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Vídeo. Trauliicht, a tradição luxemburguesa do Halloween continua bem viva
Luxemburgo 12 1 6 min. 30.10.2021
Munshausen

Vídeo. Trauliicht, a tradição luxemburguesa do Halloween continua bem viva

Na tradição luxemburguesa, usam-se beterrabas em vez das abóboras.
Munshausen

Vídeo. Trauliicht, a tradição luxemburguesa do Halloween continua bem viva

Na tradição luxemburguesa, usam-se beterrabas em vez das abóboras.
Foto: Tourist Center Robbesscheier
Luxemburgo 12 1 6 min. 30.10.2021
Munshausen

Vídeo. Trauliicht, a tradição luxemburguesa do Halloween continua bem viva

Tiago RODRIGUES
Tiago RODRIGUES
Muito antes da versão americanizada do Halloween e das abóboras, já havia no Luxemburgo a tradição ancestral do Trauliicht, com as suas lanternas de beterraba. Em Munshausen, no norte do país, os habitantes estão a tentar dar uma nova vida à celebração dos mortos. Há portugueses que ajudam a reavivar a lenda.

Há no norte do Luxemburgo um lugar encantado em que nos perdemos no silêncio da natureza. No Centro de Turismo Robbesscheier, em Munshausen, há verde das plantas, há frutos e animais. E há uma floresta, grande e colorida como aquelas que vemos nos filmes, que nos convida a passear. Mas é uma floresta assombrada. No fim de semana, as pessoas idosas da aldeia vão ser bruxas entre as árvores para assustar os mais novos. Ali não se celebra o Halloween. Reza a lenda que há séculos, muito antes dos emigrantes irlandeses terem levado as suas tradições para os Estados Unidos, no século XIX, já havia pessoas da região das Ardenas a deixar os “trauliichter” nas ruas.

Na tradição luxemburguesa, usam-se beterrabas em vez das abóboras. Os habitantes da aldeia decoravam-nas com caras horríveis para afugentar os espíritos malignos e proteger as famílias e os animais dos mortos, que se dizia serem particularmente ativos nesses dias, no fim de outubro. O festival foi celebrado até aos anos 70, mas depois foi perdendo força. Agora, com o aumento da popularidade da versão americana do Halloween, o Trauliicht está a ganhar uma nova vida. Especialmente em Munshausen, onde por estes dias se revivem as tradições locais.

Paulo Estima é uma das pessoas que tem contribuído para esse ressurgimento dos velhos costumes. O português, de 50 anos, que está no Luxemburgo desde criança, é técnico do Centro de Turismo Robbesscheier há oito e considera importante que as pessoas recuperam a tradição que foi “o início do Halloween na Europa”.

O Trauliicht já existe há muitos anos. “Ainda antes da abóbora chegar à Europa. Servia para afastar os maus espíritos das casas durante o Inverno, porque era mais escuro e as pessoas tinham medo, por elas e pelos animais, com receio de que ficassem doentes”, conta o funcionário, que também é animador e ajuda a preparar as beterrabas.  “A tradição passa por limpar a beterraba e depois cada um faz a cara que quer, mais feia ou assustadora. A seguir mete-se uma vela lá dentro e põe-se a beterraba à porta de casa”. 

O Robbesscheier promove várias atividades durante a semana do Trauliicht, que começou no último sábado e se prolonga até ao dia 5 de novembro. Mas o momento alto é claro o fim de semana de 30 e 31 de outubro. “Vamos ter um cortejo à volta do centro, com histórias e música, e com as luzes das beterrabas no escuro. Depois vamos para a floresta e levamos uma boneca, que representa a bruxa, para ser queimada e afastar os maus espíritos”, explica Paulo.

O regresso da tradição que quase se perdia

As visitas ao Centro durante o fim de semana já estão esgotadas e são esperadas entre 150 e 200 pessoas em cada um dos dois dias. “É uma tradição mais familiar. As crianças divertem-se a fazer as caras na beterraba. É cada vez maior aqui no Robbesscheier e no Norte, sobretudo nas aldeias mais pequenas”. Uma mudança que o português vê com bons olhos, porque era algo que se “estava a perder” e agora as pessoas “estão mais viradas para as tradições”. “O Trauliicht estava a desaparecer, mas há coisas que não se podem perder. Perdemos cada vez mais tradições nestes países e as pessoas esquecem-se dos tempos antigos. E agora algumas gostam de revivê-los”.

Depois de fazerem as lanternas de beterraba e as levarem no cortejo durante a noite, os participantes queimam a boneca da bruxa na floresta e a seguir juntam-se todos para fazer pão numa fogueira e comer. Durante os outros dias da semana, há muitas outras atividades relacionadas com o Trauliicht no Robbesscheier, sempre ligadas à natureza. “Este Centro é como um museu vivo. Fazemos as coisas naturais, mostramos como se planta, como se fazem os bolos e pães, as velas, e todos os ateliers são com produtos naturais, para promover o contacto com a natureza. Evitamos tudo o que são plásticos”, disse Paulo, lembrando que também há cavalos e burros e que as crianças podem passear com eles. “Gosto que saiam daqui com alguma sabedoria. É importante que tenham este tipo de experiências”.

O português faz um pouco de tudo no Centro, desde os ateliers com as beterrabas à preparação das madeiras, mas também há atividades de padaria, lã, serração e cerâmica. Chegou ao Robbesscheier há cerca de oito anos, quando a firma de madeira onde trabalhava foi à falência e chamaram-nos porque tinha “experiência e conhecimentos técnicos”.

Sobre o Centro, revela que surgiu quando o espaço, que era um antigo estábulo, foi comprado por quatro amigos, que depois o renovaram para um museu com máquinas antigas. “Depois tiveram a ideia de fazer um café e pouco a pouco foram construindo este Centro de Turismo”. Agora, o Robbesscheier está aberto todos os dias, de segunda a domingo, com várias atividades e festas durante o ano, não só do Trauliicht como também do Natal ou Carnaval.

A lusodescendente que faz a animação

Numa das visitas durante a semana do Trauliicht, Cindy acompanha a filha Amélie, de 12 anos, para passarem o dia no Centro. Aquela mãe luxemburguesa já tinha estado ali com outra filha mais nova, Samira, de 7 anos, mas como são de idades e escolas diferentes, decidiu que iria aproveitar o tempo com as duas em dias diferentes. Durante a manhã, Cindy e Amélie estavam a fazer recortes de bonecos do Dia das Bruxas em tecido de lã.

Para as guiar pela quinta, tinham a ajuda de Marisa da Silveira, lusodescendente de 30 anos que ali trabalha há seis meses como animadora.“Temos várias animações, mas nem sempre é igual, tentamos personalizar consoante as pessoas que participam. Trabalhamos com a lã das ovelhas, mas também com outras coisas, como a padaria, costumamos fazer bolos de maçã, que é uma tradição daqui, e como é a semana do Trauliicht, fazemos uns caixões com um doce de morango para fingir que é sangue”, explica Marisa.

A animadora diz que as pessoas “adoram” fazer as visitas e as atividades e “voltam todos os anos”. “Muitas vezes os mais novos vêm três vezes, com a escola, os avós e os pais”. Durante aquela visita com Cindy e Amélie, a lusodescendente estava a acompanhá-las durante o dia. Depois dos bonecos de tecido de lã, Marisa levou-as até ao estábulo dos burros, para que a criança pudesse passear e cuidar de um deles. É sobretudo esse contacto com a natureza e os animais que atrai tantos visitantes ao Robbesscheier, especialmente na altura do Trauliicht. “Praticamente todas as pessoas que vêm aqui são de muito longe, porque perto de casa não têm sítios onde possam estar na natureza e com os animais”, justificou a animadora, que nasceu no Luxemburgo mas é filha de pais portugueses.

Sobre a tradição do Trauliich, Marisa explica que costuma acompanhar as crianças numa grande tenda, com muitas beterrabas, para as ajudar a fazer as lanternas. “Elas fazem como se fosse a abóbora, abrem, tiram o recheio, fazem o desenho da cara que querem e metem a vela lá dentro”, descreveu, enquanto duas meninas faziam a atividade, acompanhadas pelas mães e Paul, que as instruía sobre a forma como deviam trabalhar o legume. Depois de feitas as lanternas, os mais novos guardam-nas e nos dias 30 e 31 vão pela floresta, “onde estão os maus espíritos” e os idosos disfarçados de bruxas.

“Depois fazemos uma beterraba muito grande para ser queimada e as crianças fazem uns paus com fogo para o cortejo pela floresta. No fim, sentamo-nos num sítio bonito que temos para grelhar e vamos cozinhar pão para comermos todos juntos. É uma tradição de muitos anos”. E que por muitos mais se mantenha viva a chama do Trauliicht.

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