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Vincent Reding: "Natalie Silva é um modelo a seguir"

Vincent Reding: "Natalie Silva é um modelo a seguir"

Foto: Chris Karaba
Luxemburgo 9 min. 17.01.2019

Vincent Reding: "Natalie Silva é um modelo a seguir"

Paulo Pereira
Paulo Pereira
Desde os 16 anos que se interessava pela política e o pai, percebendo isso, aconselhou-o a envolver-se. Aderiu à Juventude dos cristãos-sociais (CSJ) e, nas eleições comunais de 2017, tornou-se vereador. Quando a burgomestre de Weiler-la-Tour se demitiu, foi escolhido para a substituir e tornou-se o mais jovem no cargo.

Aos 26 anos, é o mais jovem burgomestre do país, o que desperta mais atenções sobre si. E implica também mais responsabilidade?

Já era vereador no ano passado, já tinha responsabilidades, mas claro que, no papel de burgomestre, existem mais pressões e, quando se é responsável de uma comuna com três localidades – Weiler-la-Tour, Hassel e Syren –, há pessoas que analisam a situação de forma diferente. Até aqui sinto-me bem, sou um filho da terra, nasci em Syren, estudei e passei aqui a minha juventude, conheço muita gente, portanto, é extraordinário ter este papel numa comuna onde está a minha família e conheço os vizinhos.

Como reagiram os cidadãos quando foi escolhido pelo conselho comunal para substituir Cécile Hemmen, a anterior burgomestre (ndr: demitiu-se em outubro do ano passado)?

Há quem considere excelente que haja um jovem escolhido por unanimidade pela comuna para ter a responsabilidade de a dirigir. Do lado oposto há quem mantenha ceticismo, refira que não tenho experiência suficiente e posso compreender essas opiniões. É um grande desafio mostrar que alguém com 26 anos pode tomar decisões, estudar os dossiers e conhecer o bom funcionamento de uma comuna, contrariando quem não me veja dessa forma.

Que motivos levaram à demissão da anterior burgomestre?

Não foram questões relacionadas com os vereadores, mas a propósito de rumores que circularam nas três localidades. Tive ocasião de falar com ela ao saber da sua decisão de se demitir, disse-lhe que deveria continuar, mas recusou e escolheu sair.

Por que razão decidiu entrar no mundo da política?

O meu pai reparou relativamente cedo, quando eu tinha 16 anos, que eu lia sempre os assuntos políticos nos jornais e, dizendo que era um dom e algo que me interessava, até porque jogava menos com a Playstation, aconselhou a que me envolvesse. Comecei por ir ao parlamento dos jovens e ganhei gosto pela política. Em 2017, quando estava a acabar os estudos em Criminologia, percebi que havia uma oportunidade na minha localidade e chegámos aqui sem que estivesse à espera disso, mas foi um prazer ser eleito aqui. Pelo CSV participei em vários congressos no estrangeiro já depois de me ter envolvido na CSJ.

"É claro que faltam jovens e caras novas na política, pois há a tendência de estar 20 anos ou mais no mesmo lugar. Isso é um erro. É preciso ceder a vez a alguém com ideias mais inovadoras."
"É claro que faltam jovens e caras novas na política, pois há a tendência de estar 20 anos ou mais no mesmo lugar. Isso é um erro. É preciso ceder a vez a alguém com ideias mais inovadoras."
Foto: Chris Karaba

A realidade mostra que os jovens se afastam da política. Como avalia o assunto?

Para mim é claro que faltam jovens e caras novas no mundo da política. Existe a tendência de estar 20 anos e mais no mesmo lugar e esse parece-me o maior erro que se pode cometer, ou seja, pensar que o lugar nos pertence até à morte. É preciso, ao fim de alguns anos, pensar na comuna e não em si próprio ou no partido e ceder a vez a alguém novo, com ideias mais modernas e inovadoras. Ao fim de 30 anos conhece-se bem o funcionamento das coisas, mas o dinamismo já não é o mesmo. É preciso profissionalizar o trabalho do burgomestre, uma medida que dará mais liberdade a quem desempenha as funções, e que haja mudanças nos partidos.

No seu caso, depois dos estudos em Criminologia, como se colocou a questão profissional?

Completei os estudos em Bruxelas e estagiei na polícia, mas, em função da separação dos poderes, não posso estar enquadrado na polícia fardada por causa do papel como burgomestre. Deverei ocupar-me de jovens com problemas sociais, mas é preciso analisar a compatibilidade entre papéis.

Em que medida os estudos na área da Criminologia podem ajudá-lo como burgomestre?

Ajudam porque se trata de uma área muito exigente em que é preciso conhecer a fundo os dossiers e estar no terreno como sucede com a polícia que, muitas vezes, tem de resolver problemas de vizinhança ou sociais. É um pouco do que encontro também aqui na comuna e, quando estagiei na polícia, tive oportunidade de tomar contacto com isso.

"Para já quero conhecer muito bem a comuna, trabalhar bem durante cinco anos e manter o cargo de burgomestre. E, dentro de dez anos, talvez possa ser ministro na área da polícia."
"Para já quero conhecer muito bem a comuna, trabalhar bem durante cinco anos e manter o cargo de burgomestre. E, dentro de dez anos, talvez possa ser ministro na área da polícia."
Foto: Chris Karaba

Que ambições tem na política?

Tenho 26 anos e muito para aprender. Mas também podemos ver a idade na perspetiva de ter apenas 26 anos, ou seja, dentro de dez anos com 36 ainda serei muito jovem no mundo da política. Para já, quero conhecer muito bem a comuna. Tudo é novo para mim: fui eleito no ano passado depois de ter sido vereador durante um ano. Quero trabalhar bem durante cinco anos e, a seguir, manter o cargo de burgomestre. No CSV espero voltar a estar na lista para as legislativas dentro de cinco anos porque quero fazer parte desta renovação no partido. Creio que podemos voltar a ser governo nessa altura e que somos o único partido do povo. E, dentro de dez anos, talvez possa ser ministro na área da polícia, porque é algo que me interessa muito.

Quais são os principais problemas identificados na comuna?

O alargamento do complexo escolar de Weiler-la-Tour é um deles, porque crescemos muito nos últimos anos e precisamos de uma nova estrutura. Em Syren temos problemas com inundações e precisamos de tomar medidas que as evitem. Temos também muitos problemas com a circulação do trânsito por causa do acesso a Contern e Kirchberg e isso é muito aborrecido. Tenho a consciência de ser quase impossível reduzir a quantidade, mas é sobretudo a qualidade que me deixa preocupado: com base nos radares, fizemos estudos e ficámos a saber que as pessoas entram com os carros nas localidades a 70/80 km/hora sem qualquer travagem! Não podemos aceitar isso no meio das localidades. Por isso solicitei que fossem colocadas lombas na estrada para obrigar à redução da velocidade e pedi que, em certas zonas, os percursos ficassem mais estreitos. Além disso, vamos estudar com o Ministério a construção de uma estrada que possa aliviar-nos um pouco do trânsito.

Conhece vários casos de cidadãos estrangeiros ou com ascendência estrangeira, como é o caso de Natalie Silva, que têm cargos nas comunas: como analisa esse acesso?

Parece-me muito bem. No caso de Natalie Silva, trata-se de alguém que é também presidente da circunscrição centro do CSV, é um modelo a seguir – além de ter ascendência cabo-verdiana, fala português e é uma mulher, três casos dos quais se diz que não estão bem integrados ou não têm oportunidades. Além disso, foi eleita por uma grande maioria e é preciso seguir este exemplo para motivar outras pessoas que pensem que os portugueses, outros estrangeiros ou as mulheres não têm nada a fazer na política. Estou convencido do contrário, porque o Luxemburgo não funciona sem os estrangeiros e isso é bem claro quando temos metade da população cuja origem não é luxemburguesa. Isto é válido para toda a gente – por exemplo, os meus avós vieram de França; a minha companheira chegou da Macedónia.

Mas já não pensa assim no caso das legislativas?

A única questão que vejo nesse caso resume-se a isto: ao fim de cinco anos aqui, os estrangeiros podem inscrever-se para as eleições comunais, mas a percentagem daqueles que o fizeram também nas últimas é mínima. Mesmo quando se fazem ofertas de caráter cultural para estarmos juntos, os estrangeiros não aderem e revelam uma certa desconfiança. Pergunto-me se estarão mesmo interessados ou se mantêm a lógica de vir para o Luxemburgo trabalhar e, quando chega a idade da reforma, voltar ao país de origem. Muitas vezes, percebem que os seus descendentes se sentem bem aqui e acabam por ficar, pelo que devemos trabalhar no sentido de os integrar melhor no país.

Como avalia o trabalho do Governo?

Não podemos dizer que fizeram tudo mal. É certo que modernizaram o país, mas nem sempre foram claros em matéria financeira e, no caso da família, fizeram escolhas que não são as nossas como as “maisons relais” gratuitas. E aqueles que ganham dez mil euros por mês, algo frequente no Luxemburgo, também devem beneficiar dessa medida? Penso que se poderia fazer mais por aqueles que ganham menos e não recorrer à generalização. E também me questiono como pode funcionar o entendimento entre liberais, socialistas e verdes. Os Verdes, por exemplo, ganharam três lugares no Parlamento, pelos vistos as pessoas estão contentes com eles, mas pergunto: o que fizeram, de facto, no capítulo do ambiente?

E num setor como, por exemplo, o da habitação que análise faz ao desempenho governamental?

Não fizeram nada nos últimos cinco anos! Não digo que o CSV teria feito melhor, mas essa é uma área em que temos muitos problemas, mais do que em 2013, como acontece com o facto de muitos jovens da minha idade, apesar de trabalharem e pagarem impostos, terem de viver em casa dos pais ou recorrer a estes nos empréstimos para habitação. É inadmissível e uma das maiores falhas da coligação Gâmbia.

Quem é o responsável por o CSV não ter conseguido chegar ao Governo?

Somos todos, eu também fazia parte da lista. Conseguimos mobilização suficiente? Estaríamos demasiado confiantes na vitória? Penso que não fizemos uma oposição agressiva e alguns temas deveriam ter sido mais debatidos. Mas colocar a culpa toda em Claude Wiseler não é correto. Conseguimos 21 lugares em 60 possíveis, culpar uma só pessoa é simplificar demasiado a questão. No dia 26 vai haver a escolha de um novo presidente do partido, mas não devemos esquecer que não se trata só de uma questão de cabeça, é também o programa, questões como a família e o ambiente, por exemplo. É preciso as pessoas verem que o CSV não é um partido de gente mais velha.

Frank Engel ou Serge Wilmes: qual deles é o melhor para presidente?

[Risos] Isso será decidido no dia 26...

"Serge Wilmes, pela primeira vez depois de muito tempo, recuperou a capital para o CSV, tivemos um bom resultado nas eleições municipais e penso que será uma boa escolha [para liderar o CSV]."
"Serge Wilmes, pela primeira vez depois de muito tempo, recuperou a capital para o CSV, tivemos um bom resultado nas eleições municipais e penso que será uma boa escolha [para liderar o CSV]."
Foto: Chris Karaba

Entretanto, Claude Wiseler afastou-se e o CSV escolheu Martine Hansen para o seu lugar: é uma boa escolha?

Sem dúvida. É um pouco como eu, alguém de um lugar mais pequeno e que fala com franqueza. É forte, vem do norte, onde obteve um excelente resultado. Para mim tem lógica que assuma esse lugar e, em termos de oposição, é uma verdadeira líder. Com ela talvez haja também mais atenção dos media, porque conhece muito bem os assuntos e fiquei satisfeito pela sua escolha. Voltando à sua questão anterior, Serge Wilmes, pela primeira vez depois de muito tempo, recuperou a capital para o CSV, tivemos um bom resultado nas eleições municipais e penso que será uma boa escolha.

Será, portanto, a sua escolha?

Isso logo se verá...

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