudo é preciso incentivar as iniciativas privadas na construção de habitações.

Foto: Pierre Matgé

Qual é a posição do DP quanto ao tiers payant [fim do pagamento antecipado de consultas]?

Fazemos parte daqueles que disseram que não se pode desresponsabilizar totalmente os pacientes, mas também devemos ter consciência de que, para alguns deles, é duro pagar algumas faturas de centenas de euros aos médicos. Porém, estes não são funcionários, são profissionais liberais não pagos pelo Estado, mas em função da sua profissão. Procuramos outras soluções como, por exemplo, através do cartão do paciente, pagando-se a diferença com recurso a este ou a um cartão de crédito. Devemos analisar o assunto sem meter tudo no mesmo saco.


Qual é a política de alianças do DP?

O que pretendo é continuar a minha política, não é uma questão de pessoas, porque tenho excelente relação com os socialistas e com os verdes, além de me dar muito bem, no plano pessoal, com Étienne Schneider e com Félix Braz. Mas tudo se joga em termos de programas e, por exemplo, se os socialistas dizem que é preciso reduzir o horário de trabalho para 35 horas semanais, ter mais uma semana de férias e por aí fora, para mim haverá dificuldades. É uma questão de vontade política, trata-se de um plano para os próximos cinco anos, é preciso conversar, depois da escolha dos eleitores, mas, por exemplo, não conheço ainda o programa do CSV que está a apresentá-lo por fases, é preciso ver o que pretendem. Só depois posso dizer, no plano político, aquilo que é ou não possível. Em termos humanos, também gosto muito de Claude Wiseler, dou-me bem com ele, é alguém com quem trabalhei na cidade do Luxemburgo, ele como vereador, eu como conselheiro municipal em 1999, entendemo-nos muito bem no plano pessoal. Mas é preciso ver o programa e o projeto político. Em 2013, na noite das eleições antecipadas na sequência do escândalo com as escutas, os cristãis-sociais telefonaram-me a dizer que no dia seguinte falaríamos sobre o que teriam para mim. Ou seja, a vontade de trabalharmos juntos e o respeito não existiam desde o início. Foi como se dissessem: ’miúdo, amanhã dizemos-te o que vais receber’. É importante, portanto, que haja questões de confiança, respeito e querer que as coisas avancem. E eu sabia que, numa coligação com os cristãos-sociais, teria sido muito duro fazer algo avançar.

Xavier Bettel - Photo : Pierre Matgé
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O CSV já avisou que, caso seja governo, pretende alterar a nova lei do divórcio...

Até certo ponto estou disponível para discutir. Mas se envolver temas como a licença parental, o multilinguismo, a separação entre a Igreja e o Estado, mudar a lei do aborto, que era terrível, leis que considero importantes para o meu país, se for para recuar em tudo isto, não contam comigo.

Nas diversas alterações de leis com este governo, a sua situação pessoal teve influência?

Se fazemos política é para ter uma sociedade onde nos sentimos melhor e, se puder continuar como primeiro-ministro, será uma alegria continuar a minha política. Criticaram-me pela separação entre a Igreja e o Estado, mas, embora não seja praticante, sou crente. Quis, por exemplo, que a festa nacional não fosse apenas uma cerimónia religiosa e militar, mas sim uma civil que chamasse mais pessoas à participação e celebrasse esta sociedade.

O Freeport tem gerado polémica com a União Europeia e a eurodeputada portuguesa Ana Gomes já considerou mesmo o Luxemburgo como um grande paraíso fiscal. Não deveria encerrar-se o Freeport?

Não foi este governo que criou a estrutura, mas esta já estaria fechada se não respeitasse as regras internacionais. É o Parlamento Europeu que tem suscitado dúvidas sobre o assunto e, se houver alguma coisa contrária à lei, serei o primeiro a pedir que seja fechado. Mas está em conformidade segundo os responsáveis pela fiscalização.

Foto: Pierre Matgé

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