Vitória do CSV pode fragilizar coligação do Governo

Serge Wilmes, que conquistou mais dois mandatos na capital, é um dos rostos da vitória do CSV – aqui com Claude Wiseler, candidato a primeiro-ministro.
Serge Wilmes, que conquistou mais dois mandatos na capital, é um dos rostos da vitória do CSV – aqui com Claude Wiseler, candidato a primeiro-ministro.
Foto: Guy Jallay

Para o politólogo Philippe Poirier, da Universidade do Luxemburgo, os resultados confirmam as sondagens desde 2014, que apontam para uma descida das intenções de voto nos partidos que compõem a coligação do governo.

A coligação liderada pelo primeiro-ministro Xavier Bettel pode ter saído enfraquecida das eleições municipais de domingo. O partido cristão-social (CSV) foi o vencedor destas eleições, obtendo 34,83% dos votos – deixando para trás o Partido Socialista (LSAP), com 25,83%, os liberais (DP), com 18%, e os Verdes (Déi Gréng), com 12%.

Para o politólogo Philippe Pirier, da Universidade do Luxemburgo, a subida do CSV nestas eleições municipais “confirma a tendência das sondagens desde 2014”, que apontam para uma descida das intenções de voto nos partidos que compõem a coligação do Governo.

Em 2013, o partido de Jean-Claude Juncker, atual presidente da Comissão Europeia, foi afastado do poder pela primeira vez em 35 anos, por uma coligação formada pelo DP de Bettel, socialistas e Verdes. Agora, o regresso em força do partido social-cristão pode indicar fragilidades na coligação, aponta o professor de Ciências Políticas.

No entanto, nem todos os partidos são afetados da mesma forma. Enquanto “os socialistas são pesadamente sancionados”, os Verdes “não são praticamente afetados” e o DP “também se aguenta”, diz o politólogo. O partido de Xavier Bettel “consegue limitar as perdas, ao contrário dos socialistas”, aponta o professor.

Para Poirier, os socialistas “são o grande perdedor” destas eleições. Sofrem uma derrota histórica em Esch-sur-Alzette, um bastião socialista desde o pós-guerra, que passa agora para as mãos do CSV, e têm “um resultado medíocre” na capital, aponta o politólogo. “Esch é um símbolo [desta derrota], e o resultado na capital [onde os socialistas não vão além dos 11%] é medíocre”.

O partido do primeiro-ministro também perdeu um assento na cidade do Luxemburgo, enquanto o CSV ganhou dois e se prepara para ser o novo parceiro de coligação da burgomestre liberal Lydie Polfer, que governava desde 2005 com os Verdes. “O CSV consegue decididamente recuperar o eleitorado, particularmente em detrimento dos socialistas”, sublinha Poirier. E rouba votos ao DP. “Em autarquias como Junglinster, Niederanven, Strassen e em torno da capital, há eleitorado do centro-direita que se muda do DP para o CSV”, diz Philippe Poirier. “É nestas autarquias, na periferia da capital, que vão jogar-se as legislativas”, prevê.

Os socialistas são pesadamente sancionados nestas eleições.

Outra tendência apontada pelo politólogo é aquilo a que chama a “nacionalização do CSV”. “Hoje, o CSV está presente – e é o único partido que o consegue – a nível nacional. Qualquer que seja o tipo de eleições, consegue ter sensivelmente o mesmo resultado por todo o país. Os outros partidos nunca o conseguiram fazer, o que lhe dá uma evidente vantagem”, defende o politólogo.

Philippe Poirier aponta várias explicações para o descalabro socialista. A começar pelo seu “posicionamento ao centro, economicamente”, a exemplo do ministro da Economia do LSAP, Etienne Schneider. “Há um desencanto entre as propostas liberais de Schneider e os históricos do eleitorado”, sublinha Poirier.

Para o politólogo, os socialistas também sofrem devido “à crise geral da social-democracia na Europa”, mas no Luxemburgo mostram sobretudo grandes dificuldades em renovar os rostos dos seus candidatos. “O LSAP tem as maiores dificuldades na passagem de testemunho. O CSV conseguiu fazê-lo com sucesso, passando o testemunho a jovens candidatos e tem muitos jovens eleitos” – a exemplo de Serge Wilmes na capital ou de George Mischo, o quase desconhecido que arrebatou Esch-sur-Alzette aos socialistas.

Na segunda maior cidade do país, o politólogo defende também que o alheamento dos estrangeiros da política pode ter tido um impacto negativo para a derrota socialista. “A estrutura da sociedade evolui, passando de bacia mineira e industrial para uma cidade composta por estrangeiros que não votam ou não estão alinhados com o LSAP”, disse o politólogo.

As próximas eleições legislativas no Luxemburgo realizam-se em outubro de 2018.

Paula Telo Alves (com agências)

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