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Valentina, nove anos…!
Editorial Luxemburgo 2 min. 21.05.2020

Valentina, nove anos…!

Valentina, nove anos…!

Editorial Luxemburgo 2 min. 21.05.2020

Valentina, nove anos…!

Sérgio FERREIRA BORGES
Sérgio FERREIRA BORGES
Um pai que nunca recebeu afeto parental, por isso, não o tinha para dar. Mas isto não o torna inimputável.

A tragédia de Valentina emocionou todo o país e levantou a questão da impreparação de muita gente para o exercício da paternidade. O problema não é novo, mas só quando acontecem estas desgraças se reflete sobre o assunto.

Os traços biográficos do pai, da mãe, da madrasta e de outros elementos dos dois ramos parentais levam facilmente à conclusão que estamos perante famílias desestruturadas, caracterizadas por uma imensa disfuncionalidade, a todos os níveis.

A educação e formação de qualquer indivíduo assenta em três pilares fundamentais, que surgem, por esta ordem: família, escola e grupo social. Se um deles falha, aumenta a probabilidade de os outros também fracassarem.

É fácil encontrar jovens, vindos de ambiente familiar deficitário que, por via disso, abandonam precocemente o sistema educativo e acabam em grupos marginais. São aquilo a que a sociologia chama de gente de baixa expetativa. Felizmente há excepções que só servem para confirmar a regra.

Foi isto que encontrei nos dois ramos familiares da infeliz Valentina. Talvez mais pronunciados do lado do pai que, além de uma visível psicopatia, tem manifestos traços de oligofrenia, uma enfermidade que o impede de aprender. É um bloqueio do sistema cognitivo. Não aprendeu nada na escola, tal como não aprendeu os valores essenciais da moral, da dignidade ou do amor. Um pai que nunca recebeu afeto parental, por isso, não o tinha para dar. Mas isto não o torna inimputável. Nem estas circunstâncias podem servir de atenuante, numa pena judicial.

Do que se soube da mãe, parece evidente que negligenciava a filha que lhe prendia os movimentos. Com frequência, entregava a criança aos cuidados de terceiros, libertando-se assim para os prazeres frívolos do divertimento noturno.

A madrasta não seria muito melhor. E como as coisas não começam do nada, também ela terá sido negligenciada na infância, por uma mãe toxicodependente e condenada por vários furtos.

Apesar deste quadro de infelicidade, não é aceitável que uma criança de nove anos morra, vítima de espancamentos do pai, com o silêncio cúmplice de uma madrasta. Mas, infelizmente, é explicável. E não foi o primeiro caso ocorrido, em Portugal. Muitos outros a antecederam.

A miserável cabeça de um pai destruiu a vida de Valentina, a dele, a da mulher, a de mais três filhos, dois deles a caminho da institucionalização. E a mãe da criança e outros familiares próximos vão arrastar o remorso ou a culpa, pelo resto dos seus dias, estigmatizados pela impiedade da censura social.

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