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Veterinária do Brasil espera há oito meses autorização para trabalhar no Luxemburgo

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Veterinária do Brasil espera há oito meses autorização para trabalhar no Luxemburgo

Veterinária do Brasil espera há oito meses autorização para trabalhar no Luxemburgo
Saúde

Veterinária do Brasil espera há oito meses autorização para trabalhar no Luxemburgo


por Madalena QUEIRÓS/ 01.08.2022

Está há quase nove meses à espera da autorização para exercer como médica veterinária no Grão-Ducado. Ministério da Saúde não explica a razão deste atraso.

Roberta Züge ficou de boca aberta quando leu a notícia da falta gritante de veterinários no Luxemburgo. Doutorada em Medicina Veterinária, com cidadania luxemburguesa, e mais de 20 anos de experiência não pode trabalhar no Grão-Ducado porque está à espera da autorização para exercer. Uma espera que já dura há quase nove meses, embora a lei estipule que a resposta tenha que ser dada no máximo em quatro meses.

Não compreende este atraso quando o cenário é de uma falta de profissionais que é preciso responder urgentemente. “Só há 286 veterinários que estão autorizados a exercer e eu estou com o processo parado”, lamenta Roberta Züge.   “Deveria demorar cerca de quatro semanas para ser despachado no ministério da Saúde e cerca de um a três meses na Ordem dos Veterinários, mas ainda não chegou sequer à Ordem”, denuncia. “Enviei uma lista com a confirmação de ter entregue todos os documentos necessários para o processo. Mas não adiantou”, salienta.


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Um currículo impressionante
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Luxemburgo tem apenas 286 veterinários para todo o país
As condições de trabalho e o custo de vida estão a tornar o Grão-Ducado cada vez menos atrativo para os veterinários.

O seu currículo é impressionante. Com um doutoramento em Medicina Veterinária pela reputada  Universidade de São Paulo e uma vasta experiência, Roberta Züge decidiu mudar-se para o Luxemburgo há cerca de dois anos. Nunca imaginou que o processo para poder exercer como veterinária demorasse tanto tempo. Com uma voz decidida diz que não vai desistir enquanto não conseguir.   “Tenho um perfil diferente porque trabalhei na implementação de programas sanitários e de programas de qualidade e de controle sanitário no Brasil. Construi o processo de garantia de segurança de alimentos, doenças transmitidas por alimentos, e de controle de qualidade, setores que são uma necessidade crescente no Luxemburgo", salienta. 

Mas “não entendo essa burocracia. Escrevi para o mediador mais de um mês e ele respondeu se até final da semana não tiver resposta iriam mandar outro email”, sublinha.

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Gerry Huberty

Tem cidadania luxemburguesa. Foi um dos quase vinte mil brasileiros que conseguiram nacionalidade por serem descendentes de emigrantes  luxemburgueses, ao abrigo de um programa lançado pelo governo. 

Tudo aconteceu porque um primo que estava a fazer um estudo da árvore genealógica e à procura de todos os documentos que comprovassem essa ascendência luxemburguesa foi ao cartório de registos no Brasil. Quem o atendeu perguntou-lhe “porque não requeria a cidadania, porque quem tem ascendentes luxemburgueses tem direito à cidadania”. Quando soube do sucedido, Roberta resolveu mandar toda a documentação para iniciar o processo. “Em 2017 recebi a resposta que confirmava que tinha ascendência luxemburguesas e podia requerer cidadania”. Um ano depois a veterinária veio ao Luxemburgo para tratar do processo. “Andei três dias pela cidade e em janeiro de 2019 trouxe a minha filha para cá a e passamos quinze dias no Luxemburgo”. Depois de visitar escolas públicas e privadas, a sua filha Fernanda, então com 13 anos, virou-se para a mãe e disse: “Quero vir estudar aqui!”. Roberta não pensou duas vezes e decidiu vir para o Luxemburgo para dar um futuro mais promissor à sua filha.

“Sempre tive uma carreira muito rápida, defendi o doutoramento antes dos trinta anos e viajava muito e era muito difícil conciliar carreira e vida familiar, porque viajava imenso. Quando a Fernanda me pediu tinha uma certa dívida com ela. Teve dias das mães na escola que perdi porque estava viajando a trabalho”, sublinha Roberta. 

Começou a preparar todo o processo de mudança de país com todas as precauções. “Comecei por ver o que precisava fazer para ter o  reconhecimento do meu diploma e consegui-o pela Universidade do Porto”, descreve.

Acabou por vir para o Luxemburgo em plena pandemia. “Cheguei no final de 2020 e apanhei todo o caos do confinamento, o que atrasou o reconhecimento da minha graduação em Portugal que achei que ia ser rápido”, afirma. Em Novembro do ano passado recebeu finalmente o reconhecimento. Mas agora continua sem poder trabalhar como veterinária.  “Não consigo a autorização para exercer aqui”, diz. Apesar de cumprir todos os requisitos exigidos para o fazer.

Depois de um contacto direto com o ministério da Saúde sobre o processo, soube que a pessoa que está responsável pelo dossiê está doente, e "que o meu processo está parado".

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Uma mudança de país preparada com todo o cuidado
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O que lhe permite sobreviver é que preparou a sua mudança de país com todo o cuidado. “Preparei-me para vir para cá e ficar a trabalhar remotamente para o Brasil. Tenho um contrato com o ministério da Agricultura, junto da OMS”. Mas até agora já perdeu muitas oportunidade de trabalho no Luxemburgo por não ter autorização para exercer. Neste momento trabalha online para montar o processo do uso racional de antibióticos em fazendas leiteiras no Brasil.  “Preparei-me e vim com uma almofada. Mas já gastei bastante grana aqui e investi bastante. Preparei-me financeiramente, para estar no mínimo dois anos, porque tenho os meus trabalhos cá, houve momento com a valorização do euro que pensei não ia dar os dois anos”, descreve. 

"Mas muitas pessoas arriscam e acabam vindo sem estar preparadas", salienta.

Roberta Züge reconhece que a  mudança compensou nalguns aspetos. “Só o que gastava de colégio, idiomas, natação e outras despesas de formação no Brasil com a  minha filha dá para pagar a renda aqui”, sublinha. 

"Isto é apenas a ponta do iceberg"

“Mas isto é apenas a ponta de iceberg”, afirma. “Acho que o Luxemburgo abriu este sistema de reconhecimento da nacionalidade pensando apenas nos transfronteiriços. Não imaginavam a quantidade de descendentes que tinham no Brasil , Estados Unidos  e Argentina. Só no Brasil porque tem muito sol e água o povo proliferou bastante, porque tem quantidade bastante grande de descendentes de luxemburgueses”, acrescenta.


Brasileiros são os novos luxemburgueses
Brasileiros ultrapassam belgas, portugueses e alemães nos pedidos de nacionalidade.

“Houve essa abertura, as pessoas criam expetativas, vim para o Luxemburgo para responder ao pedido da minha filha que está muito bem na escola Internacional de Clervaux. Até ganhou o prémio da melhor aluno a Matemática e vai fazer um estágio profissional na Universidade do Luxemburgo”, conta. “Ela vale todo o meu sacrifício porque não e fácil deixar tudo e mudar para vir para o Luxemburgo”, sublinha. A sua filha Fernanda “queria estudar, e abrir novas perspetivas, porque se quisesse concorrer a uma universidade europeia, nem o currículo brasileiro, nem o norte-americano são aceites. Por isso tinha que vir para cá e ter um bom desempenho no liceu para poder concorrer a uma universidade europeia”, confessa.

“Existem muitos profissionais da área da saúde disponíveis com habilitação para exercer aqui no Luxemburgo, mas não aguentam passar por este processo”, salienta. “Tenho primos próximos médicos, ortopedistas, anestesistas farmacêuticos disponíveis quando existe carência de alguns profissionais no Luxemburgo. Eu não ia passar este perrengue que você está passando", diz uma prima médica especialista em cirurgia ortopédica.

“O Luxemburgo precisa de alguns profissionais e não abre a porta a imigrantes por bondade, precisa na área de saúde”, sublinha.

"Isto não é a casa da mãe Joana"

“Se eu não cumprir ou não pagar um imposto num determinado prazo tenho consequências. Porque existe uma regulamentação que tem que ser cumprida. Isto não é a casa da mãe Joana como se diz no Brasil . A partir do momento que eu não estou a ser atendida como cidadã, quem resolve isso o Duque? Vou ter que bater na porta do palácio e falar com ele? Quem vai resolver. Alguém tem que ser responsável", diz indignada.

“Eu tenho um grau de formação, mas imagine as outras pessoas que não têm acesso que estão à ,margem o Estado não funciona, isto é bastante dececionante no Luxemburgo para mim de não existir a resposta. Tem bastante gente trabalhando na administraçao pública e alguém tem que ser responsável por isto. E agora não me venham com a história do covid, porque já foi", desabafa.

 "Não entendo, questiono quanto o Luxemburgo está deixando de aproveitar esses profissionais".

"Um país que vende austeridade e organização e partir do momento que tem prazos eles devem ser cumpridos. Como eu como cidadã se passei a velocidade vou ganhar uma multa e uns pontinhos na carta de condução. Mas afinal quem é o responsável pelo meu processo que não está andando?”, questiona.

"É frustrante porque o Luxemburgo vende essa ideia de país sério, rigoroso e organizada e que as coisas aqui realmente funcionam e aí você se depara com um ponto como este que é bastante negativo e frustrante", sublinha.

 O Contacto questionou o ministério da Saúde sobre o caso, mas até agora não recebeu qualquer resposta.

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