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Vida embargada na “casa dos horrores” em Belvaux
Luxemburgo 8 min. 23.01.2020 Do nosso arquivo online

Vida embargada na “casa dos horrores” em Belvaux

A família dorme em colchões no chão

Vida embargada na “casa dos horrores” em Belvaux

A família dorme em colchões no chão
DR
Luxemburgo 8 min. 23.01.2020 Do nosso arquivo online

Vida embargada na “casa dos horrores” em Belvaux

Teresa CAMARÃO
Teresa CAMARÃO
Há três anos com a casa em obras, a família portuguesa depende da autorização da comuna de Sanem para “viver com dignidade”, numa altura em que os contrutores ameaçam processá-los por difamação.

Ainda não foi desta que a família Ferreira se livrou do “pesadelo” que lhes tira o sono há mais de três anos. As obras da “casa dos horrores” continuam embargadas pela comuna de Sanem que acena com uma “licença num futuro próximo” e garante que nenhum dos projetos e emendas entregues e assinados pela arquitecta respeita as “normas em vigor”. Agora, os construtores ameaçam processá-los por difamação. Os portugueses da DGC Construções recusam a alegada burla. Receberam mais de 97 mil euros do orçamento total de cerca de 164 mil.

DR

Nomeado pelo tribunal, o perito avaliou as obras feitas em cerca de 64 mil euros, mais 7.700 da instalação elétrica. São mais 26 mil euros do montante que lhes foi entregue pelos Ferreira. Só pagam quando o “senhor andar com o processo para a frente”. Têm a “consciência tranquila” e lamentam que a denúncia da família na comunicação social esteja a prejudicar-lhes o negócio. Nas últimas semanas têm sido questionados pelos clientes e há “quem não queira assinar contrato”. Acusam Artur Ferreira de “implicar com todos os empregados, chegando ao ponto destes mesmos não quererem ir trabalhar para lá”. Dos quatro trabalhadores ouvidos pelo Contacto, apenas um confirma a versão que os construtores garantem ter motivado o abandono da obra.

“Barco sem fundo”

Agnelo Barbosa “está disponível para testemunhar em tribunal” a favor dos patrões. Trabalhou na casa dos Ferreira “um mês e meio ou dois” antes da operação às costas “que o tirou de circulação”. Acusa o patriarca da família Ferreira de, “por uma ou duas vezes” o ter querido “pôr na rua”. Viu-se obrigado a chamar o patrão. “Esse senhor disse que estava tudo mal feito. Primeiro dizia que estava tudo impecável, depois cheguei lá e ele tinha-me rebentado o trabalho todo por uma coisinha aqui e outra ali”, recorda.

Nós saímos do nosso país para tentar uma vida melhor e depois cruzámo-nos com estas pessoas que nos deixam pior do que em Portugal.

Trabalhador da construção

António Ramos “nunca ouviu falar de tal coisa”. Já não trabalha para a construtora e está de regresso a Portugal. Ao contrário dos outros dois trabalhadores que também desmentem ter sido alvo de “comentários pouco próprios”, não se importa de dar a cara. “Eu andei lá do princípio ao fim e nunca tive problemas desses lá. Isso é mentira. Não tenho razão de queixa, nem nada a dizer do homem. Ele nunca tratou mal ninguém”. No mesmo sentido, os outros dois trabalhadores que preferem manter o anonimato com medo de represálias dos antigos patrões deixam escapar uma gargalhada quando confrontados com as acusações da DGC aos Ferreira.

Ferreira
Ferreira
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“É normal que as pessoas se mostrem descontentes quando a obra não corresponde àquilo que pagaram. Eram desabafos dele. Da minha parte não tenho razão de queixa, mas havia ali um ou outro que eram mais brutos e ele respondia à letra. Não tenho nada nem contra uns nem contra os outros mas a situação é muito bizarra. O rapaz está num barco sem fundo”, reage um deles. “Sempre me tratou com educação, nunca me faltou ao respeito”, reitera o terceiro. “Nós saímos do nosso país para tentar uma vida melhor e depois cruzámo-nos com estas pessoas que nos deixam pior do que em Portugal”.


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Nem o consulado sabe como resolver o suplício da família portuguesa que vive há meses num autêntico estaleiro de obras, depois da comuna de Samen ter embargado a remodelação na casa que passaram a chamar "pesadelo".

Confrontados com os testemunhos dos trabalhadores, os construtores portugueses mantêm ponto por ponto da carta redigida pela advogada que trouxeram à redação do Contacto, dias depois do Natal. “O senhor Ferreira dizia que eles eram incompetentes mas mesmo assim queria que os trabalhadores continuassem lá a trabalhar. Quer dizer que eles não eram assim tão incompetentes como ele dizia. Em público disse que a empresa lhe levou mais de 96 mil euros e ao fim ao cabo ele omitiu sempre a peritagem”.

Passa culpas

Encasacados da cabeça aos pés, Artur e Liliana Ferreira fazem questão de abrir uma das únicas duas portas que têm na casa das paredes e escadas em betão. Está mais frio lá dentro do que na rua. Os termómetros marcam 1°C.

Sem gás, o almoço é feito nas duas placas elétricas que mantêm na cave. Por estrear, a cozinha está “semiempacotada”, à espera do desembargo da comuna de Sanem que, apesar ter assegurado ao Contacto que os “trabalhos dentro da casa ainda não estão sujeitos a uma licença de construção”, foi usada pelas autoridades para amedrontar os Ferreira.

O senhor Ferreira dizia que eles eram incompetentes mas mesmo assim queria que os trabalhadores continuassem lá a trabalhar.

Excerto da carta redigida pela advogada

“Assim que os homens começaram a descarregá-la tinha a polícia ao telefone comigo: meta a cozinha na rua imediatamente porque se não o burgomestre vai aí com as máquinas e deita tudo abaixo”. A revolta do casal é visível. Mais do que o dinheiro que a peritagem do tribunal assegurou que deveriam ver restituído pelos construtores querem “a vida de volta”. Tencionam avançar o processo. Só não o fizeram porque o advogado os aconselhou a esperar “pela fatura toda”. Só a vizinha do lado pede mais de 25 mil euros pelos danos causados pela obra inacabada.

Ferreira
Ferreira
DR

 “Todas as despesas que são inerentes ao abandono criminoso da obra têm de ser calculadas. Todo esse montante terá de ser ressarcido. Todas essas despesas terão de ser contabilizadas. Eu continuo a não ter casa acabada nem possibilidade de acabar por causa dele. Deixou a obra na situação em que está e tudo isso vai ter de ser visto ao pormenor. É por isso é que ainda não demos seguimento ao processo”.

A família fala em custos “incalculáveis”. Liliana perdeu a licença para trabalhar porque a casa não garante sequer condições de segurança para que a ama possa continuar a “guardar as crianças”. A conta mais cara, suspiram, é a da infância perdida do filho mais novo. Vítima de bullying com acompanhamento psicológico, o menino assistiu a grande parte da entrevista numa almofada no chão mesmo em frente ao aquecedor “para fintar o frio”.



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