Escolha as suas informações

Venezuelanos no Luxemburgo dizem “não” a Nicolás Maduro
Luxemburgo 4 min. 06.02.2019

Venezuelanos no Luxemburgo dizem “não” a Nicolás Maduro

Venezuelanos no Luxemburgo dizem “não” a Nicolás Maduro

Foto: Pierre Matgé/Luxemburger Wort
Luxemburgo 4 min. 06.02.2019

Venezuelanos no Luxemburgo dizem “não” a Nicolás Maduro

Henrique DE BURGO
Henrique DE BURGO
Cerca de uma centena de venezuelanos residentes no Grão-Ducado manifestaram-se no sábado, na capital, exigindo o fim da era Maduro e a transição pacífica.

“Tive de fechar todo o comércio porque não havia mercadoria para vender. Tinha um talho e, como o Governo tomou conta dos matadouros, não havia carne para quem chegava até nós. Tinha também uma loja de venda de peças de mota. Como tudo vinha importado da China, já não era possível usar o dólar para a importação. Tive também de fechar. Assim, não há maneira de avançar economicamente”, conta Gilberto Soares, venezuelano e filho de madeirenses.

Gilberto fez parte do grupo de manifestantes que se juntaram no sábado, na Place D’Armes, na cidade do Luxemburgo, em apoio à decisão do Parlamento Europeu que reconheceu na passada quinta-feira Juan Guaidó (presidente do Parlamento) como o “Presidente interino legítimo” da Venezuela. Eram cerca de uma centena os manifestantes venezuelanos (e não só) a gritar palavras de ordem contra o “ditador Nicolás Maduro”, a favor de mais sanções contra o seu Executivo e a exigir eleições transparentes. “Queremos transição, eleições livres para a Venezuela e um Governo justo. O atual Governo não tem sido bom e só trouxe miséria para o povo. A Venezuela é uma terra muito próspera, com muitos recursos, mas não se tem sabido tirar partido disso”, lamenta Gilberto Soares, depois de cantar o hino nacional que marcou o fim da manifestação.

Foto: Pierre Matgé/Luxemburger Wort

“Esta é a minha mulher. Nasceu no Funchal. Estes são os meus filhos, aqui estão as minhas irmãs e, ali, os meus pais”, diz, apresentando a família que está no Luxemburgo “há cerca de um ano”, dois anos depois de um primeiro membro da família ter chegado. “Emigrar foi a nossa opção, assim como é para muita gente no país, porque lá não se consegue comida, não há medicamentos, a delinquência está por todo o lado. Podem matar-te por um par de sapatos e não há maneira de manter uma família”, conta o luso-venezuelano, que ainda tem primos e tios em Caracas. Os pais chegaram ao Grão-Ducado há três meses.


Venezuelanos no Luxemburgo manifestam-se a favor da transição política
Cerca de 100 venezuelanos residentes no Luxemburgo manifestaram-se este sábado à tarde a favor da transição política no país, após o Parlamento Europeu ter reconhecido Juan Guaidó como legítimo presidente do governo de transição na Venezuela.

“Olhe, fui para a Venezuela com 16 anos e já tenho mais de 50 anos lá. Está complicada a situação e tivemos de sair. Mas estamos a pensar ’volver’ [regressar] se a situação melhorar. Quero um futuro melhor para os meus filhos e netos”, diz a mãe de Gilberto, Raquel Silva, natural de São Vicente, no norte da ilha da na Madeira.

Sandra Soares, a mulher, tem menos sorte. “Os meus pais ainda estão lá em Caracas. Falo com eles todos os dias e o que me dizem é que a situação continua complicada. O meu pai diz-me que, se comprar pão, não pode comprar queijo. Hoje está a um preço, amanhã está ao dobro. É impressionante!”.

Foto: Pierre Matgé/Luxemburger Wort

Luxemburgo favorável a novas eleições na Venezuela

Entretanto, o Luxemburgo mostra-se favorável a novas eleições na Venezuela. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Jean Asselborn, reconheceu Juan Guaidó como Presidente interino da Venezuela, apoiando a posição manifestada por vários países da União Europeia. Num comunicado divulgado esta segunda-feira, Jean Asselborn apoiou o líder da Assembleia Nacional e deu suporte ao apelo internacional para novas eleições presidenciais e pelo “respeito das liberdades e dos direitos fundamentais do povo venezuelano”. O ministro argumentou que aquela é “a instância democrática legítima” no país, uma vez que “as eleições presidenciais de 20 de maio de 2018 não foram livres, nem regulares”.

A posição do Grão-Ducado vai ao encontro do apelo feito na manifestação. “Espero que o Luxemburgo reconheça Juan Guaidó como Presidente interino e que nos ajude a ter umas eleições limpas. Isto não se trata de uma usurpação, só queremos uma mudança, que os poderes militar e político estejam separados e que os tribunais cumpram o seu papel. Com isto podemos avançar e fazer crescer o país”, afirmou Carolina Lazo-Albrecht.


Portugueses não querem sair da Venezuela, querem fim do impasse político, diz MNE
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, vincou esta quinta-feira que “não há nenhum problema com a comunidade portuguesa” na Venezuela e que os portugueses residentes no país não querem sair, mas sim o fim do “impasse político”.

Mas para lá chegar há ainda um problema interno por resolver. “Falta-nos o apoio dos militares de alta patente. Alguns estão a favor do plano de Juan Guaidó, mas ainda não são em número suficiente”, referiu Maria Fernanda Rangel, da organização da manifestação, lançando um apelo. “Para conseguir a liberdade precisamos de três coisas: que acabe a usurpação de poder, com a renúncia de Nicolás Maduro e o seu exílio; que haja um Governo de transição e que haja eleições livres. Pedimos o apoio internacional para mudar a situação pacificamente porque sozinhos não conseguimos”.


Nicolás Maduro pede ajuda ao papa para mediação da crise na Venezuela
Esta segunda-feira, o Presidente venezuelano disse que escreveu ao papa Francisco pedindo a sua ajuda e mediação na crise que enfrenta a Venezuela, durante uma entrevista ao canal de televisão italiano SkyTG24.

União Europeia dividida

O apoio do Luxemburgo não é, no entanto, a posição oficial do bloco europeu. Se países como Portugal, França, Espanha, Alemanha e Reino Unido reconhecem também Juan Guaidó como Presidente interino, já Itália, Grécia ou Irlanda têm uma posição divergente, não reconhecendo Guaidó. Resta saber se, esta quinta-feira, haverá mudança na posição da UE durante a primeira reunião do grupo internacional de contacto sobre a Venezuela, a ter lugar em Montevideu, no Uruguai.