Voto de guerra esteve na origem do santuário

Portugueses e luxemburgueses "não conhecem história" de Fátima de Wiltz

A irmã Anne-Thérèse tem 90 anos e é uma das últimas sobreviventes do grupo de luxemburgueses que prometeu construir o santuário de Fátima em Wiltz, na Segunda Guerra Mundial. Com a chegada dos portugueses, nos anos 1960, iniciou-se uma peregrinação que todos os anos atrai milhares de portugueses, e que vai contar este ano com a presença de Marcelo Rebelo de Sousa. Para a freira carmelita, que tem uma "grande simpatia pelos portugueses", é um motivo de "orgulho".

A freira carmelita Anne-Thèrese é uma das últimas sobreviventes do grupo de luxemburgueses que prometeram construir o santuário de Fátima em Wiltz, em 1945.
Foto: Gerry Huberty

A promessa foi feita durante a Segunda Guerra Mundial, no auge da batalha das Ardenas. A evacuação de Wiltz, que ficaria conhecido como "cidade-mártir", era iminente. Um grupo de pessoas refugiadas na cave do presbitério promete então construir um santuário a Nossa Senhora de Fátima, já então popular por toda a Europa. Estava-se a 13 de janeiro de 1945, a poucos meses do fim da guerra. Uma semana depois, os alemães batem em retirada.

Em 1947, a imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima, em peregrinação pela Europa, passa no local a que hoje acorrem milhares de portugueses. O santuário é construído em 1952. Com a chegada dos primeiros imigrantes portugueses, no final dos anos 60, inicia-se uma peregrinação no feriado da Ascensão que todos os anos atrai milhares de pessoas. Hoje, poucos sabem que a história do santuário começou muito antes da chegada dos portugueses.

Que idade tinha quando foi feita a promessa de construir o santuário?

Dezassete anos.

O que é os levou a fazer a promessa?

Foi durante o inverno, havia muita, muita neve. Ao anoitecer, as tropas alemãs vieram falar com o padre e disseram-lhe que tínhamos de deixar Wiltz, porque os americanos estavam a caminho e a cidade ia ser evacuada. Fugir durante a noite, no meio da neve, com aquele frio, na incerteza! Ficámos chocados. Então o padre perguntou se não podíamos ficar até ao dia seguinte, porque já era de noite. Os alemães concordaram em dar-nos mais algumas horas, e nesse momento o padre decidiu fazer a promessa de construir um monumento a Nossa Senhora de Fátima se ela nos salvasse.

Onde estavam nesse momento?

Na cave do presbitério, com os meus pais e com uma irmã mais nova, que ainda é viva, e com uma irmã mais velha. E havia outras pessoas, éramos uma dúzia.

Ouviam bombardeamentos?

Sim, ouviam-se canhões.

Por que é que estavam nessa cave?

Nós vivíamos perto da ponte. Havia preparativos para a fazer explodir, e um soldado passou por cima e ela explodiu. Era uma casa muito antiga, com paredes muito espessas, e sobrevivemos, ninguém ficou ferido. E então o senhor padre veio dizer ao meu avô para irmos para casa dele.

A casa ficou destruída?

Sim, ficou demolida, não podíamos continuar a viver lá. Foi a primeira casa destruída em Wiltz, em dezembro de 1944.

E por isso refugiaram-se na cave do padre. Era perto?

Sim, na mesma rua.

E estavam lá a viver uma dezena de pessoas?

Talvez mais. As pessoas que eram maiores de idade assinaram a promessa, mas também havia duas ou três crianças que não assinaram. A minha irmã mais nova tinha 12 anos e não assinou, e havia mais dois ou três que eram ainda mais novos, com sete ou oito anos.

Viviam nessa cave o tempo todo?

Sim, vivíamos lá, em casa do padre. Comíamos sempre na sala de jantar, subíamos para comer. Rezávamos muito, cantávamos... Sim, cantámos muito, porque era preciso manter o moral.

E o que é que cantavam?

Canções de Natal. Já nessa altura eu pensava em entrar para um convento e rezámos muito.

Essa cave já não existe, porque a casa foi inteiramente reconstruída. Que tamanho tinha?

Eram duas. Numa delas tínhamos um beliche, era onde eu e a minha irmã dormíamos, no alto. Estava tão perto do teto que não podíamos levantar-nos, tínhamos que deslizar para sair da cama. E quando havia bombardeamentos, caía-nos pó em cima. Uma vez fomos com a minha mãe à missa e à saída ouvimos: ’Sssshhhhhhhhh’ [imita o siflar das bombas]. Era um morteiro que caiu mesmo entre nós. No santuário de Fátima, em Wiltz, há uma cruz feita com os restos das granadas que caíam.

Quanto tempo passaram na cave?

Duas ou três semanas, até os alemães deixarem Wiltz.

Como era a vida durante a ocupação?

Vivíamos com medo. Não sabíamos o que ia acontecer, não tínhamos perspetivas. É por isso que agora penso sempre nas pessoas que estão na Síria e que não têm perspetivas, numa guerra que já dura há anos. Nós, [em Wiltz], foi somente algumas semanas.

Quando assinaram a promessa, também assinou?

Sim.

A religiosa, hoje com 90 anos, tem uma grande simpatia pelos portugueses, que considera "providenciais" para preservar o santuário.
Foto: Gerry Huberty

Assinaram na mesma noite em que fizeram a promessa?

Sim. A minha irmã contou sempre que assinámos em cima de um barril de chucrute, não era uma mesa. E eu perguntei-me sempre: onde está o original? Porque agora é uma cópia: foi o padre da altura que fez uma cópia à mão e escreveu todos os nomes dos que assinaram. Temos todos outra assinatura, eu conheço bem a assinatura do meu pai. O original acho que está no monumento: quando se lançou a primeira pedra puseram um rolo de papel lá, e sem dúvida era o documento original.

Onde foi escrita a promessa?

Foi o padre que rasgou várias folhas do livro de batismo, a pensar na fuga, e depois ele pediu-me que a transcrevesse [para o livro].

Quando é que veio para o convento Sainte-Zithe?

Eu fui a primeira a deixar Wiltz, depois da guerra. Não tínhamos lugar em casa, chegámos a dormir seis pessoas no mesmo quarto. Entrei como noviça em 1946, estava persuadida que fora a providência a conduzir-me aqui.

Por causa da promessa?

Não, já tinha tido a ideia antes, com 15 anos.

Como é que vê o interesse dos portugueses pelo santuário?

Ainda recentemente falei com o padre Martin Molitor [padre de Wiltz] e disse-lhe: "Isto é a providência!". Na época em que fizemos a promessa, construíam-se grutas em homenagem a Lourdes por todo o lado, mas o nosso padre da altura, o padre Prosper Colling, era muito avançado. Ele já nos falava em Fátima na catequese. Fátima... Eu achava que devia ser na lua [risos], nunca tinha ouvido falar em Fátima. Mas foi também o papa Pio XII que consagrou o mundo inteiro a Fátima, e foi sem dúvida por esta razão que o nosso padre teve a ideia de fazer a promessa.

Sabe que o Papa está hoje [12 de maio] em Fátima?

Sim, sim! Nós tivemos uma costureira portuguesa durante 24 anos. Foi ela que fez este hábito [mostra com as mãos]. Eu traduzia para as irmãs alemãs, e ficámos muito amigas. Fui com eles seis ou sete vezes a Portugal e levaram-me a Fátima. E também fomos a Mafra, Óbidos e Sintra, vi lindos castelos e conventos. E é por isso que eu tenho uma grande simpatia pelos portugueses. Se tivesse uma segunda nacionalidade, era portuguesa [risos].

Já participou na peregrinação em Wiltz?

Não. Mas quando houve a inauguração [em 1952], eu estava lá, foi a primeira vez que regressei a casa depois de ter entrado para o convento. Mas sempre que vou a Wiltz – agora é cada vez mais raro – vou sempre lá acima, a Fátima.

Mas sabe que há milhares de pessoas que vão todos os anos?

Sinto uma grande satisfação e acho que foi a providência. Se não houvesse o interesse dos portugueses, o santuário se calhar já estava em ruínas, ou o interesse não seria o mesmo. Tenho uma grande satisfação que esteja vivo, e como tenho uma grande simpatia pelos portugueses, estou muito contente.

Sabe que este ano o Presidente da República de Portugal vai lá estar?

Sim. Estou orgulhosa! [risos] E o padre Colling [falecido em 1968] também sentiria certamente uma enorme satisfação. Quando ele estava a morrer, ainda disse ao presidente da fábrica da igreja, um senhor que também já morreu: “Baessent... Baessent...”. É o nome da colina onde está o santuário. Ele queria dizer para tomarem conta de Fátima, para não esquecerem o santuário.

Hoje o santuário está tão associado aos portugueses que muitos luxemburgueses não sabem que foi criado por luxemburgueses.

Os luxemburgueses não sabem e os portugueses também não [risos]. Mas foi a providência. Para os portugueses, a peregrinação [a Fátima em Wiltz] é como a festa nacional, é um local onde podem estar juntos.

Paula Telo Alves

[publicado na edição de 17 de maio do jornal Contacto]