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Vera Diniz de Moura: “O ADR não é contra os estrangeiros, mas contra o comunitarismo”
Vera Diniz de Moura seguiu o caminho do pai, que foi secretário da Frente Nacional de Libertação de Angola, e entra agora na política.

Vera Diniz de Moura: “O ADR não é contra os estrangeiros, mas contra o comunitarismo”

Foto: Guy Jallay
Vera Diniz de Moura seguiu o caminho do pai, que foi secretário da Frente Nacional de Libertação de Angola, e entra agora na política.
Luxemburgo 5 min. 27.09.2017

Vera Diniz de Moura: “O ADR não é contra os estrangeiros, mas contra o comunitarismo”

A luso-angolana Vera Diniz de Moura é candidata pelo ADR às eleições comunais na capital. Diz partilhar as mesmas causas que o partido de direita. Esta é a quinta entrevista do Contacto a candidatos lusófonos dos seis principais partidos luxemburgueses.

A luso-angolana Vera Diniz de Moura é candidata pelo ADR às eleições comunais na capital. Diz partilhar as mesmas causas que o partido de direita. Esta é a quinta entrevista do Contacto a candidatos lusófonos dos seis principais partidos luxemburgueses.

O seu pai foi secretário da Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA), partido de centro-direita. Agora, a filha entra também na política, mas num partido de direita. Como foi parar ao ADR?

O Luxemburgo é o país que escolhi para viver e onde quero sentir-me integrada. Se quero tentar mudar certas coisas que não estão bem, tenho de estar minimamente na política.

BI

Nome: Vera Diniz de Moura;



Localidade em que é candidata: Cidade do Luxemburgo;



Partido: ADR

Natural de: Luanda, Angola. Está no Luxemburgo desde 2002;



Profissão/ocupação: Representante comercial e dirigente da associação angolana Welwítschia Mirabilis;



Idade: 51 anos;



Posição em que jogaria numa equipa de futebol: “Defesa. Joguei como defesa no futebol profissional em Portugal, na equipa de Coina, e fui guarda-redes de andebol. Tenho iniciativas, mas como às vezes tenho alguma dificuldade em chegar-me à frente, prefiro ouvir outras ideias, fazer um apanhado e executar. Sou muito melhor a executar diretivas do que ir para a frente.”

Foi o partido ADR que se chegou a si ou foi o contrário?

As duas coisas. Este é o partido que me pareceu representar melhor os meus interesses na defesa da família. Precisei de ajuda para o caso de autismo do meu filho e a falta de segurança na escola dele. Achei interessante o conhecimento das leis e a maneira de explicar da pessoa da comissão de pais. Ajudou-me e perguntei se poderia também participar numa coisa do género. A pessoa disse-me que não havia problema e foi assim que foi feito o contacto.

O candidato do DP por Diekirch José Lopes Gonçalves disse que há muitos candidatos lusófonos de fachada, só para os partidos mostrarem que estão interessados nos estrangeiros. Você é uma candidata do ADR por convicção?

Para ser sincera, isto começou pelo meu desejo de batalhar pela segurança das crianças na escola. Mas agora, conforme vou conhecendo o partido e os seus ideais, estou cada vez com mais convicção.

O ADR é um partido conservador, muito conotado com posições contra os estrangeiros. Como é que uma estrangeira convive com isso? Foi bem acolhida no partido?

Fui bem acolhida, sim. Como muitas pessoas, também ouvi dizer que era contra os estrangeiros, mas fui observando e fui à procura dos princípios do ADR. A minha perceção, e que acho ser a realidade, é que o ADR não é contra os estrangeiros. Ele é contra o comunitarismo, contra o facto de as comunidades ficaram fechadas entre elas. O desejo do partido é que os estrangeiros se integrem, aprendam a língua e peçam a nacionalidade luxemburguesa. Não se quer ninguém à margem, mas uma coesão em todo o país.

Foto: Guy Jallay

Mas nem toda a gente tem a mesma facilidade em aprender o luxemburguês. Não sei se é o seu caso...

Por enquanto ainda não falo, mas percebo muita coisa do luxemburguês. Fiz muitos esforços. É difícil, mas não é impossível. Mas acho que devia haver também mais incentivos. Os estrangeiros quando chegam aqui é para trabalhar e tentar levar a vida. Pelo menos no início, deviam ter um apoio financeiro para os cursos de luxemburguês. É o que conheço da Holanda, onde o Estado suporta os custos que os estrangeiros têm para aprender o flamengo quando chegam ao país.

O seu partido foi claramente contra o direito de voto dos estrangeiros nas legislativas, foi a única das principais forças políticas que não fez parte do consenso sobre a nova lei de nacionalidade apresentada por Félix Braz...

Mas a proposta da atribuição de nacionalidade a quem fez o serviço militar no Luxemburgo é do ADR. Sobre os estrangeiros, podem votar desde que adquiram a dupla nacionalidade. Vim de Angola, passei por Portugal e compreendo que ninguém gosta que os outros venham mandar na sua casa.

Falou há pouco na segurança escolar. A educação é uma das suas prioridades?

É a minha prioridade. Batalho muito pela segurança das crianças na escola e por outras coisas que acho que não estão bem. Dou o exemplo do novo sistema que o Ministério da Educação instaurou no foyer escolar, que dá o direito às crianças de escolherem para que sala de atividade querem ir. No foyer escolar Demy Schlechter [em Bonnevoie], quase todas as crianças escolhem ir para a sala onde podem saltar e correr, porque é mais interessante do que a outra que é mais para leitura, desenho e pintura. Fiquei assustada um dia destes ao ver quase 30 crianças a correr e a saltar dentro de uma sala super pequena. Aquilo estava desorganizado e perigoso porque, apesar de haver colchões de proteção, há crianças pequenas ao lado de outras maiores.

Foto: Guy Jallay

O que sugere como solução?

De duas, uma: ou voltamos ao sistema antigo, em que cada educador tem a sua sala e escolhe as atividades para as crianças, ou arranjam-se salas maiores. E outra coisa... tenho um filho autista e com esta história de inclusão, gostaria de perguntar ao ministro da Educação se ele fez isto realmente para todos. Quando perguntam ao meu filho para que sala quer ir, ele fica sem reação e a educadora tem de escolher por ele. E se ele vai para um lugar onde há muitas crianças, também é difícil lá ficar. Ele está limitado à partida. É bom haver inclusão das crianças com necessidades específicas, mas para isso é preciso ver as necessidades de todos.

Quando fala na rua com as pessoas, quais são as queixas mais frequentes que ouve?

Infelizmente, a queixa maior é a má compreensão que as pessoas encontram nos serviços administrativos: falta humanidade por parte de alguns funcionários públicos. As estruturas de acolhimento de crianças não são suficientes e o preço da habitação é muito elevado.

Foto: Guy Jallay


O que seria uma vitória para o ADR na capital?

Reeleger a nossa cabeça de lista e conselheira comunal Marceline Goergen, que eu apoio, e eleger outro candidato.

E o que seria uma vitória para si?

Ter mais de mil votos.

Isso seria dois terços dos escassos 1.442 portugueses que estão inscritos para votar na capital.

Como se diz em Angola, “se queres uma bicicleta, pede um avião”.

Henrique de Burgo

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