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Vítimas de um racismo demasiado comum no Luxemburgo

Vítimas de um racismo demasiado comum no Luxemburgo

Photo: Shutterstock
Luxemburgo 5 min. 21.03.2019

Vítimas de um racismo demasiado comum no Luxemburgo

Nesta quinta-feira assinalou-se o dia internacional pela eliminação da discriminação racial. Um problema que existe também no Luxemburgo. Ghislaine et Armelle, duas camaronesas que residem no Grão-Ducado, aceitaram dar o seu testemunho.

A população negra sofrerá de descriminação racial no Luxemburgo? É uma pergunta que infelizmente tem resposta afirmativa, a fazer fé nas conclusões de um estudo da Agência de Direitos Fundamentais da União Europeia, intitulado "Ser negro na UE", que entrevistou 5.803 pessoas que habitam 12 países membros. 

As conclusões deste estudo inquietam a Comissão Consultiva dos Direitos Humanos (CCDH). Em comunicado, divulgado aos jornalistas, a CCDH sublinha que "o racismo e os crimes motivados pelo ódio colocam em causa a coesão social".

Com efeito, se a discriminação parece ser um assunto grave na Europa, com 39% dos sondados a declararem que foram vítimas de racismo nos últimos 12 meses, a situação no Grão-Ducado é, segundo o estudo, bastante pior, com 50 % das pessoas entevistadas garantirem que foram vítimas de discriminação no último ano. 

"As pessoas riem-se da minha pronúncia"

O espírito "multicultural" reivindicado pelo Luxemburgo não é verdadeiro para todos? Para Armelle (nome fictício) não é certamente. 

Estudante há três anos na Universidade do Luxemburgo, é a "única negra" no seu mestrado. Vinda diretamente dos Camarões ela acreditava na imagem de um país aberto onde o racismo não tinha lugar. A realidade que se deparou foi outra. 

A jovem mulher de 26 anos, cujas palavras quase cantadas revelam uma origem africana, chama imediatamente atenção e a embirração dos seus colegas. "Estou muitas vezes sozinha. As pessoas riem-se da minha pronuncia e rapidamente sou colocada de parte", relata. 

As brincadeiras à conta dela não são um exclusivo dos seus colegas; os professores participam também nelas. "Soube que dois professores criticaram a minha forma de falar e insinuaram que devia voltar à terra de onde vinha... Há mais de pessoas de 30 nacionalidade aqui, porque razão apenas se metem comigo?", interroga-se Armelle. 

"Não, não sou a mulher da limpeza"

Se ao nível europeu, cerca de um quarto da população negra já se confessou vítima de discriminação racial no quadro do trabalho ou na procura de emprego, a situação no Luxemburgo parece muito pior. O Grão-Ducado encontra-se no top três dos países em que estes comportamentos são mais recorrentes. 

Cerca de 47% das pessoas interrogadas declararam ter sido vítimas de discriminação racial quando procuravam trabalho no Grão-Ducado. Ghislaine, uma jovem mãe de 34 anos, conhece bem estas situações.  Trabalha no Luxemburgo desde 2012, quando chegou era a única pessoa negra na empresa em que trabalha. 

Mas esta ideia não a assustou. "Os meus pais ensinaram-se que tinha que me bater para ter os mesmos direitos que toda a gente; é também aquilo que eu ensino aos meus filhos. E  depois sou negra e mulher, acumulo problemas", sublinha, rindo. 

Precisa de provar a todo o momento a sua capacidade e competência: "Quando cheguei aqui, tiver que provar para que as pessoas à minha volta tivessem confiança em mim. 'Não, nã0 sou a mulher da limpeza',    'sim, falo bem a vossa língua'. É muito cansativo, é preciso sempre estar a provar tudo", explica Ghislaine. 

Perante esta situação,  recusa-se a deixar-se ficar abatida e espera que as pessoas "esqueçam a cor da sua pele". Um esforço muito difícil, sobretudo porque o estudo "Ser Negro na UE" confirma que o primeiro motivo de discriminação no Grão-Ducado é a cor da pele.  

"Não trabalhamos com pessoas como você"

Armelle foi confrontada com o peso da sua cor numa empresa financeira do país. Como já tinha tido más experiências, deixou de colocar fotos nos CV. Quando chegou à entrevista, a conversa mal começou. O entrevistador manifestou o seu incómodo pela sua presença. "Houve um enorme mal-estar e o responsável chegou a dizer-me: 'Nós não trabalhamos com pessoas como você'". conta a estudante , que sublinha que "toda a equipa [dessa empresa] era branca". A entrevista para o trabalho nem chegou a acontecer:"Não sabiamos que seria você", justificou-se o responsável. 

Tornar visível 

Perante esta situação, denunciada pela Comissão Consultiva dos Direitos Humanos, as duas mulheres propõem uma solução comum: melhorar a representação das minorias na política nacional. 

"É preciso dar visibilidade às pessoas negras. Se, entre dez eleitos nacionais, houvesse pelos menos uma pessoa de cor, isso mudaria muita coisa. É preciso que o governo abra os olhos para o que se passa na sociedade", defendem as duas mulheres. 

Reivindicações que estão de acordo com as conclusões do CCDH, que convida o governo de fazer da luta contra o racismo e da intolerância uma questão "prioritária no combate pelos direitos humanos". 

Trata-se de agir contra os preconceitos e os estereótipos, nomeadamente "com uma educação de direitos humanos nas escolas, a formação dos atores do terreno e fazer campanhas de sensibilização".

No momento atual, apenas existe uma mulher negra eleita a um nível local. Natalie Silva foi eleita em 2017, em Larochette, a primeira presidente da câmara de origem caboverdiana no país. A própria garante que "não é um símbolo, mas simplesmente como uma luxemburguesa empenhada". Outro caso, é a ex-apresentadora da RTL, Mónica Semedo: embora não eleita para o parlamento, a militante do DP apresenta-se como uma das cabeças de lista desse partido nas próximas eleições europeias. 

21 casos de discriminação racial em 2018

O Centro para a Igualdade de Tratamento que analisa e vigia a igualdade de tratamento de todas as pessoas independentemente da sua raça, religião, orientação sexual ou convições no Luxemburgo, contou 21 casos de discriminação racial no Grão-Ducado no ano de 2018. Uma gota de água comparada com as conclusões deste relatório. 


Traduzido e adaptado a partir de uma trabalho da nossa colega do Wort Sophie Wiessler


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